Dias se foram e outros vieram sem que eu voltasse a receber ligações do Aron tarde da noite. Aliás, eu não soube mais nada dele.
Dia após dia, me arrumei com afinco para trabalhar, preparada caso ele aparecesse.
Ele não apareceu.
Foram dias tediosos. Eu senti saudades do que nem tive.
Onze dias. É, eu contei. Lavei a camisa dele e escondi no guarda-roupa para ser devolvida assim que possível. Não me permiti sequer olhar para ela. Não ia bancar a adolescente carente.
Quanto a situação com o Júlio, no dia seguinte a ligação do Alcaida, Cibele veio trabalhar. Quando minha avó entrou no assunto, ela começou a chorar desconsoladamente. Eu busquei água; vovó puxou uma cadeira para ela sentar.
Disse que os soldados do Alcaida buscaram o Júlio em casa.
Fiquei assustada. Como assim?
Alcaida não mencionou nada.
Tive que sentar, atenta.
Cibele assumiu ter tentado arranjar um namoro entre nós dois, eu e o Júlio. Garantiu que ele não tinha mais nada com a Bia, a ex nora que ela não era muito chegada. Repetiu tudo que eu já sabia.
Mas eu não entendi porque tantas lágrimas serpenteavam seu rosto. Ela suspirava em meio as frases. Então contou que Júlio foi impedido de sair para me encontrar, porque a tal Bia fez o maior escândalo na porta de sua casa. Gritava a plenos pulmões que ele não podia fazer " aquilo" com ela — mais tarde, Cibele soube que ela falava de mim.
— Como ela descobriu que ficamos na praia? — perguntei horrorizada.
Cibele não sabia dizer.
A tal Bia fez tanto barulho, que os caras da firma tiveram de intervir. Levaram os dois.
Cibele, desorientada, foi atrás.
Não a deixaram passar do portão da casa onde estavam. Bazuca mandou ela voltar.
Para Cibele, seu filho iria morrer.
Disse que, até determinado momento, tinha esperanças. Bazuca tinha um bom coração, todos sabiam disso, mas quando o Alcaida atravessou o portão, soube que o filho não veria a luz de um novo dia.
A cada palavra, eu pensava que não podia ser o mesmo Alcaida.
Disse que ele saiu lá fora, fumando, com o papagaio no ombro. Com os olhos grudados na parede e o queixo tremendo, ela repetia: " Pensei de verdade que meu filho morreria."
Pelo que entendi, Ninja cuidava de um lado do morro; Bazuca, do outro. Alcaida não mudou as funções ao voltar. Deixava que cuidassem dos assuntos. Só aparecia se fosse necessário. Em resumo, não era bom sinal ele estar presente num simples caso de discussão de casal.
Ele pessoalmente a mandou pra casa. Ela teve de ir. Não seria louca de desobedecer.
" O jeito que ele olha pra gente... eu só esperei aparecerem com o corpo do meu filho! " repetiu ela, enfiando o rosto na gola da blusa verde que usava, deixando a mim e a minha avó sem saber como consolar.
Alcaida era tão mau assim?
O fim da história foi que Júlio apareceu inteiro, um tempo depois, acompanhado da Bia. Graças a Deus.
Parecia loucura. Alcaida nem bebia, era sempre tão calmo. Só podia ser invenção... mas Cibele não ia mentir. Ela está em choque ainda.
Aquela era a realidade nua e crua — eu o via com outros olhos, mas ele era perverso.
Temi tanto, tanto pelo Júlio... era tão injusto que por uma briguinha besta ele e a ex tivessem passado aquilo tudo.
Fabi me botou ainda mais medo repetindo que havia me avisado que ele era um monstro e não acreditei. Realmente, até ouvir e ver a Cibele, eu achava a Fabi exagerada, pensava que só queria me apavorar. Aparências enganam mesmo...
Parte do meu coração celebrou que ele tinha desistido de me procurar. Queria que a outra parte também fosse convencida...
Nem acredito que deixei ele entrar na minha mente com suas atitudes deliberadas e palavras bonitas. Devia ser mole para ele fazer uma garota inexperiente como eu ficar maluca. Aparecendo e desaparecendo, causando picos de adrenalina, depois, abstinência.
Foi um daqueles momentos em que a gente se da conta: eu estava perdida.
O testemunho da Cibele não diminuiu em nada meu desejo de revê-lo.
Na verdade, eu não sabia se algo poderia.
***
- Amiga! Amiga! – Fabi empurra umas pessoas da frente até me alcançar.
Estamos atrás do pequeno palco, montado na praça da igreja. Sua testa brilha de suor. Ela ofega.
– Toma. Caraca... foi foda achar essa coisa.
- Nossa, valeu mesmo. – seguro a palheta rosa que ela me estende.
Ela se curva, descansando com as mãos nos joelhos. Teve de correr, tadinha, estávamos em cima da hora.
– Você é demais. – a levanto para um abraço.
Ela me afasta com educação.
Não curtia grude.
Ouvimos a dupla de cantores se despedirem no microfone. Quando descerem do palco, é minha vez de subir.
Estou nervosa!
- Por que tinha que ser essa? - Ela pergunta, observando a peça pequena em minha mão.
- Ela é especial. Vovô Natanael me deu quando eu tinha dez anos. Não podia ser outra. Ainda mais hoje. – beijo o pequeno objeto.
- Ótimo que consegui então. — ela me analisando inteira. — Pronta pra fazer teu nome?
- Sim. Pronta. - respondo, confiante.
Ensaiei muito. Daria meu melhor.
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Pique
RomanceEle é uma bomba, um perigo. Ela sabe que não deve se arriscar tão perto, que pode se ferir com uma iminente explosão. Lia tem 19 anos, e uma perda a levou para o morro do Sol. Ajudar a família vem em primeiro lugar, até mesmo antes de seus desejos...
