- Estou assando nesse vestido! – ela sacode a barra preta de seu vestido rodado e rendado. Ele é macabramente estiloso.
- Olha, desculpa por fazer você ir até la... Mas, fora nosso acordo, o que você quiser comer aqui hoje, eu pago.
- Nada a ver, cara, amiga é pra essas coisas. – Ela corre os olhos por mim e pelo meu vestido escuro. – E ai, o padre já te viu? – um sorriso se apresenta em seus lábios pintados de vermelho.
- Nãooooo. – cubro a boca, segurando a alça da capa do violão no meu ombro. – Tomara que nem veja. – confiro as pessoas atrás da gente.
Todos os membros da igreja, vestidos a caráter, estão em constante movimento, fazendo seu melhor para que a festa junina seja um sucesso. Reabastecem as barraquinhas, vendem e resolvem coisas.
- Ele deve estar ocupado com o bingo ainda. – digo.
Minha avó e meu pai estão no bingo, numa mesa longa localizada sob uma tenda e rodeada de senhoras. As amigas da terceira idade da minha avó estão presentes, ansiosas pelos prêmios. Meu pai foi levado por elas a força, pobrezinho. Não ficou nada feliz. Desde que vestiu seu look de camisa xadrez, suspensório e calça remendada, ele não parece muito à vontade. Ainda mais porque pintei seu dente e o forcei a usar um chapéu de palha, Minha avó bateu palmas e sorriu, ao vê-lo pronto. Parecia um caipira nato. Fabi nos fotografou e enviou as fotos no WhatsApp da minha mãe, que elogiou o vestido cheio de babados e laços da minha avó, mas reprovou o meu.
Acontece que depois que o Nick – o cachorro da mãe da Fabi – comeu o vestido rosa que ela ia me emprestar, não tínhamos tempo para arranjar coisa melhor e tivemos que improvisar com um dos vestidos sombrios dela. Fui obrigada a usar uma meia grossa que pega na metade da coxa para não matar o padre Anselmo do coração mostrando muita pele. Também vesti luvas sem dedos, e Fabi me induziu a usar um enfeite de flor vermelho no cabelo. Persuasiva como é, me convenceu que um batom vermelho e uma gargantilha, trariam mais estilo e personalidade a minha roupa. Roupas de shows nunca são comuns, isso é fato, mas eu estava parecendo uma meretriz dos anos 90. Não seria uma roupa que o padre iria aprovar, e eu esperava adiar o encontro com ele o quanto desse.
Entre as pernas dos músicos da dupla sertaneja, no palco – eles estão desmontando os instrumentos –, acabo vendo o JC perto da barraca de pamonha e milho em que sua mãe está trabalhando. Ele veio sozinho, comprovando que Cibele disse a verdade: não reatou o namoro.
Até porque uma das condições para terem sido liberados ilesos era de que teriam que se resolver. Foram proibidos pelo Bazuca de causarem tumultos na rua ou em qualquer lugar. Cibele não sabe bem o que foi dito ao Jc antes de ele milagrosamente ser liberado sem um arranhão, mas ficou grata e aliviada, apesar do susto.
O que estranhei, apesar das desculpas vagas da Cibele, foi ele não ter mais me procurado nem para se explicar. Ainda que a mãe tivesse feito isso em seu lugar, e eu tivesse entendido numa boa, foi chato ele não ter mandado mais mensagens nem ter aparecido na mercearia, como prometeu.
Fabi nota para onde estou olhando.
- Pretende falar com ele? – pergunta, tirando meu violão da capa preta. – Tá nervosa não, Lia? Cantar assim... Bagulho lotadão. – apertou as sobrancelhas, o violão marrom que eu mesma comprei com meu primeiro salário, reluzindo em sua mão.
- O que acha, minha assistente? – combinamos que ela seria minha estilista também. No início da carreira – que não será longa nem promissora – seu pagamento são todos os Fandangos e Toddynhos do mercado que ela quiser consumir. - Lógico que estou uma pilha. Não gosto de me apresentar pra muita gente...
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Pique
RomanceEle é uma bomba, um perigo. Ela sabe que não deve se arriscar tão perto, que pode se ferir com uma iminente explosão. Lia tem 19 anos, e uma perda a levou para o morro do Sol. Ajudar a família vem em primeiro lugar, até mesmo antes de seus desejos...
