14 - Não é pro meu bico

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Alcaida chama alguém no rádio. Descubro que era o Bazuca.

Ele vê o sangue, o provável furo no meu pé e o meu estado catatônico e...

- Puta que pariu! Como tu fez essa porra? - irrompeu para a mesa de bebidas. - Vai ter que jogar vodka ai, mano.

- Não! Por favor! Por favor, vai arder! - implorei igual menininha. Tinha como eu ser mais desastrada?

Bazuca entregou a vodca ao Alcaida, que jogou sua blusa no ombro. Parecia um doutor fazendo cirurgia; os dedos estavam sujos do vermelho do meu sangue.

- Da a mão aqui, vai ser rápido. - Bazuca veio para o meu lado e apertou minha mão bem forte. Eu reclamaria de dor, se meu pé não estivesse fodido.

Olhei pro Alcaida e não vi outra coisa a não ser pena. O homem já deve ter feito tudo quanto é tipo de tortura, mas tanto ele quanto o Bazuca tinham um olhar de dor, somente por ver meu sofrimento.

Bazuca se abaixou um pouco, passando o outro braço pelo meu ombro para alisar a parte de trás da minha cabeça.

- Pode jogar, acho que aguento. - abracei o braço enorme do Bazuca, fechando os olhos, à espera.

Senti o líquido entrando em contato com meu ferimento. Mordi a boca e detive um uivo de agonia.

- Meu DEUS!!!!! - tive que me manifestar, ardia além de todos os limites suportáveis. - Nunca mais eu bebo, juro por tudo que é mais sagrado!

Senti algo macio no meu pé.
Abri os olhos.

Alcaida estava amarrando a blusa — que deveria valer um mês do meu salário — , no ferimento gorgolejante. Se dirigindo ao Bazuca, levantou, limpando as mãos na calça impecável.

- Tem que levar ela pra UPA. Não sei se ficou algum pedaço de vidro lá dentro, ou se precisa de ponto. - estava de volta a postura fechada. Por minutos, sozinho comigo, ele foi outro. Agora, era de novo o mesmo que eu via na rua.

- JESUS! - Fabi estava entrando. Seguindo-a, vinha o Ninja.

Estavam de mãos dadas, mas Fabi levou as dela à cabeça, correndo até mim.

- Eu te deixo sozinha uns minutos e você se machuca? Que caralho aconteceu? - ela buscava respostas ao redor, com o olhar.

- Preciso beber algo forte, por favor! - fiz manha. Meu lábio inferior se projetou e tremeu.

- Garota, sorte sua que tu é fofa. - Minha amiga apertou minha bochecha.

Eu era esperta. Se eu mostrasse que estava bem, Fabi era capaz de me dar uns tapas.

Ninja foi rápido em trazer uma cerveja.

Ele estava obcecado com meu pé, e então ele...

- VIADO - e explodiu em gargalhada. - Ela é maluca! Completamente maluca!

Ele ria de se dobrar.

Era a primeira vez que eu presenciava os três reunidos.

Enquanto Ninja se mijava de rir, Alcaida, de cara amarrada,  deu um esporro, mandando que ele arrumasse um carro para me levar. Bazuca tomou a frente e foi no lugar do Ninja resolver, porque o outro parecia não conseguir fazer nada, devia estar chapado de maconha. Ao passar por ele, Bazuca disse:

- Tomar no cu, Felipe! Para de rir nessa porra, caralho! Parece moleque, porra! - deu um tapão na cabeça do amigo.

Ninja, ou Felipe, virou seu boné para trás, respirando e tentando se recuperar.

- Foi mal, Lia... pô, deve tá doendo a beça. Vou buscar uma parada pra tu limpar a mão, Husseinzin. - disse ao Alcaida, que relanceou para ele um olhar puto.

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