Uma paradinha pra lanchar. A fome bateu roncando no estômago vazio de Amanda. É verdade que ela não gosta de enfrentar filas de restaurante fast food. Seu dia de sorte. Com a cidade ocupada por pouca gente, apesar de não tão humanos, fica mais cômodo pedir seu combo de sanduíche, refrigerante com batata frita. Basta baixar o app fazer o pedido e em menos de 10 minutos sua refeição está pronta, saída diretamente de uma impressora 4D. As bandejas, colocadas por drones na bancada de retirada do serviço, esperam pelas garotas. Em volta, poucas crianças loiras de olhos azuis e de pele muito branca correm e brincam de rolar no chão. Uma delas acena para Beka que dá as costas e segue seu caminho até uma mesa da praça de alimentação:
Sentadas poderiam apreciar a minoria privilegiada, consumidora voraz e educada nas melhores escolas virtuais. Sim. As crianças mais abastadas estudam em casa utilizando o aplicativo desenvolvido em parte pelo renomado Dr. Wishonsky. O interface. Uma vez colocado o óculos V.R. o aluno se conectava com uma base de dados com informações sobre todo o conhecimento desenvolvido pela humanidade. Beka sorri para um garoto de 10 anos na mesa ao lado. Ele está com os olhos, cobertos por um óculos V.R; apontando para o teto de vidro translúcido da praça de alimentação com a boca aberta, imerso em sua simulação dentro da realidade virtual:
— Fico pensando... essa geração daqui a vinte anos... vai ser um exército de alienados.
— Pode ser que não, Beka. Olhe pra nós. Crescemos num mundo tecnológico, somos a segunda geração pós-guerra nuclear... assim mesmo não ficamos idiotas...
— Pode apostar...
— Me diz uma coisa. – Amanda termina de mastigar e engole um pedaço de cheese burguer. – O que te levou a se juntar ao 7° Distrito, você parece ser uma mulher arrojada... se veste como punk, mas gosta de luxo... O que te levou a abraçar a causa revolucionária em prol do povo e da justiça e da liberdade?
Beka aponta para o Cyborg limpando o chão a 5 metros dali.
— Está vendo aquela mulher varrendo?
— Sim.
— Reparou no rosto dela? Ela é implantada. Metade da face é metal e circuitos. Daqui a um tempo, quando ela tiver por volta de trinta anos. Ela será demitida e não terá como pagar o aluguel de seu minúsculo apartamento localizado, talvez, na Zona de transição de Ibiza. Sem perspectiva, ela vai buscar refúgio nos depósitos de lixo industrial onde será reduzida a uma catadora de carcaça de carros, naves e androides obsoletos. Eu estou aqui não só por ela, mas pelos imigrantes alienígenas e pela humanidade. Não podemos aceitar a tirania dos Bancos e das corporações...
Beka põe a boca no canudo e suga mais uma dose de refrigerante do copo.
— E você, Amanda? O que te trouxe até aqui?
— Keep me colocou nessa furada.
— hahahahahaha. Impossível. Quero detalhes.
— História triste, você não ia querer ouvir.
— Oh. Que isso? Não confia em mim. Sou praticamente sua amiga. – Sorriu Beka cutucando Amanda com o pé por debaixo da mesa.
De braços abertos, girando pelos corredores claros entre lojas e vitrines e marquises e placas e aromas de sorvetes misturados como perfume madeirado vindo das boutiques de roupas baratas; Amanda e Beka são bombardeadas com imagens giratórias intercaladas por milissegundos de lucidez com a tonteira neurótica da mente libertária. É o fim da adolescência, bem-vindas ao mundo adulto.
— A verdade sobre mim é estranha, Beka. Talvez eu esteja vivendo três vidas em uma... Uma menina presa em cena num parque com meus pais, uma adolescente deslocada tentando relembrar do seu passado e uma jovem adulta aprendendo a se virar do pior jeito possível...
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Alcaline
Science FictionAmanda é uma jovem de 19 anos que ganha a vida como traficante de drogas sintéticas nas ruas da decadente Amsterdã do ano 3567. Após perder seu namorado em um atentado ela descobre que sua cabeça está a prêmio. Sem saber o que fazer ela acaba por ac...
