7 Cabelos dourados

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– Pronto, te libertei. – Ele tirou o braço do meu ombro ao chegarmos na pequena pracinha. – Vamô começar do zero. JC, prazer. Tu é a Lia, Talia. Minha mãe não deixou eu esquecer teu nome um só dia desde que tu chegou. Pena que não nos conhecemos antes.

– Verdade, uma pena mesmo. Eu gostei de você.

Não sabia o caminho, mas confiava nele. Deve ser por ele ter a aprovação da minha família e da minha amiga. Fabi sabia quem era quem aqui no Sol, e, se ela dizia que alguém não prestava, realmente não prestava. O mesmo valia para o oposto. No caso, ela só elogiou o rapaz.

– Que bom, né? — brincou.

– Posso te chamar de JC?

– Deve. Júlio Cesar é tiuti.

– E o que seria tiuti?

– Que é ruim, não presta, feio, zoado. Minha mãe não me deu um nome, me castigou. O cara era um imperador cuzão, ditador e romano. Podia ser pior?

– Tudo bem, pode não ser um bom nome. Mas pelo menos você é bonito.

– Vou tentar não me apaixonar por você, tá? – Seus olhos eram envoltos por cílios extensos e suas sobrancelhas eram espessas. Sua pele, de bebê; seu sorriso, envolvente como cobertor felpudo em dia de inverno. – Mas não prometo.

Eu estava à vontade com ele até aquele instante, mas acabei me sentindo pressionada.

– Se eu soubesse que você era linda assim, juro por Deus, Talia, não teria enrolado tanto a minha mãe pra não ser apresentado a você.

– Você enrolou ela? – Eu ri.

– Foi mal, mas eu não esperava muito. – Alçou as mãos no ar. – Minha mãe nunca me apresentou a filhas de ninguém. Achei que, para ela fazer isso, a mina devia ser um patinho feio. Ela gostou mesmo de tu, elogiou a beça. Quando falou que era linda, desculpa, não acreditei.

– Gosto assim, de superar expectativas. – Íamos atravessando a rua.

Eu me distraí e quase fui atropelada, mas ele puxou minha mão quando a moto passou zunindo.

Sabe aquela cena clichê de o mocinho puxar a mocinha e ela bater em seu peito?

Foi mais ou menos isso.

Depois de conferir se eu estava bem, caímos na risada e seguimos.

Estava escuro no beco que tomamos. Eu basicamente ouvia só a voz dele, vendo bem mal seu rosto.

Fomos conversando até chegarmos à barraca.

– Que droga, passou rápido demais. — declamou — A gente tá parecendo aquele povo de antigamente que os pais arranjavam o casamento, né?

– Sim, mas pelo menos a gente não se odiou.

Nos dirigimos a uma mesa. Ele puxou a cadeira para mim. Um querido.

Pedimos cerveja.

– Acabei de tomar hóstia consagrada. – Lembrei, quando a garota foi buscar nosso pedido. – Vou de tobogã para o inferno?

– Não. Isso tem perdão. De acordo com o padre – e com a minha mãe – o que não tem perdão são tatuagens.

Minha risada com ele era leve, sincera. Desde o falecimento do meu avô, não me lembro de sorrir assim.

Começamos contando coisas sobre nós, para nos conhecermos melhor. JC realmente era tudo que minha avó dizia.

– Tu me achou bonito mesmo, ou só estava tentando ser legal? – Ele perguntou, depois que a moça trouxe nossa bebida.

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