31 Ameaça

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Minha próxima parada foi no banheiro feminino comum, atrás da igreja. Me encarei no espelho, enchi a mão de água e inclinei a cabeça, erguendo os cabelos e molhando a nuca. A sensação da água fria na minha pele foi revitalizante. Descansei as mãos no mármore, cadenciando a respiração. Não era para eu estar assim... Me recuso a gostar dele! 

Se ele não fosse tão... ele.

Um barulho alto, próximo, me fez empertigar o corpo. É quando vejo uma garota trajada de blusa amarela de mangas, cabelo escuro e liso, pele morena-clara e olhos expressivos. Ela entra, fechando a porta atrás dela com uma batida.

Não sabia se havia mais gente nas cabines. Dei uma rápida averiguada. Não me sentia mais segura naquele espaço, com aquela moça de aspecto inamistoso.

- Não vira a cara não, colega! - sua voz tinha uma sonoridade de gente baixa, barraqueira. - Olha aqui pra mim. Tenho um recadinho pra tu. - unhas afiadas se cravaram no meu antebraço.

Senti o puxão e reclamei, assustada:

- Que isso? O que você quer? - girei meu braço pra me soltar, mas as unhas em formato de garras se afundaram mais.

- Presta muita atenção, vadia falida: não vai pensando que porque a Yara não tá, pode ciscar onde não deve! Muito cuidado onde você entra, tu não sabe com quem tá comprando briga. - colocou nossos narizes ponta a ponta. - Tu nunca vai ter o brilho que ela tem, pode ir tirando o cavalinho da chuva, sua vagabunda de quinta! Faço questão de contar que tu entrou na igreja atrás dele pra ela rasgar essa tua cara imunda! Você chegou agora; minha amiga está há anos, e sabe muito bem como se livrar de aspirante. - as unhas penetraram mais fundo.

Eu sibilei de dor.

- Tu não é a primeira nem a última, mas vamos ver se sustenta. Ele falou que ela foi embora, né? - seus lábios se repuxaram sarcasticamente.

Foi quando compreendi o tipo de gente que eu provoquei.

- Ela não foi e nem vai! Logo, logo tá de volta. Vê se fica esperta, sonsa. - me soltou com um empurrão. Seus olhos subiram e  desceram por mim, desdenhosos. - Espero que tenha entendido o recado, cantorazinha de merda!

Não movi um dedo até ela estar longe.

O que foi isso?

Assim que ela abriu a porta, outras mulheres entraram, reclamando da demora, e me olhando acusatoriamente. Uma delas era a Fabiana, que havia
trocado o vestido por uma calça e uma camisa de manga xadrez preta e branca.

- Ah, você está ai! - me tomou pelo pulso.

Me levou pra um canto, contando algumas coisas que eu nem ouvia direito. Estava área.

- E também peguei minha câmera. Vamos tirar fotos? - ela se tocou que eu estava congelada - Que é, Lia?

— Vamos sair daqui. — eu a puxei.

Sentamos em tocos junto a fogueira.
Mostrei meu braço, contando do encontro clandestino na igreja, da história do Jc e da ameaça que acabei de sofrer.

- Vi aquela vaca saindo, era a Micaela, a cadelinha interresseira que segue a Yara a troco de esmola. Vou atrás dessa quenga! Ela não vai te xoxar e sair cantando vitória, não!

Levantamos as duas.

- Fabi, você sabe o problema que podemos arranjar se dermos vazão a isso? Ou melhor, eu já arranjei um baita problemão, não quero que respingue em você! Faz favor de sentar e se acalmar! Ir atrás dela não vai ajudar em nada! - apontei pro toco, a voz firme. - Agora, Fabiana. Ninguém vai ir atrás de ninguém. Você nem é de brigas.

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