Tivemos que parar de nos pegar quando o ar acabou.
Tinha um monte de gente e umas crianças a nossa volta também. Melhor nos conter.
Jc me soltou, jogando água na cabeça.
Seu sorriso atravessado, além de impecável, era charmoso.
Por um segundinho, outro sorriso apareceu de relance em minha mente. Expulsei imediatamente a imagem, sem compreender o motivo de pensar nele quando tinha ali o cara ideal.
A sobrancelha do Júlio, parecendo pintada a canetinha preta, se curvou no alto. Suas mãos agora cobriam a parte da frente de seu short para disfarçar o volume, mesmo sob a água.
- Como tu me dá um beijo desses aqui, no meio de geral? – olhou ao redor, como se de fato tivesse sido eu a única responsável.
O sol iluminava seus cabelos, cílios e pele, onde gotinhas de água deslizavam.
- Nunca tive a iniciativa de beijar ninguém antes. – revelei, surpresa comigo mesma.
Acho que eu queria me convencer de alguma coisa. E convencer a todos.
- Que bom que fui o primeiro. - irrompeu para mim, e nos beijamos mais um pouco. Com mais cautela dessa vez.
Era uma distração boa. Eu não podia soltar esse ponto de apoio. Meio que eu tinha entrado em hiper foco no outro e isso só podia terminar mal.
Mas não era a mesma coisa. Um único olhar do Alcaida me marcou bem mais que esse beijo. O que eu ia fazer?
Estava apavorada, desesperada com tudo que ele disse, com os avisos das pessoas... com tudo.
Por fim, quando passamos das fronteiras do aceitável publicamente, as mãos do Jc pararam. Ele mordeu meu lábio, o puxando e me encarando de perto.
Seus olhinhos pareciam incrédulos.
– Quando tu vai casar comigo?
- Minha nossa! – ri alto.
Ele era tão bobo.
- Minha nossa, digo eu, garota! – me ergueu fácil pelas pernas, me prendendo a ele. – Eu tô fodido. – beijou meu colo, meu queixo e a gente passou mais um tempinho se mordendo e brincando na água, até lembrarmos que Fabi estava sozinha.
Só que ela não estava sozinha, havia uma garota com cara de emo sentada ao lado dela no banco. Fabi olhou para o braço do Jc no meu ombro, enquanto eu torcia os cabelos. Sorriu como quem diz " até que enfim", então, apresentou a menina.
Era a Isa, uma amiga que morava ali perto. Passou pra dar um oi.
Isa apertou nossas mãos, se sentando novamente como se nunca quisesse realmente ter levantado. Tinha uma expressão permanentemente cansada, de quem odiava seres humanos.
Pela maneira como se olhavam, as duas não eram só amigas.
Quando deu nossa hora, Fabi se despediu da garota com um beijo de cair o queixo, ainda mais escandaloso que o nosso.
A zoamos pelo caminho todo até o lugar onde alugamos os patinetes.
Jc e Fabi arranjaram uma sombra entre o calçadão e a areia enquanto eu resolvia as burocracias na barraca. Como o aluguel foi em meu nome, tive de esperar o cara terminar o trâmite de devolução e assinar para poder receber minha habilitação de volta — a pessoa tinha de deixar um documento de garantia.
Quando acabou, fui até eles, que olhavam algo no celular, confabulando. Obriguei a me contarem o que era, tomando o celular da Fabi.
- Olha os storys. – ela revelou, desistindo.
Havia postado uma foto minha de costas em seu Insta, que bateu enquanto eu espiava algo atrás do balcão do cara. Até que ficou legal.
- Pode postar no seu, eu deixo – Jc disse.
— Olha que atrevido. — ri, devolvendo o celular a Fabi.
Fabi acendeu um baseado.
- Da um puxadão ai, Lia. O primeiro tu nunca mais esquece, é igual perder o cabaço. – me ofereceu, a fala mole.
- Eu não, tô fora. – acessei a câmera do insta dela.
– Tira outra foto minha, por farvorzinho?
Pedi ao Júlio.
- Lógico. - ele saltou de pé, pegando a maconha com a Fabi e dando uns tragos antes de posicionar o celular.
Abaixei a cabeça, escondendo meu rosto sob a aba do boné branco. Levei uma mão de cada lado, ajeitando na parte de trás e autorizei que ele batesse.
- Esculachou o esculacho! – zoou ele, me passando o celular para eu dar meu veredicto.
- Aprovado! - declarei.
Logo que postei, minhas amigas de Macaé fizeram chover comentários como: " Divaaa", "Gostosa", " gata", " musa do verão".
Elas sempre engajavam TUDO.
- Gente, vou ali me molhar um pouco naquela ducha. Tô suando pra caralho. Cheira aqui pra ver se venceu, Lia. – JC tensionou esfregar a axila em minha cara de brincadeira; eu gritei, fugindo.
Ele me beijou de novo, e se foi. Sob a ducha, fazia dancinhas estranhas, rebolando para mim. Sacaneei ele, abaixando a aba do boné tipo " nem conheço".
- Lia, olha quem reagiu a foto que eu postei. – Fabi tampou com a mão a tela do celular para fazer sombra e a gente poder enxergar melhor.
Tinham muitas reações, mas a última me chamou atenção. Era uma reação furiosa.
Na pequena foto de perfil, reconheci o cabelo claro. Olhei espantada para a Fabi, com uma careta.
- Acho que ganhei uma inimiga.
Fabi, reprovando, guardou o celular em meio as pernas.
- Pô, te avisei, né. Essa puta vai te infernizar.
- Eu ouvi você pedindo a ele para não deixar que ela fizesse isso. Tu pensou que eu estava dormindo, mas eu estava escutando. Lembra? No carro?
Ela mirou o mar.
- Espero que ele cumpra o que prometeu. Não quero te ver sofrer, como vi várias.
Jc estava retornando, tirando a água do cabelo.
- Depois a gente termina essa conversa, vou nadar.
Ela se jogou de pé, deu o baseado para o Jc e, num segundo, tirou o short úmido, correndo areia afora.
- Vamos sair pra comer alguma coisa à noite? Isso aqui da a maior larica. – Jc me convidou.
Quando aceitei, ele exalou, exageradamente aliviado, e caiu sentado na canga.
– Espero que demore... — soltou baixinho.
- Demore o quê? — me sentei junto dele, abraçando os joelhos.
Ele me olhou torto.
- Pro sonho acabar. Se me acordarem, eu quebro na porrada. – a voz soou sedutora quando perguntou: - Tem certeza que não é um Alien?
- Não, não sou. Acho que isso aí deixa você com a imaginação fértil. – apoiei uma mão atrás de mim. O boné protegia meus olhos. – Eu gosto de você, Júlio.
- Gosta?
- Uhum. Mesmo você me fazendo passar vergonha com suas dancinhas ridículas.
Gostava mesmo, mas era o bastante? Ou eu só estava me enganando?
- Eu também gosto de você, Talia. – avaliou meu corpo. – na verdade, gosto muito.
Ele mandou longe a ponta, caindo por cima de mim, que dei um gritinho de susto, mas também gargalhei e me deixei mais uma vez ser beijada.
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Pique
RomanceEle é uma bomba, um perigo. Ela sabe que não deve se arriscar tão perto, que pode se ferir com uma iminente explosão. Lia tem 19 anos, e uma perda a levou para o morro do Sol. Ajudar a família vem em primeiro lugar, até mesmo antes de seus desejos...
