- E ai, gostaram? - me volto do espelho para eles, sentados no sofá fofo da sala dessa profissional incrível que acaba de furar meu nariz.
A dor que senti quando a agulha atravessou a cartilagem nem fez cócegas. Eu já estava sentindo uma dor maior no coração que tomava muito espaço e era egoísta. Essa outra dorzinha foi só um meio vão de tentar aliviar a do peito. E, claro, uma desculpa para me encontrar com meus dois melhores amigos do morro.
- Ficou mídia, Lia! Eu jurava que era impossível você ficar mais gata. - Jc folgou no trabalho hoje e nos acompanhou.
Ontem, depois que o Aron saiu do mercado, ele apareceu, como se adivinhasse o futuro e soubesse que eu iria precisar de sua companhia. Ele e Fabi passaram a noite comigo nos fundos de casa, na piscina. Assamos carne na churrasqueira que era o xodó do vovô e bebemos caipirinha.
Dispensei eles quando foi dando o horário de ele me buscar, mas acabei ficando sozinha em casa e arrependida de ter trocado meus amigos.
Levei um bolo do Aron e nem sequer podia desabafar. Ninguém podia saber o que eu andava fazendo com ele por ai.
Não entendi porque Aron nem uma satisfação me deu por mensagem, mas também não fui atrás de respostas. Não mandei nada e fingi que não me importei em ser esquecida.
- Mana, tá muitooo linda! Podemos mudar esse ponto de luz para o de argolinha quando, Su? - Fabi pergunta a moça.
Ela nos explica que somente quando cicatrizar posso substituir a joia.
Pago a ela o valor da perfuração e saímos de lá juntos. O estúdio de tatuagem onde Sula atende fica na parte mais baixa do morro, lugar cheio de comércios e movimento. Não é difícil para nós conseguirmos um mototáxi, e assim, rapidamente estamos subindo novamente.
Aqui eles andam iguais malucos, mas parece ter uma mágica que não deixa nenhum acidente acontecer. Meu piloto freia nas curvas fechadas muitas vezes em cima do carro ou da moto que vem de encontro conosco, mas nada acontece, apenas muitas buzinas.
As ruas principais estão parecendo formigueiros por ser feriado e, além disso, dia de baile. É gente subindo e descendo o tempo todo, muitas e muitas motos, geral sem capacete e às vezes com duas ou três crianças na garupa. Um auê. Muito fluxo o tempo todo: comércios abertos em espaços minúsculos, gente se espremendo, bares no meio disso tudo, e quase nada de carros, porque dependendo do beco ou da viela, carro não passa de jeito algum.
Detalhe: se for carro estranho não sobe nem até metade dessa rua aqui. Chegando mais pra cima ali, numa das curvas, os caras do movimento já param ou alguém manda voltar de ré.
É... Isso aqui é Brasil, meu amigo. Rio de Janeiro. A cidade que mistura as maiores belezas, bairros nobres e a extrema pobreza das favelas, onde quem manda é o poder paralelo.
Ao passarmos numa das bocas da segunda rua mais movimentada, a rua Três Marias, meu estômago vem parar na garganta. Vejo ele lá, todo lindo, em sua Kawasaki. Parece que ele acabou de encostar ali, pois o motor da máquina poderosa ruge como um leão.
Está de costas para nós, que estamos subindo o aclive. Tem um baseado da grossura do escapamento na orelha, as mãos no guidom, acelerando sem sair do lugar. Nesse calor ele não usa camisa - se eu fosse homem também não usaria - por isso vejo bem o brilho prateado de um revólver em seu cós. Em seu entorno, um monte de outras motos e um monte de homens sobre elas e fora delas. Ninja está em pé no centro desse bolo, falando com um carinha de luzes no cabelo — a maioria deles tem essas luzes esquisitas. Meu japa preferido porta uma arma, que aponta atrás de suas costas; cara amarrada como quando se torna, além da criança que é, o traficante temido. Encontro Bazuca montado em outra moto, de frente ao amigo.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Pique
RomanceEle é uma bomba, um perigo. Ela sabe que não deve se arriscar tão perto, que pode se ferir com uma iminente explosão. Lia tem 19 anos, e uma perda a levou para o morro do Sol. Ajudar a família vem em primeiro lugar, até mesmo antes de seus desejos...
