39 Passo maior que a perna

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No rosto dele, li que provavelmente não sabia o que era diversão há um bom tempo.
Estava nitidamente gostando daquela descontração entre nós, que acontecia naturalmente. Pelo que vi naquela "visão", ia gostar futuramente também.

Estava impressionada por ter tido uma. Vovó sempre contava sobre essas coisas místicas trazidas pelo nosso DNA, era normal nas gerações de sua família de ciganos. Mas eu não sabia como era na prática, nunca tive nada além de sensações e pressentimentos. Foi algo como respirar, não precisei fazer nenhum esforço ou um ritual macabro. Simplesmente, aconteceu. E foi incrível. Perfeito como esse momento presente.

Eu o observava, e só pensava que aquele homem era uma caixa vedada que nunca foi aberta. Era dura e escura a matéria na qual ele foi forjado, a vida que deve ter tido, isso estava escrito nas linhas de sua expressão experiente e nas rugas de tensão de seu rosto. O processo o fez ficar assim, tão lacrado por fora, sempre com aquele olhar de abismo infinito e incompreensível, de alguém machucado. Eu tinha a sensação de ser impossível adivinhar o que havia dentro dele. Alguém o queimou, deformou, derreteu e o moldou nesse formato. Me compadeci por ele.

Ali, no carro, cantando comigo e me vendo com os cabelos ao vento na janela, por um momento, ele ficou transparente, e eu, feliz por perceber a sutileza da mudança. Vi através dos buracos negros enigmáticos que eram seus olhos, que estava enfeitiçado pela novidade que eu representava. Ousei pensar que nunca esteve com alguém que o fizesse se sentir ele mesmo, jovem como um garoto pequeno — o antigo objeto sem forma que foi um dia.

Ele emitia, pela linguagem corporal, uma forte indicação de que me considerava a companhia mais agradável do mundo. Me olhava como se eu fosse uma paisagem dos Alpes Suíços ou — o que no caso dele faz mais sentido —, um lindo paco de dinheiro.

- MINHAS COSTAS TRAVARAM, ME AJUDA AQUI! - solicitei sua mão em auxilio. O ponto de luz em seus olhos, se avivou mais.

Era como ter dois faróis de carro apontados pra minha cara, e eu fiquei vaidosa, amando a sensação de poder que sentia ao seu lado. Por ele ser ele e me fazer sentir diferente das outras.

Forte, me puxou com facilidade da janela, pois eu era leve: seu braço devia pesar mais que eu. E diminuiu o volume da música, enquanto eu prendia meu coque de novo, que se desmanchou devido a violência do vento. 

- Maluquinha tu, ne?  - comentou com humor e em tom quente, depois despregou os olhos e fitou através do para-brisa. - Chegamos.

Claro que os caras que andavam atrás dele por todo lado estavam parados em frente a casa. Também os vi no parquinho.  Mas, misteriosamente, não o acompanharam até a esquina onde ele me pegou. Ele pode ter exigido alguma privacidade... e isso me deixou ainda mais lisonjeada. Me dei conta de que, para me preservar, ele se arriscou indo sozinho me pegar.

Sua casa era a última de uma ladeira íngreme, no final de uma rua quase inabitada. O segundo andar dela, e o telhado branco, subiam por trás do muro e do portão, intimidadores. Dava a maior pinta de lugar construído com dinheiro do tráfico. Ele desligou o motor quando entramos numa garagem quase subterrânea, por onde foi manobrando com cuidado e vigiando os retrovisores, afim de não arranhar a lataria tinindo. A casa era acima do nível da rua, a garagem, abaixo. Achei tendência.

Calado, ia acendendo luzes ao longo daquela garagem e rampas. A casa inanimada ganhava vida, um cômodo por vez.

- Imaginei mesmo que sua casa era linda, quando vi, na chamada de vídeo. - falei, assim que o quintal rodeado por um parapeito de vidro surgiu diante de nós.
Era uma baita área de lazer.

Lógico que meu eu criança correu até o parapeito. Pessoalmente, era ainda mais bonita a vista e a cor azul-turquesa da água, bem como o verde das plantas Agaves nos canteiros do gramado.

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