38 Só o começo

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- Não que eu tenha virado santo, mas amadureci muito. Não dá pra tá perdendo tempo que eu nem tenho. Forçando os bagulho... Yara tem meu conceito, pra ela a fonte sempre vai jorrar, mas é aquilo...

Com o cotovelo no banco, apoio a cabeça na mão, porque está demais ouvir ele falar tanto assim. Vou me aproveitar disso.

- E a sua ex? A Noêmia.

Ele muda o olhar para a janela, depois para suas mãos no colo — falar dela não deve ser o auge do seu dia.

- Ela me deixou, foi isso... - se há tristeza ou saudade em seu tom, eu não percebo. Só percebo uma certa resignação e muita, muita culpa.

- Posso perguntar o que eu quiser hoje, pelo jeito, né? - para mim estava o máximo a gente conversando. Queria mais, porém, precisava saber qual era o limite.

- Quer saber o quê? - quando ele sorria daquele jeito charmoso e contido, o mundo se tornava até um lugar melhor. Que sorriso foda!

Que carinho eu vejo em seus gestos!
A cada segundo, a minha recente impressão dele só melhora, e os boatos passam a não valerem nada.

- Ah, um monte de coisas. Quero te conhecer. Não é isso que você tanto fala?

- Hoje vou te dar uma moral, só porque tu aceitou entrar no meu carro. Pode perguntar o que quiser, vou responder numa boa. Valoriza que eu não dou esse privilégio pra qualquer pessoa, não. - seu olhar dizia que eu era mesmo uma espécie de " pessoa vip", daquelas que entram em qualquer lugar sem pagar. Ele estava disposto a me mostrar mais do que mostrava a maioria.

- Tá, então lá vai... Noêmia te amava?

- Por que quer falar dela? Pergunta outras coisas, pô.

- Te incomoda? - ergui a sobrancelha, desafiando.

Para provar que não, respondeu:

- Era o que ela dizia... Dizia ser amarradona.

- Por que terminaram?

- Não fui eu quem terminei. - a resposta evasiva não me desencorajou. Além disso, foi só um teste. Sei muito bem o motivo pelo qual terminaram. Isto é, se Fabi estiver certa.

- Você sente falta dela?

- Sinto. - essa resposta me causou um leve aperto na barriga, algo semelhante a... tristeza.

Não consegui disfarçar.

- Mas não nesse sentido - a explicação foi como um analgésico de efeito instantâneo. - É que a gente passou muito reflexo junto, ta ligada? Conheci ela, eu tinha dezenove, ela dezesseis... Meio que as pessoas se apegam, criam um costume, sei lá... Questão de sentimento acho que já não era mais a mesma parada de um tempão. Uma hora te conto melhor... Te explico melhor.

- Vou aceitar. Gosto de te ouvir. - gostava tanto, que meu corpo estava praticamente pendurado no apoio entre os bancos, tamanho meu interesse em não perder um detalhe que fosse.

- Tá com tempo, não tá? - viu as horas no celular - A gente podia brotar la em casa. Ei, sem neurose, calma ai! - pediu quando me remexi, reprovando a sugestão. - Não vai acontecer nada, te prometo. Só pra gente conversar com mais calma. Tu não tá cheia de perguntas ai? Bora? O Zé vai se amarrar em te conhecer pessoalmente.

- Acho que não... Tá ficando tarde já. - na minha cabeça, eu calculava quanto tempo meu pai ainda levaria para acordar e ir pra cama, a hora que a novela acabava e quanto tempo exatamente eu ainda tinha antes de procurarem por mim.

- Ninguém vai sentir sua falta na tua casa a essa hora. Alguém te viu sair?

- Atá! Eu faço falta, viu? Vê la... - empinei o queixo - Meu pai pensa que estou na Fabi, mas nem deve estar acordado mais, para se questionar se já cheguei ou não. Minha avó deve estar dormindo também.

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