13 - Só comigo

2.3K 279 65
                                        

- Você não bebe? – repousei a cabeça no encosto do sofá, fitando o céu e tomando um bom gole da caipirinha ainda gelada.

- Só energético, refri... não bebo e não uso drogas. – respondeu. Não nos olhamos, no entanto, suspeitei que ele estivesse deitado como eu. Lá em baixo, o som continuava alto.

- Estava fumando maconha agora. – refuto.

- Não conta, é natural. Faz mais bem do que mal.

Ficamos em silêncio.

- Por que não bebe? – puxo mais papo, já que terei de continuar aqui esperando minha amiga.

- Uma longa história. – ele se limita em dizer. – E tu? Pelo jeito, curte chapar. Fuma também?

Dou risada.

- Não tenho tanta coragem, penso muito nos meus pais antes de fazer qualquer coisa errada. – inclusive, estou nesse momento pensando o que eles achariam se me vissem num sofá ao lado de um cara como o Alcaida. – Como você fazia na prisão? Digo, pra ter maconha?

Olha eu, querendo saber truques de ex-presidiários.

- Nego da seu jeito. Pra tudo nessa vida tem um jeito. Só não pra morte.

Viro a cabeça. Ele, como imaginei, olhava para o céu. Mas passa o enfoque para mim também.

Meu coração se contrai com a beleza dele. Sinto uma eletricidade me puxando. Imagino como seria beija-lo num universo paralelo.

Seria loucura. Nem sei porque fico devaneando.

E ele  — ainda bem — me considera somente a neta da dona Betina, uma menina boba. Eu deveria agradecer por ser assim.

Uma voz na minha mente, teimosa, insiste que não é bem gratidão que estou sentindo.

- Você ama sua mulher? – por que diabos perguntei algo tão pessoal do nada?

Cara, seria melhor eu beber uma água.

- Amor? Pô.. — riu fraco —  parada complexa. – bebeu de seu copo. – Tu já sentiu isso? Amor? Por um homem?

Pelo tom da pergunta, e pelo seu olhar, me considera inexperiente.

Pois eu minto:

- Claro. Quem nunca, né? – ri sem jeito, entornando a caipirinha. Seria muito mico falar que os únicos homens que amei na vida têm meu sangue.

É intrigante como ele parece normal, não um monstro como dizem. Acho que estigmatizam o coitado.

- Então tu já namorou? – ele se posiciona de modo a conseguir me ver melhor.

Estou pelando de timidez.

Engulo mais álcool. Preciso recuperar o controle da situação, se é que o tive em algum momento.

– Vai com calma, essa caipirinha tá forte. — advertiu ele.

—  Brigada por se importar, mas vou ficar bem. – me levanto.

Já diante da mesa, escolho long neck de Bud no balde, abandono meu copo e tento abrir a tampinha.

Merda.

- Será que...  pode abrir pra mim, por favor? Não consegui. – levo até ele.

Por que estou tão para baixo se estava feliz há meia hora?

Ele arranca a tampa com a aliança, que deve ter sido o olho da cara.

Me devolve a cerveja.

- Obrigada. Por isso e pela ajuda com a sandália. Não sou mal educada. — fito seus olhos densos.

Pique Histórias para pegar e não largar. Descubra agora