3 - Ignorada

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Como ja expliquei anteriormente, o mercado fica na frente de casa

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Como ja expliquei anteriormente, o mercado fica na frente de casa. Uma porta leva a um corredor em que, à esquerda, temos o quartinho de estoque/ tranqueiras/ almoxarifado. Tudo muito bem organizado.

Minha avó tem sangue cigano, e embora não tenha se casado com um, devido aos pais terem abandonado o acampamento em que moravam, perpetuava seus costumes. A casa dela é impecável.

No final do corredor, à direita, é a entrada da cozinha. A casa não é mansão, mas tem dois andares bem espaçosos, piscina e jardim nos fundos. Uma delícia. Sempre amei essa casa.

A ajudante vem uma vez na semana, que também é amiga da vovó. O nome dela é Cibele. Ela prometeu me apresentar seu filho, Júlio, disse que ele tem minha idade e vamos nos dar bem. Como não conheço muita gente por aqui, estou inclinada a fazer novas amizades. Minha avó faz muita questão. Gosta muito da Cibele e, consequentemente, de seu filho.

Paro na porta e observo ela cozinhar. Sua marca registrada são essas blusas estampadas. Usa óculos de grau e seu cabelo é bem curtinho.

Aos 61 anos, ela tem uma saúde de ferro Se casou com vinte, teve meu pai aos vinte e um, e, até os quarenta, mantinha os cabelos longos, como mandava a cultura da qual ela não fazia mais parte, mas amava. Ela é inteira para sua idade, cheira a protetor solar, café e pó de arroz.

Vou até ela, os olhos molhados, lembrando que em todo fim de ano meu avô pegava o violão, sentávamos lá no quintal e ele cantava pra gente. Contava tantas histórias sobre como era a vida no Mato Grosso do Sul. As duas famílias, vindas de longe, acabaram no morro do Sol, onde meus avós se conheceram. Daqui nunca mais saíram.

Eu a abraço e fico assim um tempinho.

Ela limpa os olhos no pano de prato, abre a torneira e passa água num tomate.

— Seu avô vivia dizendo pra todo mundo que a Neta era cantora. — pega uma faquinha no escorredor.

Limpo meus olhos também.

— Morro de saudade dele.

— É... eu também. A comida tá pronta. — ela bota um sorriso no rosto. — Me acostumei a fazer mais cedo. Ele almoçava a essa hora.

A morte é um ciclo natural; todos sabemos que ela chega em determinado momento. Mas nunca estamos preparados para lidar com ela.

— Podemos passear depois da missa dele. — digo, tentando descobrir pelo seu semblante se se ela está bem. — que tal?

— Ta, pode ser.

Acho que a vida perde a graça quando a pessoa perde um amor assim. Mas ela tem muito o que viver ainda. E eu faço questão de ajuda-la a seguir em frente.

Trato de me mostrar alegre.
Obrigo ela a deixar a salada de lado — prometendo que depois eu finalizo — e a levo pelo braço para a mercearia, explicando sobre a placa nova.

Ela, mesmo abatida, tenta ser gentil como é desde que me entendo por gente.

Ouvimos a voz do meu pai quando nos aproximamos da porta dos fundos da mercearia. Ele parece estar mais uma vez contando a alguém sobre como meu avó passou os últimos dias no hospital.

— Ele estava fraco... bem fraco. Delirava por causa dos remédios. — vou ouvindo e imaginando meu pai com aquela expressão trágica enquanto ajudo minha vó a caminhar.

— Ele me pediu, sabe, ôh... — meu pai pareceu esquecer o nome de quem quer que estivesse ouvindo a história.

Foi quando ouvi uma voz cavernosa dizer:

— Aron. Mas pode me chamar de Alcaida.

Eu me arrepiei inteira. Nem prestei mais atenção na vovó.

Continuamos, saindo por trás da prateleira.

— Aron, menino, você voltou! — minha vó sorriu intimamente para ele. — Que benção de Deus, meu filho... coisa boa! Tantos anos.

Soltei o braço dela, atrapalhada pela presença dele feito uma bobona. Ele não sorriu, mas veio abraça-la.

Não pareceu me notar.

Deixei a cabeça cair pra frente. Por dentro, morrendo de medo. Ele era o chefe, estava preso, Fabi disse que ele era rodeado de mistérios e, além de tudo, super perigoso. Se for verdade que ele matou o padrasto quando criança, o que poderia fazer hoje em dia?

Reparei que ele era mais alto que eu. Mas não mais que meu pai.

Tinha um cheiro que se espalhava facilmente pelo ar, uma presença impactante. Deixava o local até mais pequeno. Ou eu é que fiquei muito impressionada com as histórias e estava o superestimando?

Forte, marcante, másculo.

Não sabia se ficava ao lado da vovó para ampara-la, se voltava para dentro de casa, ou ia pro caixa.

Me perguntei de minha avó gostava dele. Era o que parecia.

Ela segurou o rosto dele ao se afastarem, um rosto que era muito mais bonito de perto. Ele era fechado, calado.

E nem me olhou... será que não me viu aqui?

Espera aí, por que eu estava incomodada com isso?

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