Ele é uma bomba, um perigo.
Ela sabe que não deve se arriscar tão perto, que pode se ferir com uma iminente explosão.
Lia tem 19 anos, e uma perda a levou para o morro do Sol. Ajudar a família vem em primeiro lugar, até mesmo antes de seus desejos...
Hoje voltamos à programação normal: assumi o mercado pela manhã e meu pai vem à tarde.
Sabendo que se eu tivesse me sentado á mesa, para o café da manhã, minha avó teria iniciado algum assunto que não estou disposta a tocar, utilizei meu livre arbítrio e pulei essa refeição, optando por uma suculenta e crocante maçã. Para esconder as marcas feias que amanheceram no meu braço, vesti um casaco e vim abrir a mercearia.
Terminei de varrer e espanar o pó, mas tinha mais um milhão de coisas para fazer, além de ter de receber alguns caminhões de mercadorias. Conforme fui me movimentando, acabei tento que puxar as mangas do casaco acima dos cotovelos de tanto calor.
Não estava nos meus melhores dias; passei as primeiras horas da manhã bem esmorecida. Ao finalizar metade da limpeza, decidi não passar pano. Tenho o privilégio de escolher o que quero fazer. Sou minha chefe.
Atendi uma ligação do meu irmão, ao mesmo tempo que conferia a validade dos produtos do freezer dos fundos. Ele já sabia do falso namoro.
Quando provoquei dizendo que ele estava com ciúmes, ele fingiu que ia desligar.
- É verdade que o chefão dai te defendeu?
— Sim, é verdade. — falei com um sorriso orgulhoso, lembrando do homem que ele era. Do que disse nas mensagens.
Me despedi dele; pouco depois minha mãe ligou. Quis detalhes minuciosos, como eu sabia que seria. Apesar de fazer um discursinho, senti uma ponta de compaixão em sua voz quando revelei que o namoro era de mentirinha.
Mal minha mãe desligou, ouvi uma moto parar em frente ao mercado. Uma não, três. Homens armados saltaram. Alcaida entrou com uma sacola na mão e o cabelo praticamente raspado. Tinha tirado o platinado.
A roupa que usava era casual: bermuda, chinelo e regata, e acessórios finos de ouro. Tinha um perfume fresco de banho recente, barba feita e uma pistola a tira colo. Seus braços músculosos chamaram minha atenção. Fechei a porta do freezer, sentindo o peito se encolher.
Me assegurei de que minha vó não estava voltando, porque ela passaria o resto do dia tagarelando em minha orelha se o visse aqui de novo. Estava em pânico por aquela aparição que mexia com tudo dentro de mim, feito um mixer. As pessoas poderiam desconfiar de algo que nem existia com ele aparecendo sempre. Yara e sua amiga Micaela me comeriam viva.
Ele veio até mim, o rosto sem expressão.
- Pra tu... Presente pelo show de ontem. - ergueu a sacola simplesmente. Era de papel, bonita, e tinha uma fita.
Enrolei o pano nos dedos, checando de novo a porta de casa.
- Não posso aceitar. Se minha avó descobre... - não podia nem pensar nessa possibilidade. Minha avó era uma senhora de luto, eu a levaria direto para o hospital com minha teimosia. - Leva de volta.
- É só chocolate. Guarda ai, no caixa, em algum lugar. - segurou minha mão e pendurou a sacola. Espiei e vi que continha uma caixa dourada.
Enquanto seus dedos se fechavam delicadamente nos meus, para a sacola não cair, seu olhar explorava meu rosto.
Minha pressão devia estar baixando... senti a vertigem.
- Calma, sua vó não vai saber. Se ela achar, tu diz que foi o moleque lá que deu. Respira. - me instruiu cuidadosamente, mas respirar era minha última preocupação no momento. - Vou me adiantar... Aí, teu celular tá com algum problema?
- Ãn? - meu cérebro tinha parado de funcionar. Ele estava tão arrumadinho, cheiroso...
- Tu viu as mensagens e não me respondeu. - chacoalhou a cabeça - Esquece. Suave... eu entendo.
O olhar dele resvalou em meu braço, preso por sua mão.
Seu rosto escureceu
- Quem foi?
Recolhi o braço e, zonza, me encaminhei até o caixa. Tirei o presente da sacola. Dentro, pelo plástico da embalagem, vi bombons gourmet. Enfiei aquilo por cima de uma camada de poeira na prateleira inferior, sob a caixa registradora e peguei um punhado de sacolas para tampar. Se meu pai encontrasse, eu diria o que ele surgeriu.
Ele estava parado do outro lado, invencível, aguardando. Empertiguei-me, apertando o pano molhado nas mãos.
- Quem fez isso contigo? Me diz. - apertou o olhar.
- Vai embora, Aron... por favor. Minha avó está...
- Chama ela lá, Lia. Vamo ver se pra ela tu oculta informação.
Não sei porque eu estava protegendo aquela garota. Acho que só não queria cutucar ainda mais a Yara com vara curta. Não tinha ideia do que ela poderia fazer comigo e não pagaria para ver.
- Eu fiz isso. - cobri os risquinhos finos e a pele arrocheada ao redor deles. - Me machuco quando estou nervosa.
Ele não tirou os olhos dos meus ao coagir-me:
- Quem foi?
- Vai embora, estou implorando. - busquei não levantar a voz, apesar do nervosismo.
Ele esticou a mão, alcançando meu pulso e puxando. Avaliou, deslizando o polegar nas marcas.
- Foi ele? — perguntou, gélido.
Neguei com a cabeça, e ele deve ter acreditado. Estava óbvio se tratar de unhas femininas. Devolveu meu braço pro lugar, e, antes de desaparecer em cima da moto, prometeu:
- Vou descobrir quem fez isso. Em dois dias a pessoa vai estar caída aqui na tua porta, implorando perdão.
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