4 - Água e óleo

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— Fiquei sabendo que você tinha saído, mas não te vi... você tá lindo, forte. — Minha avó desceu as mãos pelos ombros dele.

Ele vestiu uma camisa pra entrar aqui — sinal de respeito. Usava uma baita aliança dourada. Seu pescoço tinha uma tatto, e uma corrente fininha, o dourado destacando. Também achei estilosa a argolinha em sua orelha.

Tinha cara de tralha, daqueles que não se importam com ninguém.

Acho que eu estava reparando muito.

De repente, ele sorri pra minha avó.

Me obrigo a sair de perto, já que ele não se importou em me cumprimentar. Quero distância dele, de sua marra e de seus rolos.

— Tô ai de novo, dona Betina — ele diz.

Meu pai continua na porta, braços cruzados. Tem dois homens feiosos com armas feiosas na nossa entrada.

Estou meio... sei la.

Odeio armas!

— Meus sentimentos pelo seu Natanael, eu me amarrava nele... Dei o papo no teu filho, mas vou dar na senhora também: se precisar de qualquer fortalecimento, nós tá ai pra isso. Morador em primeiro lugar. Tô há pouco na pista, me inteirando ainda dos problemas, mas o ritmo continua o mesmo. Espero que tenha sido assim na minha ausência também.

Fico de costas, ouvindo ele dizer num tom firme.

— Foi sim, foi. Sou muito agradecida. Aqueles dois rapazes, o japonês e o outro... — vovó tenta lembrar.

— O Fernando? — ele a ajuda .

— É, eles estiveram aqui, se prontificaram. Mas tô levando, tô levando... esse é meu filho, nasceu e foi criado aqui, mas quando vocês chegaram ele já não morava mais com a gente. Depois da morte do pai veio me ajudar com o mercadinho. Trouxe minha neta junto. Cumprimenta o moço, Talia.

Girei, morta de vergonha por ela falar assim comigo na frente dele.

Ele fez a gentileza de me olhar.

Estremeci por dentro, suando frio.

Abaixei a cabeça novamente, tímida, mexendo em qualquer coisa no caixa enquanto minha avó falava:

— É minha primeira e única neta. Meu xodó. Você já deve ter visto ela por aí. 

Ergo as vistas, dando um sorriso sem dentes em cumprimento.

Ele mantém o enfoque em mim, então, vem em minha direção e meu corpo trava.

— Acho que não. — estende a mão, mentindo descaradamente. — Ou vi? — estreita o olhar pra mim.

Aperto sua mão, mantendo contato visual até o quanto eu aguentar, mesmo querendo sumir. Não sou uma jeca tatu que não sabe se portar.

— Prazer. — Digo, carismática.

Sei ser educada.

— Acho que você me viu uma vez quando passou aqui na rua. — não consigo deixar de dizer.

— Visão, lembrei agora. — ainda segurando minha mão, desceu o olhar pelo meu corpo lentamente.

Senti tudo pipocando por dentro.

— Não sabia que a senhora tinha uma neta desse tamanho, dona Betina. — voltou a olhar para ela, sem soltar minha mão. — Uma moçona já.

Eu sorri de ralance, sem querer. Quando olhei pra baixo, meus cabelos caíram no rosto. Ele falou como um idoso, foi engraçado.

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