Tomei um banho rápido. Sequei o cabelo.
"Só vou levar a Isa no pai dela e tô voltando pra ter um papo contigo. Sai ai fora daqui a meia hora." , isso chegou no meu celular.
Tipo, não era uma pergunta nem tampouco sugestão. Era um aviso.
Minha avó preparou tapioca para todos na janta, depois subiu para o seu quarto. Disse que tomaria um banho e iria se deitar para ver sua novela preferida. Meu pai estava na sala, vendo tv. Ou seja, dormiria também.
Eu nem pestanejei em aceitar o encontro, sabia que iria desde que li a mensagem. Estava muito curiosa para saber o que o Alcaida ia dizer. Queria falar sobre a agressão. Hoje, pelo jeito, eu queria tudo. Só que esse "tudo" não podia ser dito na porta da minha casa. Seria pedir para ser pega.
Antes de levar o prato para a pia, digitei uma resposta:
" Te espero na esquina de baixo. Não podemos ficar em frente a minha casa. "
Ele mandou um mero e seco joinha.
Que esnobe!
Meu look era o short-saia de academia preto, um top curtinho combinando e tênis. Não queria dar a ideia de ter me preparado demais.
Como a sala ficava no andar superior, subi até metade das escadas para me certificar de que meu pai estivesse — como imaginava — dormindo. Espichei o pescoço quando cheguei ao quinto degrau. Ele não estava. Droga.
- Pai, preciso ir ali na Fabi rapidinho. - avisei vagamente, soando casual.
- Tá... não volta tarde. - respondeu ele, sem despregar os olhos do jogo.
O carro preto esperava por mim parado taciturnamente na esquina pra baixo do bar. Receando ser vista e difamada, confirmei que não havia testemunhas, puxei a porta e cai no banco, eufórica.
Meu coque se afrouxou pelo movimento que fiz. Enquanto o prendia de novo, me dei conta de onde e com quem estava. Imediatamente a estática estranha desceu pelo meu corpo, pernas e ponta dos dedos dos pés. Fui virando a cabeça lentamente para o sujeito suspeito que observava cada detalhe da minha pessoa.
Espantosamente, ele tinha uma aparência que contradizia sua ficha.
Gostar da adrenalina que ele causava não era bom sinal.
Havia uma ligação inegável em nosso olhar. Ele me transmitia confiança.
- Podemos ir pra outro lugar? - lembrei de pedir. Por mim, confesso, passaria a noite só olhando pra ele.
Prontamente, ele dirigiu. Estacionou numa rua escura e erma. Ali, certamente, não correríamos risco de sermos vistos.
O cheiro dele dominava o carro.
Era babado.
- Por que tu não me responde quando te mando mensagem? - sua voz dizimou a coragem que me levou até ali. Ela tinha um toque grave e fundo, indicando de quem era o controle da situação.
- É melhor assim, Aron. - esfreguei as mãos nos joelhos.
Ele me olhava de um jeito... profundo.
- Melhor pra quem? - se mexeu de leve no banco, fazendo uma pequena contração facial de ironia.
Não respondi. Ele baixou os olhos.
- E teu braço, melhorou?
Sua mão algemou meu pulso. Ele acendeu a luz do teto pra averiguar de perto. Constatou por si mesmo que as marcas agora estavam fracas e com a duração contada.
O polegar passou atenciosamente sobre elas, caricioso. Ainda mantendo meu braço em seu colo, escalou os olhos ao longo dele até meu rosto. Revezou o olhar entre cada um dos meus olhos, e eu não sabia nem mensurar o que estava sentindo. Era explosivo, me devastando por dentro de um jeito incrível. Eu me sentia alguém. Para ele, eu era importante. Assim como ele era para mim. Seu toque chegava a lugares do meu âmago que eu desconhecia.
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Pique
RomantizmEle é uma bomba, um perigo. Ela sabe que não deve se arriscar tão perto, que pode se ferir com uma iminente explosão. Lia tem 19 anos, e uma perda a levou para o morro do Sol. Ajudar a família vem em primeiro lugar, até mesmo antes de seus desejos...
