A igreja católica que minha avó frequentava, ficava a umas três quadras de casa. Faltando pouco pras sete da noite, subimos andando para ela se exercitar um pouco. Papai a amparava por um braço; passei o meu pelo outro.
Ela via lugares e lembrava de alguma história do meu pai quando criança. Eu adorava ouvir e rir do caos que ele fazia na vida dela.
Passamos por bares, com um ou dois bêbados nas mesas e muita música. Algumas ruas eram mais escuras que outras, e ver motos com caras armados para lá e para cá era frequente.
Vovó sempre parava para falar com um e outro conhecido. Era muito querida.
Eu passei a curtir a agitação pré final de semana que surgia toda quinta.
Acho que se fosse em outro momento, e se meu pai não estivesse aqui, eu teria coragem de ir ao baile dar uma olhada. Minha vó é até mais liberal, mas ele não aprovaria. Posso vê-lo discursando sobre ser " um perigo desnecessário" por conta dos bandidos e tal. E também meu avô se foi há pouco tempo. Seria desrespeitoso.
Vesti calça jeans "boca larga", blusinha branca com babados, e fiquei na duvida entre calçar sandália ou sapatilha. Devido ao calor, optei pela sandália e prendi o cabelo num rabo de cavalo alto.
Encontramos a Valéria no caminho, mãe da Fabi; e Lud, a filha do meio dela.
— Passa lá em casa pra tomar um café, minha querida. Tá sumida. — Minha avó disse ao parar para cumprimenta-la.
Fabi não conheceu o pai. Valéria a criou sozinha até Fabi completar dez anos. Foi quando se casou novamente com o Cleidson e teve a Ludmilla. Mais tarde, veio o pequeno Bento, de três anos. Ele deve ter ficado em casa com o pai.
Valeria era bonita, coxas grossas, cabelo preto azulado, como o da Fabi e, se não me engano, tinha uns trinta e oito. Foi mãe jovem.
— Ô, dona, Betina, eu até ia passar lá hoje, sabe? Mas acabei demorando na faxina. — Valéria explica, depois sorri para mim, dizendo: — Fabiana já subiu, deve tá lá na igreja. Viemos juntas.
Ela bateu o cotovelo no braço da filha, que exibiu o aparelho azul num sorriso super sem vontade.
— Diz oi, filha. — Pediu.
Lud obedeceu, desanimada.
— Oi, Lia. Dona Bete. Divino.
Ela era o oposto da irmã mais velha, na personalidade e na aparência. Fabi era descarada, e Lud, mega tímida.
— Oi, linda. Vou plantar mais verduras na horta, aparece lá pra me ajudar. — Vovó disse amavelmente.
Lud quem ajudava ela e o vovô com a tecnologia. Muitas vezes, quando Valéria e o marido precisavam sair e Fabi não estava, ela ficava lá em casa com eles. Os vizinhos aqui eram unidos. A mãe da Fabi chegou a passar noites com meu avô no hospital, e incontáveis vezes a família deles socorreram meus avós em alguma urgência.
— Bora pra missa? — Meu pai convidou a Valéria.
— Nossa, hoje é a segunda missa do seu Natanael, né, dona Bete? — ela ignorou solenemente meu pai, desviado o olhar dele. — que cabeça a minha, nem lembrei. Me desculpa.
— Magina, meu amor. Você foi na primeira, está ótimo. Ora por ele em casa que tenho certeza que vai ser a mesma coisa.
— Claro, eu sempre oro. Deixa eu ir, tenho que fazer janta.
Ela se despediu com um abraço e as duas continuaram descendo a rua.
— Ah, vocês estão ai! — Fabi chegou trotando, usando mais uma de suas roupas excêntricas. Dessa vez, o acessório ousado era uma boina verde limão. — A missa já vai começar.
— Vamos andar depressa. — eu disse. — Vou cantar, e acho que já estou atrasada.
A família Tonelli, da minha mãe, era tradicional na minha cidade e muito participativos em todos os círculos, desde a politica até a igreja. Esse era um dos motivos de minha mãe ser conhecida, o que a levou a se candidatar a vereadora. Ela sempre me incentivou a seguir seu exemplo e me envolver em todas as esferas também. Mas minha preferência era o coral da igreja. Comecei a cantar nas missas bem cedo. Semana passada fui convidada pelo padre Anselmo, da paróquia daqui, para entrar pro grupo musical deles. Claro que aceitei. Era uma boa forma de me enturmar.
Na entrada da igreja, encontramos a Cibele. Ela era da equipe litúrgica, ajudava a organizar a celebração. Guiou meu pai e a vovó até um banco mais a frente; eu corri para perto do palco junto dos outros da equipe de canto.
Dei boa noite rapidamente e tomei meu lugar ao lado do Isaque, o rapaz que tocava teclado. Ele sussurrou que o violão já estava conectado na caixa amplificadora — afinamos ele no ensaio de segunda. Após tudo pronto, testei um lá maior, mais outras notas, e atestei a eles que estava tudo ok. Iniciamos com uma música de entrada do tempo comum.
" Te amarei, senhor. Te amarei, senhor. Eu só encontro a paz e a alegria bem perto de ti!"
Minha voz se destacava entre as das senhoras, o que me incomodou. Eu não gostava de chamar atenção. Fechei os olhos, imaginando estar sozinha. Meio que funcionou.
Durante os ritos finais, lembrei do meu ex, o José. Ele costumava fazer piadinhas nessa hora, quando ia comigo à missa.
Éramos vizinhos, e nossos pais, amigos, por tanto, nos conhecíamos desde sempre. Eu o chamava de zé e ele me chamava de Lili. Brincávamos juntos na rua, íamos à casa do outro e, quando maiores, saiamos juntos para sociais de amigos, se nossos pais nos levassem. Eu estava sempre sob vigilância, nunca fui de poder sair sozinha, chegar tarde em casa, dormir fora. Com meu irmão são mais liberais, comigo as rédeas eram curtas. Por gostarem do José e família, quando ele pediu para me namorar, permitiram. A gente ficou nos beijinhos e chamegos por quase um ano. Nada do José tentar algo a mais. Minhas amigas começaram a colocar coisas na minha cabeça — até então eu achava normal um relacionamento assim. Talvez ele tivesse escolhido esperar. Mas não... não era normal, e o motivo veio a tona quando, motivada por elas, preparei uma noite especial para nós num quarto de motel, com direito a lingerie e champanhe.
Quando José viu onde eu o levara, fingiu gostar, mas não teve como sustentar o fingimento. Acabou assumindo que era gay. O teatro comigo era para agradar os pais.
Sua mãe suspeitou e o colocou contra a parede. Temendo ser rejeitado, achou interessante usar a garota que considerava mais legal para provar sua masculinidade.
Naquele dia, bebemos todo o champanhe e entramos de roupas intimas na hidro quentinha, rindo muito de toda a situação. Eu o amava, mas não como homem. Fiquei aliviada, na verdade. Acho que também só aceitei namorar porque todas as minhas amigas ja tinham perdido a virgindade, menos eu.
Fomos juntos contar a verdade a família dele. Após um pouco de relutância, ele foi aceito, mas eu continuei sem transar.
Da para acreditar nas coisas que acontecem na minha vida?
Agora eu morava numa favela, longe de tudo e todos.
Distraída, olhei para a entrada da igreja enquanto o padre dava os avisos.
Quem era aquele gatinho conversando com a Cibele na porta?
VOCÊ ESTÁ LENDO
Pique
RomanceEle é uma bomba, um perigo. Ela sabe que não deve se arriscar tão perto, que pode se ferir com uma iminente explosão. Lia tem 19 anos, e uma perda a levou para o morro do Sol. Ajudar a família vem em primeiro lugar, até mesmo antes de seus desejos...
