– Pronto, te libertei. – Ele tirou o braço do meu ombro ao chegarmos na pequena pracinha. – Vamô começar do zero. JC, prazer. Tu é a Lia, Talia. Minha mãe não deixou eu esquecer teu nome um só dia desde que tu chegou. Pena que não nos conhecemos antes.
– Verdade, uma pena mesmo. Eu gostei de você.
Não sabia o caminho, mas confiava nele. Deve ser por ele ter a aprovação da minha família e da minha amiga. Fabi sabia quem era quem aqui no Sol, e, se ela dizia que alguém não prestava, realmente não prestava. O mesmo valia para o oposto. No caso, ela só elogiou o rapaz.
– Que bom, né? — brincou.
– Posso te chamar de JC?
– Deve. Júlio Cesar é tiuti.
– E o que seria tiuti?
– Que é ruim, não presta, feio, zoado. Minha mãe não me deu um nome, me castigou. O cara era um imperador cuzão, ditador e romano. Podia ser pior?
– Tudo bem, pode não ser um bom nome. Mas pelo menos você é bonito.
– Vou tentar não me apaixonar por você, tá? – Seus olhos eram envoltos por cílios extensos e suas sobrancelhas eram espessas. Sua pele, de bebê; seu sorriso, envolvente como cobertor felpudo em dia de inverno. – Mas não prometo.
Eu estava à vontade com ele até aquele instante, mas acabei me sentindo pressionada.
– Se eu soubesse que você era linda assim, juro por Deus, Talia, não teria enrolado tanto a minha mãe pra não ser apresentado a você.
– Você enrolou ela? – Eu ri.
– Foi mal, mas eu não esperava muito. – Alçou as mãos no ar. – Minha mãe nunca me apresentou a filhas de ninguém. Achei que, para ela fazer isso, a mina devia ser um patinho feio. Ela gostou mesmo de tu, elogiou a beça. Quando falou que era linda, desculpa, não acreditei.
– Gosto assim, de superar expectativas. – Íamos atravessando a rua.
Eu me distraí e quase fui atropelada, mas ele puxou minha mão quando a moto passou zunindo.
Sabe aquela cena clichê de o mocinho puxar a mocinha e ela bater em seu peito?
Foi mais ou menos isso.
Depois de conferir se eu estava bem, caímos na risada e seguimos.
Estava escuro no beco que tomamos. Eu basicamente ouvia só a voz dele, vendo bem mal seu rosto.
Fomos conversando até chegarmos à barraca.
– Que droga, passou rápido demais. — declamou — A gente tá parecendo aquele povo de antigamente que os pais arranjavam o casamento, né?
– Sim, mas pelo menos a gente não se odiou.
Nos dirigimos a uma mesa. Ele puxou a cadeira para mim. Um querido.
Pedimos cerveja.
– Acabei de tomar hóstia consagrada. – Lembrei, quando a garota foi buscar nosso pedido. – Vou de tobogã para o inferno?
– Não. Isso tem perdão. De acordo com o padre – e com a minha mãe – o que não tem perdão são tatuagens.
Minha risada com ele era leve, sincera. Desde o falecimento do meu avô, não me lembro de sorrir assim.
Começamos contando coisas sobre nós, para nos conhecermos melhor. JC realmente era tudo que minha avó dizia.
– Tu me achou bonito mesmo, ou só estava tentando ser legal? – Ele perguntou, depois que a moça trouxe nossa bebida.
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Pique
RomansaEle é uma bomba, um perigo. Ela sabe que não deve se arriscar tão perto, que pode se ferir com uma iminente explosão. Lia tem 19 anos, e uma perda a levou para o morro do Sol. Ajudar a família vem em primeiro lugar, até mesmo antes de seus desejos...
