17 Efeitos

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A mulher não quis contar quem havia me anunciado. Mas eu já sabia. Quem mais teria poder para me passar na frente assim?

Antes de vir, tomei um banho longo, lavando com cuidado o machucado. Minha avó aplicou um remédio natural feito de ervas, dizendo ser para tirar dor e infecções. Calcei havaianas, shortinho e body branco. Já não queria mais andar sem maquiagem. Talvez por saber que estava sendo vigiada.

Foi muito rápido meu atendimento.
A enfermeira desinfetou, passou uma pomada e fez um curativo. Fui embora com uma receita em mãos e passei na farmácia pra comprar o spray antisséptico.

Voltei para casa com a ajuda do GPS. Não sabia andar de forma alguma aqui dentro ainda. O morro era um labirinto.

No caminho, enquanto escutava música, refleti sobre os últimos acontecimentos.

Tomei trauma de caipirinha.

Estava acabada, destruída, me sentindo um lixo. E ainda teria que trabalhar até às sete da noite.

Graças a Deus, meu pai tinha feito reposição e limpado o chão. Só precisei ficar sentada mexendo no celular, lendo as mensagens das minhas amigas no grupo " Maldita Eva". Contei só as partes boas daqui: como era maneiro, como fiz novas amizades e estava amando tudo. Também marquei com a Fabi de irmos à praia amanhã.

Descendo as mensagens não lidas — tomando bastante água para me hidratar e parar de tremer feito um bambu ao vento— , cheguei à última.

Regurgitei a água.

Ela foi enviada ás cinco e meia da manhã.  Eu nem tinha visto.

21 98835353535: " Pessoal da UPA vai estar avisado quando tu chegar lá. Da um salve pra eu saber que ta td bem contigo. Tô preocupado com esse pé. Aron "

Não acredito que o Ninja passou meu número. Fabi disse que ele pediu ontem.

Isso significava que Fabi tinha razão?

Já ia apagando a tela quando o aparelho vibrou de novo, me fazendo perceber que estive paralisada. Me toquei de que a conversa dele estava aberta. Uma nova mensagem apareceu sob a anterior.

" Que bom que não foi grave. Qualquer baglh só acionar. Ve se faz os curativos direito 👍🏼"

Cara, era o que Fabi falou, ele era mega controlador. Mal sai da UPA e ele já sabia detalhes.

Agora sim eu estava apavorada!

Eu deveria pedir para ele não me mandar mais mensagens. Se aquela mulher descobrisse faria picadinho de mim.

Tomada de coragem, digitei uma resposta.

Lia: " Estou bem sim, deu td certo rsrs (mãozinha rezando)"

Ele não tinha foto, visto por último, nem confirmação de leitura. Bem, era aceitável para quem passou anos preso, né?

E saiu justamente quando me mudei...

Lia: " Alcaida, desculpe, sua mulher pode não gostar de você estar me mandando mensagem"

(número não salvo): " O que aconteceu ontem não vai mais acontecer. Ela nunca mais vai te oprimir, te garanto" 

O que será que ele fez?

Uma senhora entrou no mercado, dando boa tarde. Respondi desligada; ela sumiu num dos corredores.

Lia: " Não quero causar nenhum mal entendido. Se ela ver pode entender errado."

Embora eu não quisesse que ele respondesse, esperei em expectativa.
Sim, eu estava dividida.

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