- Você não bebe? – repousei a cabeça no encosto do sofá, fitando o céu e tomando um bom gole da caipirinha ainda gelada.
- Só energético, refri... não bebo e não uso drogas. – respondeu. Não nos olhamos, no entanto, suspeitei que ele estivesse deitado como eu. Lá em baixo, o som continuava alto.
- Estava fumando maconha agora. – refuto.
- Não conta, é natural. Faz mais bem do que mal.
Ficamos em silêncio.
- Por que não bebe? – puxo mais papo, já que terei de continuar aqui esperando minha amiga.
- Uma longa história. – ele se limita em dizer. – E tu? Pelo jeito, curte chapar. Fuma também?
Dou risada.
- Não tenho tanta coragem, penso muito nos meus pais antes de fazer qualquer coisa errada. – inclusive, estou nesse momento pensando o que eles achariam se me vissem num sofá ao lado de um cara como o Alcaida. – Como você fazia na prisão? Digo, pra ter maconha?
Olha eu, querendo saber truques de ex-presidiários.
- Nego da seu jeito. Pra tudo nessa vida tem um jeito. Só não pra morte.
Viro a cabeça. Ele, como imaginei, olhava para o céu. Mas passa o enfoque para mim também.
Meu coração se contrai com a beleza dele. Sinto uma eletricidade me puxando. Imagino como seria beija-lo num universo paralelo.
Seria loucura. Nem sei porque fico devaneando.
E ele — ainda bem — me considera somente a neta da dona Betina, uma menina boba. Eu deveria agradecer por ser assim.
Uma voz na minha mente, teimosa, insiste que não é bem gratidão que estou sentindo.
- Você ama sua mulher? – por que diabos perguntei algo tão pessoal do nada?
Cara, seria melhor eu beber uma água.
- Amor? Pô.. — riu fraco — parada complexa. – bebeu de seu copo. – Tu já sentiu isso? Amor? Por um homem?
Pelo tom da pergunta, e pelo seu olhar, me considera inexperiente.
Pois eu minto:
- Claro. Quem nunca, né? – ri sem jeito, entornando a caipirinha. Seria muito mico falar que os únicos homens que amei na vida têm meu sangue.
É intrigante como ele parece normal, não um monstro como dizem. Acho que estigmatizam o coitado.
- Então tu já namorou? – ele se posiciona de modo a conseguir me ver melhor.
Estou pelando de timidez.
Engulo mais álcool. Preciso recuperar o controle da situação, se é que o tive em algum momento.
– Vai com calma, essa caipirinha tá forte. — advertiu ele.
— Brigada por se importar, mas vou ficar bem. – me levanto.
Já diante da mesa, escolho long neck de Bud no balde, abandono meu copo e tento abrir a tampinha.
Merda.
- Será que... pode abrir pra mim, por favor? Não consegui. – levo até ele.
Por que estou tão para baixo se estava feliz há meia hora?
Ele arranca a tampa com a aliança, que deve ter sido o olho da cara.
Me devolve a cerveja.
- Obrigada. Por isso e pela ajuda com a sandália. Não sou mal educada. — fito seus olhos densos.
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Pique
RomanceEle é uma bomba, um perigo. Ela sabe que não deve se arriscar tão perto, que pode se ferir com uma iminente explosão. Lia tem 19 anos, e uma perda a levou para o morro do Sol. Ajudar a família vem em primeiro lugar, até mesmo antes de seus desejos...
