- Posso te ligar de video? — ele perguntou.
Olhei para a janela do quarto da minha avó; a luz estava apagada.
- Tá... mas não vou demorar muito, ok?
- Tranquilo. - ele desligou na minha cara.
Ligou novamente pelo WhatsApp.
Atendi, o vendo numa piscina suntuosa, a água azul iluminada batendo eu seu peitoral. Ele posicionou o celular apoiado em algo na borda, enquanto eu segurava o meu em frente ao rosto. Eu verifiquei como eu estava, na imagem menor abaixo, deitando meu rosto no braço.
Meus cabelos molhados estavam lambidos para trás. Não deixei quase nada do meu corpo aparecer, a não ser os ombros e o rosto. Os cílios, de que eu me orgulhava, naturalmente cheios, estavam grudados.
A água aqui também era azul e iluminada, mas a paisagem ao fundo dele era muito mais bonita. Localizada num pico, era cerceada por um vidro.
— Que vista você tem aí. — elogiei.
Ele esfregou os cabelos descoloridos, os músculos brilhando pelo reflexo da luz em sua pele molhada. A água escorria de seus cotovelos e os desenhos do abdome.
Ele foi até o celular, o rosto se ampliando conforme se aproximava. O pegou e ergueu o celular de modo a me mostrar melhor como era aquele lugar estarrecedor.
- Tá convidada pra vir conhecer. - voltou o celular pro lugar. Recuou, cruzando os braços acima no peito e me observando.
Ele era a melhor parte daquela paisagem, e isso me deixava aflita.
Abri um sorriso exaurido.
- Para de me chamar pra ir na tua casa, sabe que não vou. - praticamente cochichei.
- Para tu com isso, pô... qual a neurose? - ele respondeu, franzindo as sobrancelhas. - A Yara vai voltar pro apê dela em Copacabana.
Rolou um silêncio comprido, no qual me peguei pensando se a mudança se devia a mim. Até então tudo indicava que ela moraria aqui. Por que a repentina alteração nos planos?
Enquanto eu tentava adivinhar, ele mergulhou, apontando mais perto da borda com os cabelos escorrendo na testa. Já estava me acostumando com o fato de que ele raramente sorria.
Apoiou os braços como os meus, o queixo sobre eles, e continuou o assunto:
- Se esse for o único problema pra você, tá resolvido.
Seus ombros, naquela posição, eram como pedras protuberantes. Ele enganava bem com aquela carinha de sonso, mas os olhos eram explícitos: de terrorista, pronto pra qualquer parada. Corajoso. Destemido.
Eu sobreviveria a isso tudo?
- Você tem tantas opções. Inclusive, sua ex. - me embrulhou o estômago tocar no assunto.
Eu tinha a vã esperança de descobrir se ele ainda sentia algo por ela; não pude segurar
- Não quero me meter nesse meio, essas coisas não são pra mim, nem tenho paciência para disputas. — expliquei.
- Tu só precisa saber que se eu quiser mesmo alguém, abandono todas. Não fiz isso ainda porque nunca apareceu a pessoa certa.
Arregalei os olhos involuntariamente.
Se era papinho, eu não sabia, mas embolou tudo dentro de mim.
Precisei me afastar do celular.
Sumi sob a água também. Quando voltei, com a mente mais refrescada, limpei os olhos. Não sabia o que dizer... era super raro eu não ter respostas.
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Pique
Roman d'amourEle é uma bomba, um perigo. Ela sabe que não deve se arriscar tão perto, que pode se ferir com uma iminente explosão. Lia tem 19 anos, e uma perda a levou para o morro do Sol. Ajudar a família vem em primeiro lugar, até mesmo antes de seus desejos...
