20 - Conselho, lágrimas e resposta

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Hoje é segunda. Ontem Jc me deu o bolo.

Você dá uma chance pra alguém que nem está tão a fim assim, e a pessoa te trata como nada. É isso que acontece.

Assim que chegamos da praia, no final da tarde, combinamos de passar em nossas casas e tomar um banho antes de nós encontrarmos para procurar um x- tudão que matasse nossa fome. Até parecia que eu tinha fumado um baseado... meu estômago roncava!

Logo que de sai do banho, vi a cabeça da vovó flutuando pela fresta da porta. A convidei para entrar.

Ela não estava ali à toa, queria saber como foi minha tarde. Porém, mais que isso, descobrir se eu havia feito as pazes com o Júlio — eu li suas intenções.

- Vó, fizemos as pazes, tá? Vamos até sair para comer. – contei quando ela fez perguntas indiretas

- Se beijaram? – aquilo me pegou desarmada.

- Beijou, né? Olha sua carinha.

Continuei desenrolando a alça do meu sutiã sem olha-la.

Era o que ela mais queria, que eu me apaixonasse pelo Jc e esquecesse o Alcaida.

Ela se dirigiu a mim, ergueu meu queixo com o dedo, e nos olhamos.

Me senti desprotegida, como se ela pudesse atravessar as paredes da minha mente e descobrir que eu não tirava o cara errado da cabeça.

- Você cresceu muito depressa, Lia. É uma mulher agora. Em breve vai se casar, ter filhos. Por isso quero que escolha bem a quem entregar seu coração e seu corpo. Quero que seu futuro casamento seja feliz como o meu foi, como o do seu pai é. – a boquinha um pouco flácida se comprimiu num mini sorriso. – E com este corpinho de violão, vai ser moleza de arrumar um marido.

- Ah não, vó! Começou! – enfiei os olhos em meus cabides, constrangida.

- Bundinha durinha, olha só. - ela me deu um tapinha. — Ah, meus dezenove anos! Eu era assim, como você.

Por sobre o ombro, olhei incrédula em sua direção.

— Seu avó ficou de quatro assim que me viu.

- AH, MEUS DEUS! – gargalhei, reclinando a cabeça.

- Ué, e você acha que veio de onde? – ela riu.

- Posso viver sem essas informações, obrigada.

- Deixa de ser boba, menina. Depois do casamento a gente tem que agradar o marido. Eu era fogosa na cama, por isso Natanael sempre foi tão apaixonado. Jamais soube de ele estar pisando fora da linha na rua. Sua vó tem muito para te ensinar.

A conversa ficou mais interessante. Me sentei, afastando os fios molhados do rosto. Ela estava perdurando a blusinha limpa junto a outra num cabide, de costas para mim.

- Seu avô mal conseguia dar conta do que tinha. – devolveu o cabide para o lugar.

- Mas... – quando ficou de frente, esticou o dedo em aviso. – Tem que esperar o casamento. Nada de sair por aí fazendo essas intimidades com qualquer um. – seu olhar examinou bem meu rosto, desconfiado – Você ainda é virgem, né?

Mesmo se eu não fosse, ai de mim se contasse a verdade.

- Sim. Sou. — respondi.

Ela sentou perto de mim. Esfregava a mão no joelho, olhando para o alto enquanto falava.

- A mocidade de uma mulher é a coisa mais valiosa que ela tem, Lia. Não é qualquer par de calça que merece. Antes, o homem deve te conquistar, te fazer se sentir amada e protegida. Quer saber um segredo de avó para neta? Eu não esperei o casamento para me entregar ao seu avô.

Aquela revelação me deixou chocada.

- Não?

- Não. Mas sempre soube que ele valia a pena. É assim que deve ser. Só se entrega isso ao homem que quer compromisso sério. Moça fácil homem nenhum valoriza, só usa e descarta. Aqui no morro tem várias dessas. Olha... – espiou furtivamente pela janela, diminuindo o tom. – Adoro a Fabiana, mas ela é bem moderninha. Não.

Negou veemente.

–  Isso está errado, muito errado. Mulher tem que se valorizar, guardar o corpo para o homem certo. Esse negócio de tá se agarrando com um aqui, outro ali, depois fica ai, óh... ninguém quer! Homem se apaixona antes do sexo, filha, a mulher, depois. Usa isso sempre a seu favor. Enquanto não tiver certeza que o cara te ama, não abra as pernas. Espere o tempo que precisar. Pode ser o homem que for, todos gostam daquilo que precisam se esforçar pra ter. Guarda esse conselho da sua avó, sinto que a senhorita vai precisar.

Logo depois, ela me deixou sozinha para eu me arrumar, avisando que iria dormir mais cedo.

Pensativa, terminei de pentear meu cabelo, sequei, espirrei um anti friz cheiroso e fui decidir a roupa. Entretanto, me veio à cabeça confirmar primeiro com Jc a que horas exatamente ele passaria aqui. Combinamos de subir juntos, a pé mesmo. Não sabia se ele tinha moto ou carro, mas não me importava.

Ainda bem que confirmei primeiro, porque até hoje cedo ele não tinha respondido minha mensagem.

***

- E ai? – sentei na janela do meu quarto, meu violão a tira colo.

Fabi estava sentada na dela, do outro lado do muro baixo.

- Acordou cedo hoje, foi? – provoquei, testando as cordas do violão.

A fumaça escorreu pela lateral da boca dela, que parecia mais triste que nos outros dias.

Fabi não era uma pessoa arrebatada de alegria, disso eu sabia. Só não sabia o motivo.

- Que foi?

Ela balançou a cabeça — e a franja —, os olhos distantes.

- Canta uma pra me alegrar. – pediu, simplesmente, perdida em pensamentos.

Cantei " Jorge Maravilha" numa melodia própria. 

Ao final, estávamos as duas com lágrimas nos olhos. Eu não sabia porque exatamente estava chorando... tinha meu avó, a reviravolta na minha vida. Tanta coisa.

Também respeitei o fato de, mais uma vez, Fabi não querer falar sobre o que a entristecia. Sentia que minha amiga guardava muita dor no coração, queria ajudar, conversar, no entanto, não poderia força-la a se abrir se não estivesse preparada.

Foi naquele momento que recebi a resposta do Júlio.

" Talia, desculpa ter furado contigo. Ontem aconteceu algo muito bizarro. Não pude sair e não consegui te responder. Prefiro explicar pessoalmente, telefone é foda. Quando puder, passo ai. Queria muito ter ido. ( carinha triste). Beijo (emoji de beijo)."

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