Papai chegou na hora do jantar em casa. Passou o dia na companhia de um amigo antigo que eu não conhecia.
Enquanto ele tomava banho, vovó e eu ficamos à mesa de jantar. Ela tentava me convencer a ligar para o Jc e perguntar que raios ele achava que estava fazendo.
Eu me recusava a correr atrás dele. Se disse que me explicaria pessoalmente, vou aguardar. Eu estava mais interessada era em outra coisa...
Fingi não estar ansiosa pela ligação. Devo ter fingido bem — ninguém pareceu notar.
Vovó foi dormir mais cedo em decorrência dos remédios. Meu pai resolveu ir pra sala ver filmes; ou seja, dormiu também.
Faltando dez para meia-noite, saí para o quintal. Tínhamos samambaias por todo canto e um banquinho de ardósia de jardim, que é onde me sento com uma goiaba na mão.
Cara, eu era uma vadia aceitando ligação de homem comprometido.
Não podia ser tão burra para me deixar entrar naquela fria. Mas como parar isso?
Fabi disse que ele era silencioso como uma serpente. Eu precisava tomar cuidado. Criar coragem para acabar logo com o que ele tivesse em mente. Não seria seu segredinho sujo.
Não que fosse má ideia fazer sexo com um homem como ele e...
Meu celular me acordou com a voz de Jorge e Matheus.
Dei um salto, quase jogando o resto da goiaba para o alto. Puxei o ar e atendi, notando que serem exatamente 00:00.
- Pelo menos você é pontual. - disse, troçando.
- Sou chatão com horário, papo reto. - sua voz com certeza ficava mais poderosa ao telefone.
Eu estava com tudo em mente para dizer: uns dez motivos para ele nunca mais falar comigo na vida. Mas acabei simplesmente mordendo a goiaba, desligada enquanto saboreava sua voz de trovão.
- E ai? Pô, maneiro tu me atender... Pensei que ia ignorar. Maior prazer poder tá falando contigo assim, mais reservado.
Engoli um pedaço da fruta que quase ficou entalado.
Depressa, recuperei o domínio para responder:
- Atendi pra dizer que você não pode mais me ligar. Que não vou ser mais uma nas suas mãos e jamais, nunca, ficaria com um homem que tem namorada!
- Tô ligado, Talia... Sei tudo sobre a tua família, tô ligado que você não se envolveria em algo assim. Não vou pensar mal de você.
- Como sabe tanto sobre mim? - não consegui esconder a perplexidade.
- Teu pai é conhecido de geral aí no morro. Não sou nenhum maníaco, fica tranquila. Não precisa ter medo.
- Ah, com certeza tenho medo de você. - falei sem pensar.
- Te dei algum motivo pra isso? Muito pelo contrário, né, te tratei benzão. Mereço um voto de confiança.
Ele não estava errado; era muito astuto. Mas eu sentia que por trás de sua gentileza havia muito a ser descoberto. E não eram coisas boas...
- Só atendi pra pedir que não me ligue mais, por favor. - foi barra, porque não era o que eu queria de verdade.
Ele delongou o silêncio, então sua voz ressurgiu:
- Lia, aquele dia tu disse algo que me fez pensar. Eu tô com a Yara por gratidão. Pô, a mina foi meu fechamento por dois anos. Ela não tinha que fazer e fez, se dedicou a mim. Acontece que a gente tá meio brigado desde sábado... eu nem sei mais qual vai ser.
Tive empatia — apenas por um segundo.
- O que você quer comigo?
- Posso ser sincero?
- É o que eu espero.
- Quero te conhecer melhor. Tu me intrigou. É diferente de tudo que eu já conheci.
As palavras percorreram meus ossos. Soavam sinceras, mas não sei...
- Você não deveria trair a mulher que te ajudou.
- Por que a gente não para de falar dela? Eu quero saber de você.
Bom... ponto para ele.
- Você deve dizer isso pra todas, ilude todas.
- Que mané iludir. Ta maluca? Eu não preciso iludir ninguém.
Ao invés de raiva pela resposta soberba, senti lisonja.
- Não acho uma boa ideia. Não me sinto confortável. — insisti.
- Ninguém precisa saber, Talia, se é essa tua preocupação. Tu pode salvar meu contato com o nome de alguma amiga. Quem vai descobrir que a gente se fala? Não tem como.
- Eu vou saber. Fica parecendo que estou fazendo algo errado.
- Não vai acontecer nada que você não queira. Mas se tu falar pra eu não ligar mais, não ligo.
- Não sei. - eu queria conversar com ele, mas parecia uma péssima decisão. - se minha avó descobre...
- Ninguém mexe no meu celular, como te falei, e tu vai salvar meu número com outro nome. Nem eu, nem tu vamo contar pra ninguém.
- Você está falando comigo da sua casa? Me disse que morava sozinho.
- E moro. Tô sozinho agora. Quer colar aqui? Mando te buscar na esquina.
- Não! - cobri a boca, tentando não gritar.
- Você disse que era só ligação! Olha, não vá achando que eu sou qualquer vagabunda!
Arranquei o último pedaço da goiaba, furiosa.
- Terminou? - perguntou ele, rindo.
- Terminei. Aliás, não. - me inclinei para frente - Não quero que você fale coisas assim pra mim de novo!
- Calma... não vou mais falar.
Cogitei desligar, contudo, descobri que esse cara era viciante. Quanto mais eu ficava perto dele ou ouvindo sua voz, mais eu queria.
- Tu dorme cedo? - ele mudou o assunto, e me peguei agradecida.
Não demonstraria, óbvio.
- Sim, muito cedo. Tenho que ir dormir. Adeus.
- Amanhã ligo no mesmo horário, então. - não estava consultando minha opinião.
- Vai mesmo me ligar?
— Você quer?
Eu não sabia o que dizer.
Escutei algo ao fundo da ligação.
Reconheci ser de uma ave.
Ótima distração.
- Você tem um papagaio? - perguntei, chocada.
"Uuuuhhhhh"
O bicho assoviou.
- Tenho. Fala com ela, Zé.
- Por que você teria um papagaio?
- Ganhei da minha ex. Curto bichos. Quando fui preso Bazuca cuidou dele pra mim.
Meu coração afundou.
Está na cara que ele não ama a Yara, que só rola entre eles uma conciliação de interesses. A ex "oficial", é outra história.
- Calorão, tá maluco... acabei de dar um treino e agora tô de marola com ele aqui na piscina.
— Como assim, treino? Você foi à academia?
— Tenho uns aparelhos em casa. Pouca coisa mermo, só pra liberar a energia acumulada, sabe como? E tu, o que tá aprontando?
Olhei pra minha piscina, tendo uma ideia absurda.
— Estou na piscina também.
Coloquei o celular na borda e pulei na água morna de pijama de ursinhos rosa e tudo.
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Pique
RomanceEle é uma bomba, um perigo. Ela sabe que não deve se arriscar tão perto, que pode se ferir com uma iminente explosão. Lia tem 19 anos, e uma perda a levou para o morro do Sol. Ajudar a família vem em primeiro lugar, até mesmo antes de seus desejos...
