2 - Cortejo

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Talia,

— O que achou? — meu pai, Divino, segura minha mão diante da nova placa da mercearia. — Seu avô chamaria de desperdício de dinheiro, ele não gostava de mudanças.

Fecho meus dedos na mão dele, sentindo o choro avançar pelo meu peito. Encaro a placa de fundo branco, escritas grossas na cor azul, contendo as informações indispensáveis. Numa fachada modesta assim, parece até melhor do que realmente é, e se destaca.

Pisco muito para deter as lágrimas, mas isso só as fazem descer mais depressa. Suspiro e viro o rosto para o meu pai.

— A antiga estava muito feia e desbotada, mal se via o nome do mercado.

— Será que sua avó vai gostar?

Tiro a mão da sua, levando-a para seu ombro. Beijo seu rosto e deito a cabeça ali.

— Vai sim. — digo, incerta.

— Você foi tão corajosa em deixar seu trabalho para vir pra ca, filha. Foi seu primeiro emprego e o único, em anos. Sempre elogiada pelo seu chefe. Nunca vou esquecer daquele quadro ridículo de funcionária do mês.

Rimos.

Eu era a única funcionária da pequena — e também única — lojinha de instrumentos musicais da nossa cidade. Macaé fica á 190 km da capital do Rio, 266 mil habitantes. Muito diferente daqui.

— Rodrigo queria me motivar, pai. Não zoa ele. — meu chefe inventava meios inusitados para que tal motivação não precisasse ser financeira.

Papai bate a mão na minha.

— Tem certeza que vai conseguir, filhota? Longe da sua mãe, do seu irmão... de mim. Fico preocupado em quando eu voltar para a casa, você...

— Consigo, pai. — me endireito, ficando de frente para ele. Limpo os olhos. — Tenho a vovó, a Fabi... e queria mesmo sair um pouco de Macaé, tentar coisas novas.

— A gente sabe o que você nasceu para ser. — Ele se refere a música, meu passatempo preferido — Desde novinha canta nas missas, toca majestosamente. Quem sabe sua mãe vencendo essa eleição, não possamos investir na sua carreira? Rio é metrópole, as oportunidades estão concentradas aqui.   — Ele acredita que precisa me oferecer estímulos para eu querer morar na favela, longe dos meus amigos, família. Mas...

— Pai, fica tranquilo que eu estou gostando daqui, sério! Me assusta um pouco, as vezes, mas vai dar tudo certo. — Na verdade, morar com minha avó sempre foi tipo um sonho.

Tem também o fato que eu não aguentava mais lidar com as fofocas sobre o que aconteceu entre mim e o José, meu ex namorado, la na minha cidade. Não aguentava mais ser questionada sobre as opções dele, como se tivesse influência sobre aquilo. Fora que lá, não sou outra coisa senão a filha da candidata a vereadora Rosa.

A família dela, da minha mãe, é inteira de Macaé, lugar em que ela nasceu e só saiu para vir a passeio pro Rio. Foi então que conheceu meu pai, trocaram contatos, viajaram algumas vezes para se encontrar e logo minha mãe estava grávida de mim. Ela não queria viver longe dos pais, e também temia por ter sua primeira filha numa comunidade.
Apaixonado, meu pai fez as malas e se mudou. Ele tem um bom emprego na prefeitura, assim com minha mãe, ambos não poderiam simplesmente largar tudo para morar no Sol. Assim, sendo a neta mais velha — já que somos somente eu e meu irmão de catorze anos —, me ofereci para fazer companhia a vovó, cuidar dela e do mercadinho. Não queríamos causar mais sofrimento a ela fechando o comércio que lutaram tanto para manter durante uma vida inteira. Vó Betina é incrível.

— Acho que descobri o que quero, sabe, Daddy. — chamo ele assim de vez em quando. — Sinto que tenho algum propósito aqui.

Estou feliz. Talvez eu tenha encontrado meu lugar.

— Quem sabe.... Eu queria mais pra você. — acaricia meu rosto.

Ele tirou  licença no trabalho para me ajudar a estabilizar as coisas até eu me sentir segura, o que, na verdade, já me sinto. Não tem muito mistério, já me inteirei de tudo que precisava. Mesmo assim, ele quer garantir que ficarei bem, que a vovó ficará bem. Tínhamos medo de ela acabar depressiva pela falta do meu avô. Eles se casaram muito jovens, jamais se separaram na vida. Mas não vou permitir que isso aconteça.

— Já sei! — digo animada. — Vamos sair para lanchar hoje à noite, depois da missa. Vou lá contar a vovó.

Bati continência pro meu pai, uma brincadeira interna que sempre fazíamos em referência a ele ter servido o exército.

Quando ia saindo, notei as motos fazendo cortejo na frente de um carro tocando som alto, e reconheci a música " Not so bad". Achava a  tradução bem triste.

Quando o veículo passou por nós, vi os três amigos la dentro: Alcaida dirigindo, Ninja no carona e Bazuca no banco de trás.

Dois dias decorreram desde aquele olhar marcante queimando minha pele e agora ele me olhava da mesma forma de novo, me deixando zonza.

O japonesinho tinha expressão de moleque, o corpo reclinado, envolto por fumaça. Me olhou de canto de olho, puxou o lábio num sorriso e bateu continência para mim.

Percebi só naquele instante que estava com a mão na testa ainda. Meu Deus, que vergonha!

Meu pai mexeu a cabeça, cumprimentando. Os três responderam com o mesmo gesto. Alcaida, um ar de quem estava cagando pra tudo, voltou a olhar pra frente.

Humilhada, entrei depressa. Queria me enterrar!

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