- Fala, moleque! Cumpriu a missão, vai ganhar mais dois desse ai. - Ninja abre a palma da mão no alto. O garotinho que me trouxe até ele, pula e bate a mãozinha na dele, todo contente pela recompensa.
Ninja tira um paco de dinheiro de sua bolsinha atravessada no peito e entrega cem reais à criança.
- Agora abre ai que eu tenho que adiantar o parceiro. - sorrindo, ele gesticula pro moleque ir andando.
Ele disparou para uma das barraquinhas, numa felicidade invejável.
Ninja encurtou nossa distância. Transmitia bom humor.
- Então quer dizer que fui vendida por cem reais? - apoiei a mão na cintura, fingindo estar insultada.
Ele me abraçou, me balançando para os lados:
- E um dogão. — disse com um sorriso contagiante.
De onde estávamos, por sobre o ombro dele, consegui ver que a mulher bonita que acompanhava o Alcaida, acabou solitária numa mesa com a esposa do Bazuca. Elas dividiam uma coca. Bazuca e Alcaida não eram vistos em lugar algum.
- Não era mais fácil ter me chamado pessoalmente? - eu disse ao Ninja, recobrando o raciocínio, e desfizemos o abraço.
Ele enterrou os dedos no topete lisinho, arrumando.
- Aquele mala não sai de cima de tu, pô, pior que carrapato. Roubando vários corações, né? - ele riu, exibindo o chiclete na boca.
- Que eu saiba, não. - banquei a rogada. - E ai, viu meu show? Não vai me parabenizar? Tava pulando igual pulga na plateia, agora que tá perto fica encubando?
- Ou, tava pra te falar isso agora. Que isso, cara? Eu ouvi aquela vez lá na mercearia, mas hoje, tocando violão e pá, foi outra parada. Meus parabéns, na moral mermo. Muito foda.
Me induzindo a caminhar em direção a igreja, espiou a multidão a nossa volta.
- Escuta... - virou o rosto para mim, que me deixei ser levada sem questionar. Ele abriu novo sorriso, mais para me convencer de algo do que qualquer outra coisa. - O amigo quer te parabenizar pessoalmente. Não é segredo que vocês tão na intenção um do outro, vivem se escoltando, trocando olhares. Eu vi aquele sorriso que tu deu pra ele lá do palco. Ele não é de falar, mas ficou baqueado. Conheço ele.
- Quem? O mesmo amigo que estava enfiando a língua por dentro da boca daquela morena? - Tirei o braço dele de mim, fazendo meia volta. - Não, obrigada.
- Ei, ei! - ele agarrou meu cotovelo. - Calma aí... não vai me deixar terminar nem de falar? Qual foi?
- Falar o quê, Ninja? Ele quer que eu seja mais uma. - estava bolada, por isso cruzei os braços. - Não quero papo com ele.
- Tá bolada por causa da outra la, ne? Lia, se liga, eu e o Alcaida fomos criados juntos, no mesmo pique, sabe como? Não vou mentir pra tu, ele come geral mermo, mas não insiste em ninguém. Tu já sacou que ele é dixavadão. Tenta ouvir o papo dele antes de julgar e deixa rolar.
O fitei de lado, bicuda.
Ele puxou um cigarro e colocou o filtro na boca. Aquilo balançava entre seus lábios enquanto ele falava de cara fechada.
- Aposto que tá escutando fofoquinha de zé povinho. - parou a chama do isqueiro na ponta, depois encheu as bochechas. Assoprou. - Você quer também, que tô ligado. Vai ficar se limitando por bagulho que nego fala sem saber?
Olhei para baixo, passando uma mecha de cabelo para trás da orelha.
Ele estava certo... mas se todo mundo falava, será mesmo que estavam tão errados? Particularmente, não achei o Alcaida uma má pessoa, mas meu julgamento não é confiável, porque estou atraída por ele e quero acreditar que é do bem. Ou, pelo menos, que não seja tão do mal quanto dizem.
Passo a mão na testa, sem saber o que fazer.
Ele fuma mais uma vez, e volta falar:
- Bora viver... fazer o que tem vontade, seguir o coração. Do que adianta essa marra toda, se o sentimento diz outra parada? Sou do seguinte pensamento: a vida é um sopro pra tá perdendo tempo. Deixa o cara se mostrar pra tu. Se permite.
- Se eu for e...
- E nada. Vai sem medo, deixa acontecer. E... E o quê? Ele tá maluco contigo, tu maluca com ele, é resumo. - observou meu rosto, decerto, ruborizado. - Como ela fica.
Ele riu de mim.
- Vai tranquila. O japa quem tá te passando a visão. Brabão passar vontade.
- Mas tem a Yara, tem aquela moça ali. - não preciso mostrar para ele saber de quem estou falando.
- Se ele formar contigo elas perdem, não tem pra ninguém. E ele já tirou a Yara do morro. Se quisesse alguma delas, acha que estaria em cima de você igual tá?
- Tirar ela do morro não significa que não estão juntos.
Eu estava tombando.
- Tudo nessa vida a gente tem que meter a cara pra saber qual vai ser. Ele quer só trocar uma ideia... vai lá, ouve, se não for do teu agrado, mete o pé e é isso. - mexe o cigarro no ar, depois o pendura na boca de novo. - Tomar no cú da Yara, ninguém suporta aquela otária.
Meus ombros caem, assim como meus braços. Olho para a porta fechada da igreja, ponderando.
- Eu compreendo você tá escaldada... papo de família, essa vida bandida que a gente leva... isso tudo implica. Mas não deixa opinião dos outros fazer tua mente. Na boa, tira tuas conclusões. Não vou falar pra tu que o Hussein é santo, nenhum de nós é. Mas ele tá com essa piranha ai, porque tu falou que não queria... a gente meio que teve um papo, sacou?
Encaro-o.
— Que papo?
- Bagulho de homem. Mas sei que ele mandou a Yara de volta pra pista por tua causa. O mano tá tonteado contigo. - piscou um olho - Vai por mim, pô.
Começo a sorrir, mas fecho a cara de novo.
- Mas eles se separaram?
A bola branca que ele faz com o chiclete, estoura em sua boca. Por uns segundos, ele não responde, mas, então, sibila:
- Isso ai eu nem procurei saber, não me meto. - apaga o cigarro com a sola do tênis. - Fala ai, bora ou não bora?
Olho de novo para a porta de madeira clara da igreja, detalhadamente entalhada. Os seguranças, alguns deles, estão de cada lado dela, nenhuma grande arma a vista.
- Pega a visão, Lia, se tu não for, esquece, ele não vai te procurar mais. - ele me pressiona.
Arrebito o nariz.
- Então vamos ver o que ele tem pra me dizer. - marcho determinada na frente.
Ninja dá um soco no ar, resmungando um " Ufa ", me levando a suspeitar que sua missão era me fazer entrar ali por bem ou por mal. E eu entro.
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Pique
RomanceEle é uma bomba, um perigo. Ela sabe que não deve se arriscar tão perto, que pode se ferir com uma iminente explosão. Lia tem 19 anos, e uma perda a levou para o morro do Sol. Ajudar a família vem em primeiro lugar, até mesmo antes de seus desejos...
