30 - Real

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* O capítulo 29 foi excluído, agora vai direto pro capítulo 30

***
– Se meu pai ou minha avó aparecerem, sei lá... assovia. - pedi, entregando ao Ninja o meu enfeite de cabelo. Não precisaria dele.

- Deixa comigo. Vai na fé. - ele se encostou no portal de arco do lado de fora, puxando a porta.

Comecei a andar.

A paz ali dentro era reconfortante; os santos nas paredes me contemplavam enquanto eu avançava pelo corredor entre os bancos. Aron estava de costas, olhando pro Santíssimo no altar, braços cruzados, e notei um volume em seu moletom preto que poderia ser o cabo de uma arma.

Senti grilos saltando em minha barriga.

O que ia acontecer?

Eu nem deveria ter aceitado entrar, para começo de conversa. Eu me sentia uma noiva de preto.

Ele, também de preto, se vira, parado junto ao altar — um noivo, de boné e moletom grande. Não combina com nada ali, mesmo assim, todas as imagens e pinturas juntas não superam sua beleza.

Conforme me aproximo, ele me vasculha por inteiro com o olhar fixo de noivo apaixonado, o que só me enche ainda mais de falsas ilusões. Paro em sua frente, retraída, mas segurando aqueles olhos que parecem lagoas escuras.

Ele mantém o rosto duro, mas seus olhos se estreitam carinhosamente.

- Oi. - diz.

Respondo num tom amanteigado:

- Oi.

Nos medimos, como se nossos olhos tivessem um dialeto próprio. Estamos cautelosos. Curiosos. Ele, como eu, quer descobrir pistas em meu rosto sobre o que eu penso e sinto. Isso fica nítido, ele não esconde o interesse.

- Como se sente depois de um showzaço daqueles? - de modo terno, ele torce o cantinho da boca num mini sorriso.

- Bem... acho. - ajeito o cabelo atras da orelha, e seus olhos acompanham cada movimento, como se fossem muito importantes e ele quisesse registrar.

- Eu queria te parabenizar. - jogou a mão, modesto - Fiquei... Tenho nem palavras. Você canta muito.

Pisquei, tentando manter a dignidade, mesmo estando fraca.

- Obrigada...

Seus olhos fizeram um raio-x em mim de novo, de cima a baixo, lentamente. Um ponto entre minhas pernas pareceu pular.

- Tu disse pra eu não te ligar mais, e eu respeitei - explicou, deixando entrever ter ficado ofendido.

Meus dedos dormentes estão entrelaçados em frente a minha barriga e me balanço um pouco pros lados, descendo o olhar até meus pés.

-  Tô feliz que tenha vindo me assistir - olho pro lado, tentando não ficar encarando.

- Ainda bem que vim.

Ele estreitou o espaço entre nós.

- Foi um prazer te ver cantar. Tua voz é perfeita. Toca pra caralho também.

Erguendo o olhar um pouco, percebo que ele parece procurar algo no meu corpo e rosto.

- Tá tudo bem? - verifica. Será que dei muita pinta de que sua aproximação causa a mesma sensação que uma montanha russa?

- Tudo sim - digo desanimada.

Saio desesperada da frente dele, indo me sentar no degrau do altar, deixando minhas pernas estendidas devido ao vestido.

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