Ele desconversou, dizendo que não sabia o que aquilo fazia ali, mas para mim aquele medicamento era para seu próprio uso.
Fui tomada de compaixão ao imaginar o que ele sentia em seu íntimo, para ser um homem tão introspectivo assim e precisar de remédios. A coisa devia ser mesmo grave...
Mas era uma suposição. Nada impedia de ser da Yara, que com certeza frequentava a casa e poderia ter esquecido na pressa. Achei melhor não insistir mais nesse assunto; ele não pareceu gostar de falar.
Não falar não queria dizer que eu não parasse de pensar que devia ser péssimo sentir ansiedade. Lembro que tia Marta sempre tinha crises terríveis: tremia, suava, chorava. Espero, de coração, que não pertença a ele.
Para nos distrair dessa aura pesada que condensou o ar, pedi para conhecer sua academia. Ficava no sub solo também, atrás da garagem. Como ele disse, não tinha muitos aparelhos. Alguns eu lembrava como usava, do tempo em que eu bancava a motivacional do meu irmão e o acompanhava nos treinos. Lógico que essa nossa fase não durou dois meses inteiros.
Testei quase todos os equipamentos. Alcaida, taciturno, me seguia com o olhar, degustando uma água tônica: disse que já havia treinado de manhã cedo. Era legal como eu parecia ser um entretenimento interessante para ele.
- Você é diferente dos outros. - comentei, experimentando a bike.
Ele se escorou ao lado, na esteira ergométrica, aparentemente, intrigado.
- Por que treino? - perguntou, subindo uma sobrancelha.
- Sim. Tipo... - respondi, já meio ofegante, intensificando as pedaladas. - você tem um papagaio, treina, tem uma A-CA-DE-MIA - destaquei a palavra, fazendo caras e bocas, na zoação - Não bebe. Poxa, você é muito saudável. Isso não é normal.
- E você canta, toca... cada um com suas peculiaridades. - seu semblante estava suavizado agora.
Ele parecia ter um corpo tão firme, duro... Seus ombros eram extremamente largos, desenhados e seus olhos, uma espécie de prisão para os meus.
- E ai, vai me ensinar boxe? - apontei o queixo para o pequeno tatame que havia num cantinho, junto a um saco de pancadas, pendurado no teto, e luvas azuis, num suporte.
- Bora! - maneou a cabeça, demonstrando uma evidente empolgação em me ensinar.
Enfiou, em suas mãos, os aparadores de soco, me mandando calçar as luvas gorduchas. No início, fingi não saber como fazia, assim ele continuaria animado em ser meu professor. Essa era minha indenização pelo inconveniente da cozinha. Mas a verdade é que pratiquei a maioria desses esportes e lutas quando mais jovem. Meus pais acreditavam que cabeça vazia era oficina do diabo e mantinham a minha bem cheia.
- Jeb... jeb... jeb... direito. - ele instruía, e sorriu com os olhos, num momento, ao perceber que rodei corretamente o torso e dei um pequeno impulso com a perna para fortalecer um golpe.
- Cruzado. - falou, e mudei ligeiramente o angulo do soco. - Gancho! - desferi um curto e recuei, a testa molhada, dando pulinhos de aquecimento.
- Tem alguma coisa que tu não saiba fazer? - ainda mantendo os aparadores mais ou menos na altura de seus ombros, caminhou devagar até mim, encarando sem interrupção.
Devolvi a encarada por um segundo constrangedor. Estávamos a poucos centímetros agora. Eu devia estar ruborizada .
A fala dele foi bem sugestiva: sabíamos muito bem o que eu não sabia fazer. Estava externado, naqueles olhos cálidos, a vontade que ele tinha de me ensinar a arte do sexo.
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Pique
RomanceEle é uma bomba, um perigo. Ela sabe que não deve se arriscar tão perto, que pode se ferir com uma iminente explosão. Lia tem 19 anos, e uma perda a levou para o morro do Sol. Ajudar a família vem em primeiro lugar, até mesmo antes de seus desejos...
