Agora estou aqui, ás quatro da tarde, abastecendo a geladeira de bebidas.
Quase quebrei a unha rasgando um fardo, mas, finalmente, termino e amasso os plásticos sujos de poeira, secando o suor da testa no braço.
Hoje o dia está demorando a passar.
Eu levava os plásticos para a lixeira de fora, quando as motos desceram a rua.
Era o que me faltava!
Apesar de que eu já sabia que eles viviam no bar do seu Alcides...
Finjo nem ver, embora meu estômago comece a doer.
Aperto o bolo de plásticos na lixeira de ferro, escutado os canos de descarga passarem por mim. Penso em não olhar nem cumprimentar, mas pareceria arrogância. Eu não era assim, fui muito bem educada.
No mesmo momento que levanto os olhos para sorrir e acenar, a voz do Ninja sobrepõe as aceleradas:
- Só fé, Lia!
Meu sorriso sai como um espirro.
Eu gostava muito dele.
Aron desceu da garupa do Bazuca, sem camisa, parecendo um touro de tão forte, tirando a bandoleira do fuzil pela cabeça.
Fui ignorada solenemente. Ele nem me olhou.
Mesmo eu sabendo que ele tinha um humor de velho, achei ridículo depois de todas aquelas mensagens que ele me mandou.
Dando-me as costas, ele entrou no bar.
Meu coração murchou.
Pois que ele que fosse para o espaço!
Busquei a vassoura e varri mais ou menos os corredores, levando os ciscos para fora. Estava varrendo a calçada quando acabei espiando o bar. Seu Alcides se desdobrava para oferecer o melhor atendimento, às pressas para servir a todos.
Alcaida voltou lá de dentro segurando uma água, sem a arma. O modo como segurava a garrafinha e a virava na boca... e a maneira como parou, se posicionando como um rei...
Apertei minha barriga, sentindo algo estranho lá dentro.
Parado no portal, ele examinou rua acima, rua abaixo, menos na minha direção. Marrento, orgulhoso, metido!
A mesa de sinuca ficava do lado de fora; Ninja organizou as bolas de bilhar sobre ela. Bazuca jogou um taco na mão do Alcaida, provavelmente, convidando para uma partida.
Me perguntei o que foi que fiz para ele agir daquele jeito, embora eu pretendesse fazer o mesmo.
Andava tão confusa sobre ele...
Por que ele estava puto?
E por que eu dava corda a esse sentimento de culpa? Entre o Alcaida e eu nada existiu. Não devíamos nada ao outro. E eu tinha de estar grata por ele facilitar as coisas decidindo se afastar.
Continuei varrendo, prestando toda a atenção no chão e na sujeira, tentando esquecer que eles estava lá.
Voltei para dentro, guardei a vassoura e fui procurar por mais tarefas. Não havia tarefas suficientes para o dia inteiro.
Quando o relógio marcou seis e meia, já anoitecia e eu não tinha mais o que inventar para me manter nos fundos do mercado. Precisava dar início ao fechamento do caixa.
Sentada em minha cadeira, foquei no trabalho. Mas senti uma energia e levantei a cabeça.
Ele, encostado na parede, apoiando o taco no chão, mantinha o olhar apavorante fixado em mim.
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Pique
RomansaEle é uma bomba, um perigo. Ela sabe que não deve se arriscar tão perto, que pode se ferir com uma iminente explosão. Lia tem 19 anos, e uma perda a levou para o morro do Sol. Ajudar a família vem em primeiro lugar, até mesmo antes de seus desejos...
