Personagem tal,
A primeira coisa que faço, é ligar meu gravador.
Aguardo ansiosamente esse encontro há dias. O melhor que pude fazer, foi me encontrar com ela num quarto de motel. É estranho, mas não estou nem ai para isso.
Me sentei na cama, ela, está em pé, servindo vinho em duas taças.
- Aprecio motéis. - o sorriso se destaca no rosto maquiado e bonito. O batom em seus lábios, é da cor do líquido que se agita dentro do vidro de cristal. Ela bebe da sua, sujando a borda. A outra, me estende com um olhar atrevido e avaliador. - Por que sempre tem que gravar nossas conversas? É doentio esse seu hábito.
Após descobrir que o vinho está na temperatura ideal e é saboroso, abaixo a taça.
- É a minha condição. Não vou discutir isso novamente.
- É perturbador. Mas tudo bem... - se senta na borda da jacuzzi, sungando a barra do longo vestido de aparência cara e exclusiva. - Me diga o que sabe. - faz um gesto no ar para eu começar.
- Antes, quero saber como foi o encontro de vocês. Se bem se lembra, isso entre nós é uma troca. Estou dando mais do que recebo.
- Justo. Então... Foi como em todas às vezes. - pelo fulgor de seus olhos, sei que ela mataria e morreria pelo Alcaida. É uma mulher completamente apaixonada.
Chega a ser irracional e burra.
Ele a fragiliza.
- Foi sensacional... ele não me decepciona nunca. - emenda num tom arrebatado.
Ninguém tem conhecimento de que eles têm um logo caso. Anos.
Ninguém sabe quem é esta mulher em minha frente. Foi difícil chegar até ela. Como tudo que quero, consegui. Hoje temos uma aliança. Não nos gostamos, nossa relação não é baseada em confiança. Simplesmente, somos úteis mutuamente. Tiramos proveito disso. Forneço-lhe informações, ela me fornece dinheiro. O que não sabe, e que se soubesse me mataria sem pensar duas vezes, é que também a uso, e não somente para obter dinheiro.
Ela é uma caixa preta e, sem perceber, acrescenta muito em meu plano.
Não revelei que o odeio. Ela acreditou piamente em cada mentira que inventei em prol da nossa união. É favorável a ela, que não mora no morro e precisa de alguém para mantê-la a par do que acontece lá. Do que acontece com o amor de sua vida.
Nunca conheci ninguém como ela. Que ama como ela.
- Mas notei que ele estava um pouco distante... não gosto de sentir isso. Sempre que fica assim, tem mulher nova envolvida. - diz, disfarçando sem sucesso o aborrecimento.
- Pensei que tivesse me dito que desde a Noêmia, ele nunca mais havia se ligado a ninguém.
Ela sorri sarcasticamente.
Prova o vinho.
- Homem é sexual, não sabe? Noêmia era uma pedra no meu caminho... E foi arrancada. Graças a você. Obrigada. - propõe um brinde de longe.
Inclino a cabeça, devagar:
- Disponha.
- Sinceramente... ele pode não me amar como o amo, mas me conforta saber que ela também não terá mais nada. - fixa-se distraidamente num canto qualquer, pensando, a borda da taça no queixo. - Sabe... Fora a Noêmia, ele só se distanciava de mim quando estava fodendo muito com alguma piranha. Em nossos encontros, aparecia com pouca energia. E isso me levava a caçar a filha da puta até destruí-la.
Perante a loucura em sua expressão e voz, sorrio. É engraçado.
- Você é pior que eu... - comento.
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Pique
RomanceEle é uma bomba, um perigo. Ela sabe que não deve se arriscar tão perto, que pode se ferir com uma iminente explosão. Lia tem 19 anos, e uma perda a levou para o morro do Sol. Ajudar a família vem em primeiro lugar, até mesmo antes de seus desejos...
