16 - Que Deus me livre !

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No outro dia, acordei com uma senhora dor de cabeça. Na verdade, era como que ter o cérebro espancado por um martelo.

Dormi na casa da Fabi, descobri, ao olhar ao redor. Mais precisamente, na caminha precária de solteiro do quartinho extra.

Na verdade, o sol é que me acordou, batendo em cima do meu rosto. Minha boca tinha um gosto péssimo, e eu não me lembrava de como vim parar aqui.

Sentei, sentindo o estômago resmungar. Olhei para meu pé. A camisa amarrada nele me fez lembrar da noite anterior.

Simplesmente bebi demais, machuquei-me e, para finalizar, fui chamada de cadela pela mulher do Alcaida. Ah, não poderia me esquecer de que quase lavei os tênis dele de vômito.

Infelizmente, a amnésia não fora um dos sintomas da ressaca. Eu adoraria esquecer essa humilhação.

Empurrei o lençol que me cobria, enumerando meus problemas:

1º - Meu pai deve estar puto.

2º Tenho que trabalhar de ressaca.

3º Tenho um grave ferimento que está doendo.

4º Fabi vai me matar.

Antes de enfrentar tudo isso, preciso de água ou vou morrer.

Quando fico de pé, passando a mão na bagunça que virou meu cabelo, me dou conta de que Fabiana me vestiu com uma de suas largas camisas de banda de Rock. Ela é curta; minha bunda está de fora.

Tenho uma vontade imensa de cair na cama de novo.

Estou cheirando a álcool.

O quarto todo está.

Meu celular toca em algum canto.

Sigo o som, o encontrando sob o travesseiro, conectando a um carregador. Fabi é um anjo.

Vendo o nome da minha mãe na tela, me preparo para disfarçar a voz. Sorrio como se ela fosse me ver pela ligação, e atendo.

- Bom dia, mãe. – digo com todas as minhas últimas energias.

- Onde a bonita foi ontem, posso saber? Seu pai acabou de falar comigo, disse que a Fabi foi lá na sua vó avisar que você passou a noite na casa dela. Verdade que machucou o pé? – ela não me dava tempo para responder.

- Me conta como foi. É a primeira vez que você tem um porre de verdade! Estou tão orgulhosa!

Ela não estava, era uma brincadeira. Embora fosse anos luz mais liberal que meu pai, não aprovava falta de responsabilidade.

- Não vou te contar o que fiz ou perderia toda a graça. Tenho que ser rebelde e cheia de segredos.

Ela riu.

- Verdade. — então, voltou a ser mãe: — Agora é sério, nunca mais suma sem dar notícias. É adulta, mas ainda é nossa filha. E esse pé?

Não sei se eu teria mentido para meus pais como a Fabi decidiu fazer. Pensando bem, daria um problemão se eu contasse a verdade.

Desamarrei a camiseta. Depois a lavaria e devolveria ao dono. Melhor, mandaria alguém devolver.

Tento não pensar nele.
Não posso, depois de ontem, me atrever.

Na minha opinião, o ferimento não preciaa de pontos. É só uma pequena perfuração escura. Para tranquilizar minha mãe, prometo ir à UPA me certificar de não ter mais cacos ali dentro. Vai que né...

Assim que desligamos, Fabi entra no quarto trajando regata longa, short de malha e o cabelo enrolado para cima. Junto, trouxe uma garrafa de água.

Voei na mão dela, seca de sede. Ela ergueu a garrafa acima da cabeça, me impedindo de pegar.

Pela sua cara, eu soube que me daria um esporro. Sentei na cama, exalando com as mãos no rosto. Eu merecia.

- Sei o que vai dizer. – não era meu melhor momento, e eu não estava orgulhosa. – Se quer saber... A culpa foi toda sua! Você quem me deixou para ir transar!

Eu precisava de uma desculpa.

- Lia...

- Não, é serio. Tive que ficar esperando, aí o Bazuca " deu a entender" – imito aspas – que eu deveria esperar lá em cima.

Conto detalhadamente o que houve.
Ao terminar, peço a água. Ela me entrega.

Bebo tudo.

Ela se senta, a make de ontem praticamente intacta. Torci para que minha aparência não estivesse tão pior que a dela.

- Está mais que claro para mim que ele armou tudo. Eu e o Ninja não fomos transar. Ele só me mandou subir na moto e me levou pra dar uma volta. Por que acha que os caras desceram da laje quando tu subiu?

O que ela quer dizer com isso?

- Ontem, quando o Ninja deixou a gente aqui, pedi que entrasse e me ajudasse a te colocar na cama. Uma coisa levou a outra e fizemos sexo no meu quarto. Depois acompanhei ele até lá fora pra não deixar o Nick fugir. Tu sabe, minha mãe enche o saco se aquele cachorro for pra rua.

Eu sabia, no fundo da alma, que suas próximas palavras fariam eu me sentir ainda pior.

– Agora me diz... você acha que ele quis ficar comigo a toa, se há meses a gente nem trocava mensagens? Foi proposital. Ele pediu seu número pra passar pro Alcaida. O convite, o recado... É ele. – Há pavor em seus olhos, e eu continuo sem entender.

Mesmo assim, a sensação ruim não passa.

— Onde quer chegar, Fabi?

- Tô muito preocupada contigo. Ele comanda tudo na encolha, se fazendo de sonso com aquela carinha bonita. E se ele não parar? Tu viu como a mulher dele ficou só com um olhar. Será que agora tu tem ideia do porque eu te disse que ele era furada? Lia, o Alcaida não é uma pessoa normal. E se ele estiver de olho em você? Tu não pode cair nessa, amiga. Sua avó, sua família, eles não iriam aguentar a pressão. Tu não iria aguentar.

Me abracei, repensando minhas atitudes.

Penso em como ele agiu diferente comigo.
No jeito que tratou a Yara.

Fabi percebe que me encheu de neura. Me aconchega em seus braços, beijando a lateral da minha cabeça.

A abraço de volta, desejando que ela me proteja de mim.

- Ele não me quer, fica tranquila. – Era para mim mesma que eu dizia. – Não foi ele que me convidou, falou que não sou para o bico dele. Pro bico de nenhum daqueles caras. Não vai acontecer nada, tá?

- Mesmo?

- Tô te falando. – levanto, dando um tapinha em sua perna branca. – Não é ele o pretendente, e seja quem for, também não quero.

Fabi, aparentemente, acredita.

Eu também quero muito acreditar. Me convencer de que estou bem. De que o que senti por ele vai passar.

Não posso me arriscar mais.
Deus me livre dele.

Vovó me recebeu com café, leite e pão caseiro — e um analgésico. Foi muita gentileza dela.

Apesar de estar bravo por eu descumprir o horário estabelecido ontem, meu pai me emprestou o carro para ir ao postinho.

Eu dirigia melhor que muita gente: tirei carteira assim que completei dezoito.

Estacionei na rua da UPA, descendo com minha garrafa de água.

Me encaminhei à recepção.

- Boa tarde – eu disse à moça atrás do vidro.

Já era uma e meia da tarde; eu teria de voltar logo para render meu pai, ou ele iria me causar mais dor de cabeça do que senti pela manhã.

– Preciso que alguém dê uma olhada num corte no meu pé, tenho medo de ter algum pedaço de vidro. – explico.

A morena de rosto maduro e cabelos presos para trás, levantou de sua cadeira giratória e sorriu alegremente.

- Ah, então é você. Foi avisado pra gente que você viria. Talia, né? Não precisa esperar não, Talia, vamos entrando. Eu te levo lá.

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