6 - Só me segue

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- Esse é um convite muito especial, padre Ancelmo! Eu ficaria muito feliz se ela aceitasse. – Minha avó fisgou meu olhar numa de me forçar a aceitar o convite para cantar na quermesse.

Eu não queria. Minha música é para a igreja, para mim, para momentos íntimos e não para expor numa praça. Não tenho essa confiança ainda. Imagina se desafino?

- Seria do cara... – Fabi ia dizendo um palavrão, mas se calou e abriu um sorriso como pedido de desculpas ao padre.

Ele deu uma endireitada na postura, constrangido. Ela então consertou:

- Seria bem maneiro.

Realmente, igreja, padre e essas coisas mais conservadoras não combinavam com ela e seu estilo " Punk". Pelo jeito do padre a olhar, não aprovava sua roupa preta. Tampouco suas tatuagens.

Tento controlar a situação.

- Não sei se é uma boa ideia, padre. Tenho um pouco de vergonha de me apresentar assim e...

Meu pai me atravessa.

- Que isso, filhota? – sorri mecanicamente, levando os olhos até minha esperançosa vó. – Você consegue.

Capto o recado.

Quando digo que aceito, isso causa uma comoção generalizada.

- Semana que vem começa os ensaios. — o padre avisa, demonstrando grande entusiasmo.

Fazer a alegria dele e da minha avó não custa nada.

Combino de vir à reunião na quarta que vem.

Somos os últimos a deixar a igreja.

Cibele nos aguardava junto de umas senhoras uniformizadas com a camiseta da pastoral, no final da escadaria.

Aquele moço que eu vi conversando com ela antes, estava numa rodinha de homens, na pracinha em frente. Reconheci de longe.

Contei para a Fabi que achei ele bonito e perguntei se era o filho dela, o tal Júlio.

— É, sim.  — disse ela, enfadonha. Era quase sempre apática.

- Admito que imaginava ele bem pior. – eu disse baixo enquanto descíamos as escadas atrás do meu pai.

- Ele é um gostoso. Te falei, mas tu não leva nada do que digo a sério. – Fabi esfrega a franjinha. Eu a acho muito estilosa.

- Não dá para acreditar em tudo que você diz. Já teve cada cara horroroso que você disse que era bonito, que só por Deus. – argumentei.

- Quando eu digo " gato", o cara tem uma beleza exótica. Quando digo que é "gostoso", tu pode ver que é sempre produto de primeira linha. O Alcaida, por exemplo. Matei a cobra e mostrei o pau.

Paramos ao "pé" da escada para conversar. Meu pai conduziu a vovó até o bonde de amigas da Cibele.

Desviei os olhos da praça, do belo Júlio, e me virei para a Fabi. Contei que o Alcaida esteve na mercearia hoje à tarde, me tratando feito uma catarrenta.

- Mas eu também tratei ele como um idoso. Ficamos quites. – empino o nariz, meio que irritada pela lembrança.

Fabiana faz cara de tédio, me encarando.

- Conheço essa tua cara ai, tá?! Nem vem! – chuto fraquinho sua perna.

- Quem avisa... ? – ele pede com o olhar para eu completar.

- ....amiga é! Eu sei! Não quero nada com ele, Fabi. Quantas vezes vai insistir nessa maluquice? O cara tem esposa.

- É, mas feriu teu ego ele não te dar bola. Eu ficaria feliz no seu lugar. Sabe que essa tarde mesmo, ouvi as vizinhas falando que ele deu uma aliança pra Yara? O cara botou ela numa casona la no alto. Não se sabe se estão morando juntos, mas é obvio que vai rolar mais cedo ou mais tarde. Ele não ter te dado moral é o melhor que poderia acontecer, Lia. Esse tipo de homem quando quer alguém não larga do pé. Já teve casos de nego forjar até o namorado da garota pra causar separação. Ainda mais ele, que é maluco. Se ele cismasse contigo, tu ia estar fodida. Ele ia dar um jeito de fazer acontecer.

- Não reclamei de ele ter me ignorado, ou reclamei? Você quem deduz as coisas.

Ela me olha como se não acreditasse nem um pouco.

- Aham, Lia.

- Vamos focar no Júlio? Ele não mexe com nada errado, ou mexe?

- Não... tranquilão. Vou te dizer, ele eu apoiaria tu dar uma sentada.

Faço cara de nojo, e ela ri.

Vamos até a rodinha de mulheres, então Cibele me puxa pelo braço.

- Vou te apresentar meu filho, Lia. Ô, Júlio César, vem aqui! – chama escandalosamente. Ele, de costas para cá, se vira. Ao ver a mãe acenando, se despede dos amigos com toques de moleques.

Ele traja calça jeans clara e regata branca; usa várias correntes e pulseiras de prata. Atravessa a rua, dando um pulinho descolado para subir no meio fio da igreja. Me olhando, alisa o cabelo curtinho pra frente.

— Senhora? — diz a Cibele.

- Aqui a Lia que te falei. – Cibele me mostrou como se eu fosse uma mercadoria, com uma vontade impressionante. Suspeitei que queria arranjar o casamento ali mesmo.

Era uma grande saia justa.

Mas Júlio demonstrou ter gostado de ser apresentado a mim, e isso me tranquilizou.

Eramos uma atração para vovó, Cibele e Fabi. Já meu pai demonstrou não ter gostado nada.

- Prazer. Tudo bem?

Dei minha mão a ele, que se aproximou e disse junto ao meu ouvido:

- Só me segue. – não entendi, até ele recuar e aumentar o volume da voz – Vocês não querem que a gente se conheça? Vou levar ela pra dar um giro. Posso, dona Betina? – ele passou o braço pelo meu pescoço, me fazendo sentir que nos conhecíamos há bem mais que exatos dois minutos.

Fabi soltou uma risada de quem estava adorando.

Meu pai parecia puto.

- Quem tem que autorizar é o Divino. – minha avó jogou a batata, mostrando uma alegria que eu não via há dias.

Eu passaria constrangimento quantas vezes fosse preciso para ver ela assim.

– Meu filho é bravo. — olhou pro meu pai. – Ele tem essa cara de meliante, mas é do bem, Divino.

- Caô, dona Betina. A senhora sabe que fui preso três vezes, só ando trepado e meu idioma é bala. – caçoou o Júlio.

Me fez rir, já me ganhou.

- Para de molecagem, Júlio! – Cibele brigou. – Mentira dele. Está estudando pra passar numa federal, trabalha lá na rua 2, numa loja de assistência técnica para celulares.

Meu pai o avaliou, mantendo a seriedade.
Ele e minha mãe achavam que eu tinha algum trauma pelo ocorrido com José. Acho que ele sentia que eu precisava me apaixonar pra superar.

- Olha, rapaz, você está levando a minha única filha, minha garotinha. Cuida bem dela.

Vovó, Cibele e Fabi batem palmas.
Eu simplesmente ri.

- Vão indo na frente, a gente se encontra lá na barraquinha da Joselma. – Cibele incentivou, parecendo prestes a soltar fogos. Minha avó, igualmente.

- Deixa comigo. – Júlio disse – E pode ficar sussu, pai da garota bonita, sua filha tá em boas mãos. – agora Júlio não estava brincando. Eu até diria que conquistou um pouco meu pai, já que ele acenou com a cabeça em concordância.

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