Como nos velhos tempos

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"A gente coloca cartas no correio com certa inveja das viagens que farão." - Eno Teodoro Wanke

No dia seguinte, dei adeus à minha vida quase feliz.
Meus pais me levaram de carro até a rodoviária, vinte minutos de angústia silenciosa e torturante. Sara foi junto para se despedir e enquanto aguardávamos o meu ônibus sair, eu podia senti-la tensa ao meu lado, avaliando se seria uma boa idéia fazer uma cena, e, como uma garotinha mimada de tres anos de idade, gritar e se descabelar, chorar e implorar para que meus pais não me obrigassem a partir. Seria nosso último recurso para tentar fazê-los mudar de ideia.
Sem chance.
Eles já tinham tomado a decisão de me deportar do estado, e nada os faria voltar atrás.
E também era óbvio que Sara não teria coragem para aprontar um escândalo. Não chamar a atenção era uma das coisas que havíamos treinado a nossa vida toda, e éramos boas nisso, boas em sermos invisíveis, em ficarmos na nossa.
- Sentirei sua falta! - dissemos, Sara e eu, entre um abraço apertado, minutos antes do meu embarque.
Meu pai me deu um aperto de mão meio tenso, e minha mãe, um breve beijo na bochecha esquerda, marcando meu rosto com seu batom cereja-opaco.
Segurei firme, mas assim que me acomodei na poltrona macia dentro do ônibus, minhas lágrimas represadas encontraram a saída.
Mais ou menos quatro horas de viagem, começando pela rodovia Floriano Rodrigues Pinheiro; mais ou menos trezentos e cinquenta quilômetros olhando pela janela; mais ou menos uma mudança de mil seiscentos e vinte e oito metros de altitude.
É, acho que até aí eu podia aguentar.
Não era a primeira vez que eu ia ao Rio de Janeiro. Nas últimas férias de verão meus pais me deram passagens, de ida e volta, para visitar minha irmã mais velha, Helena, e curtir um pouco a praia.
Sempre fui apaixonada pelo clima da "Cidade Maravilhosa". Calor, mar, praias deslumbrantes... mas essa é daquelas paixões que se curte pela TV, ou pelo menos até acabar as férias. Esse clima tropical e totalmente descontraído não é pra mim. Não combino muito com "shortinhos e blusinhas", biquini e saída de banho. Faço mais o gênero "quanto mais roupa melhor". Não é pudor, é que o clima na montanha não é muito favorável para roupas leves. Usar blusa de alças finas para ir ao colégio, quando se está fazendo seis graus, não é uma boa ideia; então me acostumei a cobrir cada pedacinho do meu corpo. Agora isso ia ter que mudar, porque dessa vez minha passagem era apenas de ida.
Meu maior medo naquele momento era de não sobreviver a intensidade do Rio, de não me adaptar, não me encaixar, medo de não conseguir ser feliz.
Fechei os olhos molhados, tentando esquecer que não tinha mais volta. Reencontrar minha irmã era a única coisa realmente boa nessa história toda.
Lena mora em um apartamento no bairro do Botafogo, a parte menos nobre do bairro, diga-se de passagem. Trabalha como enfermeira no hospital Casa de Saúde São José, e nos fins de semana é voluntaria em um asilo; tem trinta e dois anos, solteira e independente. Saiu de Campos quando terminou a faculdade e foi acompanhar tia Judite, irmã do papai, em sua fuga da depressão pós-viuvez. As duas eram muito apegadas uma a outra, - digo eram porque, há pouco mais de dois anos, tia Judite faleceu.
Minha irmã disse que me esperaria na plataforma de desembarque da rodoviária, mas quando desci do ônibus não havia ninguém esperando por mim ali.
Sorte nunca foi algo de que eu pudesse me gabar, então quando abri minha mochila para pegar meu celular e ligar para Lena questionando seu atraso, não me surpreendi ao constatar que ele não estava ali. Imediatamente eu o vi em cima da minha cama, exatamente aonde eu o havia esquecido aquela manhã.
"Que ótimo".
Tentei manter a calma - como se isso fosse possível.
"Ela deve estar presa no trânsito", consolei a mim mesma inutilmente, enquanto esperava imóvel, sentada em uma de minhas malas.
O fluxo de pessoas andando pelo saguão chegava a ser atordoante.
Uma hora e meia se passou e Lena ainda não havia aparecido.
Pronto, era oficial: minha irmã não chegaria, ela havia me esquecido.
Tentando ao máximo nao parecer uma interiorana apavorada, coloquei minha mochila nas costas, peguei minhas duas malas de rodinhas e comecei a arrastá-las desajeitadamente, sem um rumo definido. Andei por alguns minutos, e enfim encontrei o que procurava: um telefone público. Liguei a cobrar para o celular de Lena, que, ainda bem, eu sabia de cor. Mas, como eu disse, sorte nunca foi muito o meu forte, então todas ligações caíram na caixa de mensagens.
"Perfeito".
Eu tinha o endereço dela, talvez não fosse perigoso tomar um táxi até lá.
"Isso". Era a coisa certa a fazer - ou não.
Do lado de fora do terminal rodoviário pude sentir o vento fresco tocar meu rosto, dando-me as boas vindas. O ar era um pouco diferente do que eu estava acostumada, era quase tangível, quase visível a minha volta, e tinha um cheiro peculiar de sal e combustível.
Consegui pegar um táxi, sem grande demora, e pedi ao motorista, um chileno de meia idade com um sotaque carioca carregado, que me levasse ao endereço que eu tinha anotado num pedaço de papel, e guardado no bolso da jaqueta.
O trajeto era bem curto, uns quinze minutos, o que era uma alívio, porque eu não aguentava mais ficar sentada. Não fiz questão de olhar pela janela, não sentia muito interesse em apreciar a paisagem local, afinal, teria muito tempo para fazer isso dalí para frente.
Depois que o táxi virou à esquerda, saindo da avenida principal, nao demorou muito até pararmos em frente ao antigo prédio residencial de dez andares, todo pintado de azul e branco, e com uma enorme porta de vidro na entrada, que nao combinava em nada com a arquitetura quase clássica da construção.
O chileno-carioca ajudou-me a descarregar as malas e acho que quando me pasou o valor da corrida deixou que seus instintos tupiniquins falassem mais alto. O valor era quase um assalto, mas paguei sem pestanejar, não criaria um caso por uma corrida de táxi superfaturada.
A porta da frente do predia estava trancada, apertei o interfone, apartamento 21, e esperei ansiosa por uma resposta que nao veio, mesmo depois de muita insistência. Lena não estava em casa, era óbvio.
"Que droga!"
Só me restava esperar. Acomodei-me na soleira do prédio e fiquei observando os carros e pessoas passarem na minha frente em um número muito mair do que eu estava acostumada.
Fiquei alguns minutos ali, sentada sobre uma das malas, pensando em apenas duas coisas: comer e tomar um banho.
O sol estava a pino e o cansaço pesava em meu corpo. Um táxi parou na frente do prédio, do outro lado da rua. Um garoto desceu e caminhou até mim.
- Heloísi? Heloísi Silva? - perguntou o garoto ao se aproximar - Você é a Ísi... não é?
- Eu... Te conheço? - perguntei, piscando os olhos surpresa.
Na minha frente, tapando parcialmente o sol, estava um garoto mais ou menos da minha idade, uns dezessete anos. Ele trajava calça jeans, all star e uma camiseta dos Simpson's, com toda a família amarela fazendo careta e posando para uma selfie - reprimi um sorriso.
Eu havia conhecido algumas, poucas, pessoas, da última vez em que estivera aqui, mas não me lembrava de ter conhecido este garoto.
- Bom, na verdade você não me conhece, mas... eu te conheço! - ele disse, um tanto incerto.
- Você me conhece? - eu não entendia como ele podia me conhecer. E como sabia o meu nome?
- Sim, quero dizer, não te te conheço oficialmente... - ele hesitou - Você é irmã da Helena, não é?
- Sou, mas... Como sabe? - perguntei, quase eufórica, colocando-me rapidamente em pé, aliás rápido demais. Uma vertigem me atacou de surpresa, minha visão escureceu e tive que escorar na parede e no ombro do garoto para nao me esborrachar no chão.
- Você está bem? - perguntou ele, visivelmente preocupado.
Eu não queria bancar a "super frágil" na frente de um desconhecido.
- Sim... estou bem! - menti, puxando o ar com força para dentro dos pulmões - Foi apenas uma vertigem, acho que levantei rápido demais.
O garoto olhou-me com certa dúvida, depois sorriu meio de lado.
- Sua irmã me falou muito sobre você, e, caramba, você é exatamente como ela disse que seria. Realmente tenho a impressão de que te conheço.
Eu o encarei por um instante, procurando por algum vestígio de qualquer coisa que pudesse ativar meu alerta de perigo. Mas não encontrei nada. Aquele garoto parecia legal.
- Posso saber seu nome? - perguntei.
- Ah, claro, sou o Marcos Augusto, moro no 23 com a minha irmã e minha sobrinha, acho que seremos vizinhos. - anunciou entusiasmado.
- Mora no 23? Você é irmão da Suzana? - eu me lembrava da Suzana, a maluca da Suzana. Uma psicóloga extremamente competente e incrivelmente atrapalhada. Lembrava-me também da filhinha dela, Jéssica, a garotinha mais fofa do mundo. Ela devia ter quase três anos agora.
- Sim, sou irmão da Suzana! - nós dois rimos com a ênfase dele. - Mudei-me para cá no último semestre - explicou - Posso perguntar o que estava fazendo sentada aí? - ele quis saber, olhando na direção das minhas malas.
Suspirei.
- Era pra minha irmã ter me buscado na rodoviária, mas acho que ela esqueceu, então tomei um táxi...
Ele me interrompeu.
- Não, ela não esqueceu, é que não conseguiu dispensa do hospital, então me pediu para te buscar e...
Foi minha vez de interrompê-lo.
- E por que você não me buscou? - minha voz era de acusação.
- Eu tentei... Mas você não chegava nunca...
- Tá brincando? Esperei por uma hora e meia naquela rodoviária.
O garoto sorriu de um jeito meio debochado. Parecia achar graça da situação, e isso me irritou um pouquinho, mas antes que eu pudesse começar a pensar se devia reclamar ou não, ele me lançou um olharzinho meigo, quase doce, e começou a se justificar.
- Acho que a gente se desencontrou. Aquela rodoviária às vezes é um caos, depois do carnaval então, piora muito. Tem muita gente viajando, indo e vindo, voltando pra casa...
Eu devia estar irritada com ele. Aliás, eu queria estar irritada com ele, só de lembrar no pavor que senti enquanto via os ponteiros do relógio da rodoviária andarem apressados. Mas não, nao consegui me irritar com aquele garoto, nem mesmo um pouquinho.
- Me desculpe, eu realmente sinto muito por ter deixado você chegar até aqui sozinha! - ele parecia sincero - Sua irmã vai me matar!
- Fique tranquilo, ela não fará nada, afinal, eu sobrevivi, não é? - sorri para ele, mas ele não sorriu de volta. O garoto estreitou os olhos preocupadamente, olhando por cima dos meus ombros.
- É... você sobreviveu. Mas nao sei até quando eu vou sobreviver. - murmurou - Veja quem acaba de chegar! - disse, apontando para o Fiat preto que acabava de estacionar junto ao meio fio.
Lena desceu do carro e esmagou-me num abraço apertado, até que nenhum ar entrasse em meus pulmões.
Também peguei pesado em meu aperto.
- Como você cresceu, Ísi! - exclamou ela, afastando-se alguns passos para poder me olhar melhor.
- E você não mudou quase nada! - respondi. Lena ainda era a mesma do ultimo verão, ou quase a mesma. Os cabelos estavam mais curtos, mas ainda tinham o mesmo tom castanho-mel de sempre. Os olhos amendoados, eram os olhos de minha mãe, e os meus também, de certa forma. Impressionante como nós três éramos parecidas. Claro que Lena era a obra prima acaba, minha mãe o modelo original, e eu o rascunho de fabricação.
- E então, deu tudo certo na viagem? - perguntou minha irmã, animada.
- Deu sim e... Marcos foi muito gentil aparecendo para me buscar! - eu disse, tentando soar convincente, não queria que minha irmã brigasse com o garoto por minha causa.
Marcos encarou-me espantado, depois ligeiramente agradecido.
Minha irmã começou a se desculpar por não ter me buscar pessoalmente, e eu nem tentei interromper seu discurso, seria impossível. Mas no meio daquela cachoeira de palavras ela se interrompeu, quando seus olhos finalmente perceberam minhas malas.
- O que ainda estão fazendo aqui fora? - perguntou desconfiada.
- É que.... meu ônibus atrasou... então acabamos de chegar! - justifiquei. Lena me encarou por um instante. Eu era péssima mentirosa, mas ela deixou passar essa.
- Vamos entrar! - disse, pegando uma de minhas malas. Marcos pegou a outra, a mais pesada, e eu subi com a mochila.
Fomos pelas escadas até o quinto andar. O elevador estava em manutenção. Marcos despediu-se rapidamente quando chegamos ao número vinte e um.
- Obrigado, você me salvou! - disse baixinho, com um sorriso largo estampado no rosto. Sara gostaria dele se o conhecesse. Ele tinha os olhos castanhos-escuro levemente puxados nas laterais exteriores, o tipo de olhos que Sara adorava.
- Por nada! - sorri de volta e entrei.
O apartamento de Lena era muito aconchegante. No corredor estreito ficavam os dois quartos, o banheiro, e um pequeno cômodo que Lena havia reservado especialmente para mim.
- Me livrei de toda tralha que estava aqui, mas ainda assim é um pouco apertado. - resmungou ela, enquanto eu analisava o ambiente, o antigo quarto de bagunça.
- É... perfeito. Obrigada!
- Comprei umas telas, pincéis e uns tubos de tinta pra você, sei o quanto gosta de pintar e quero que sinta-se à vontade para fazer isso aqui, tudo bem? - ela disse. Assenti com a cabeça, sem saber o que dizer. Pintar sempre foi minha grande paixão secreta.
Lena respirou fundo, as mãos apoiadas na cintura.
- Então, este será seu novo ateliê, - anunciou satisfeita - agora venha ver seu novo quarto.
Eu a segui quase por obrigação, porque o que eu queria mesmo era testar uma daquelas telas.
- O que achou? - perguntou Lena, quando parei na porta do meu quarto.
As paredes estavam pintadas de lilás, como em meu antigo quarto em Campos, - uma tentativa de me fazer sentir em casa -. Os móveis eram os mesmos do último verão.
Algo perto da cama chamou minha atenção de imediato. Era vermelha e preta com fitinhas coloridas amarradas na parte da frente.
- De quem é aquela... bicicleta? - perguntei, enquanto encarava o veículo, meio cautelosa.
- De quem acha que é? É claro que é sua! - anunciou Lena, toda animada. - É linda, não é? - perguntou, esperando uma reação igual da minha parte.
Analisei a bicicleta por um instante, e até que era bem bonita. Mas, sinceramente, não dava pra comparar com Sol.
- Obrigada! - agradeci.
- Você pode usá-la para ir ao colégio! - sugeriu ela, trazendo à tona a lembrança de que o ano letivo começaria na manhã seguinte. Será que algum dia eu perdoaria meus pais pelo o que estavam fazendo comigo? Tentei não pensar muito nisso.
- Dê uma olhada na cestinha! - incitou Lena, ajudando em minha distração.
Encarei-a apreensiva, mas resolvi obedecer. Havia na cestinha da bicicleta uma pequena caixa embrulhada em papel crepom vernelho.
Suspirei.
- Lena, mais um presente?
Ela revirou os olhos pra mim.
- Abra logo!
Rasguei o embrulho com cuidado e não fui capaz de esconder minha surpresa. Encarei minha irmã sem saber o que dizer.
- Não me olhe assim, só comprei porque estava com uma promoção incrível de ligações ilimitadas para qualquer número cadastrado! - defendeu-se ela, antes que eu pudesse fazer qualquer crítica - Ah, e adivinhe... Cadastrei o meu número, você vai poder me ligar quando e quantas vezes quiser!
Caramba! Parecia até que ela havia adivinhado que eu estava sem meu celular.
- Legal! - foi só o que consegui dizer, depois emendei um "obrigada" meio aliviado, afinal não seria preciso pedir para que meus enviassem o antigo aparelho pelo Sedex. Eu não queria ter que pediar nada para eles.
Minha irmã me ajudou a desfazer as malas e organizar minhas coisas no pequeno guarda-roupa de madeira. Eu havia levado alguns livros comigo, só os meus preferidos, e foi difícil encontrar um espaço para eles.
No pequeno mural de feltro ao lado da janela, preguei quatro fotos, as únicas que eu havia levado: minha mãe em seu canteiro de flores nos fundos de casa; meu pai orgulhoso, vestindo a camisa do Corinthians; Sara de braços abertos em frente a Pedra do Baú; e Sara e eu, montadas em Estrela e Sol no desfile de 7 de Setembro do ano passado.
Quando terminamos, fui para o banho, enquanto Lena foi preparar algo para comermos. Fiquei meio receosa de que ela fosse mesmo cozinhar, pois em minha família somos o que se pode chamar de "totalmente não propensos à arte culinária", mas quando entrei na cozinha o cheiro que me recebeu contrariava qualquer receio da minha parte.
- Não acredito que você aprendeu a cozinhar! - comentei, quase babando. Da última vez em que estive aqui saíamos para fazer todas as refeições na rua, exceto quanto Lena fazia pedidos pelo telefone.
- Era isso, ou morrer de fome!
- Ou comida congelada! - sugeri.
- Aquilo que eles congelam pode ser qualquer coisa, menos comida.
Nós duas rimos.
Enquanto me servia uma porção de seu espaguete ao molho de espinafre, Lena começou a puxar papo sobre um assunto delicado.
- Como estão Doralice e Jorge? - ela quis saber.
Respirei fundo.
- Mamãe e papai estão... bem! - engasguei com as palavras improváveis - Tá legal, talvez bem não seja a melhor palavra. - corrigi, remexendo o macarrão com garfo - Você conhece nossos pais, são duas crianças malcriadas.
Lena riu com o comentário, mas não consegui achar graça.
Continuei.
- Nos últimos tempos aquela casa se transformou numa veradeira zona de guerra, a sala de espera do inferno... Nem sei como eles conseguem fazer isso! - declarei, tentando evitar a lembrança das brigas constantes entre meus pais. - Acho que a única coisa que ainda os mantêm ligados é o chalé, que, infelizmente, recebe mais turistas a cada temporada.
Meus pais mantinham um chalé muito charmoso, em Campos, e ultimamente eu tinha a secreta esperança de que se o chalé fracassasse, eles teriam que vender e desfazer a sociedade, deixando o outro em paz. Mas a droga do chalé só sabia prosperar a cada dia.
- Eles fizeram bem em te mandar para o Rio, posso imaginar o ambiente hostil que criaram por lá. - minha irma me sorriu afetuosa, enquanto eu tentava não chorar de raiva.
- Por que eles não podiam se separar como todos os outros casais? - perguntei, secando os olhos com as costas da mão.
- Porque então não seriam "Doralice e Jorge ", não é? - zombou. E ela tinha razão, meus pais eram tão complicados. - Vai ser muito bom você passar um tempo comigo.
Lena afagou meu rosto por cima da mesa. Ela sabia o quanto tudo aquilo me perturbava.
Meus pais estavam se separando e, diferentemente de outros pais que brigam pela guarda dos filhos durante o divórcio, os meus, brigavam para não ter a minha guarda. Nenhum dos dois queria a tutela primaria da filha menor de idade. Por isso fui deportada. Porque eles não me queriam.
- Temos carambola na geladeira! - disse Lena, sempre tentando me distrair dos pensamentos ruins.
Carambola é minha fruta favorita, porque, quando se corta em fatias, ela vira estrela.
Após o jantar, já em meu novo quarto, fui para a escrivaninha minúscula, munida de caneta e uma folha de papel. Coloquei a data e comecei a escrever.

Rio de Janeiro.

Querida Sara, não sabe o quanto desejo, desesperadamente, poder voltar para casa.
A viagem até que foi tranquila, cansativa, mas tudo bem. Lena está feliz por me ter morando com ela. Acredita que me comprou uma bicicleta? É, eu sei, uma bicicleta.
Ah, já fiz meu primeiro "amigo". Marcos Augusto, ele é nosso vizinho. Tenho certeza de que você iria gostar muito dele se o conhecesse.
Bom, as aulas começam amanhã, então já deve imaginar como estou me sentindo, não é? Epero que dê tudo certo. Para nós duas.
E já que toquei no assunto do colégio... Queria te pediar para não ficar com medo por eu não estar lá com você, para não ficar apavorada a ponto de fazer com que seu estômago queira fugir de você. Queria te pediar para sorrir e tentar ser simpática com algumas pessoas, para deixar o cabelo solto, não usar a mochila do ano passado e prestar mais atenção durante as aulas de ciências.
Mas eu te conheço, por isso não vou pedir nada disso. Porque sei que quando você passar pelos portões da escola, você estará apavorada. Sei que nao vai sorrir nem tentar ser simpática com ninguém por um bom tempo; seu cabelo estará preso, aquela mochila horrorosa preto-lodo estará curvando seu ombro direito, e nas aulas de ciências você ficará revisando a matéria do cursinho de inglês...
Ah amiga, sei que não será fácil, e fico me perguntando: será que vamos conseguir?

Beijos, te amo!

Obs: vê se não entope meu cavalo com maçãs, ele nao estômago de avestruz como a sua égua.
Obs 2: por favor, cuide dos meus pais para mim. Chame a polícia se for preciso, mas não deixe que eles se matem.
Ísi.

Dobrei a folha, coloquei em um envelope e enderecei. Eu colocaria no correio amanhã.
Sara e eu havíamos combinado de nos corresponder por cartas. Sara detesta internet. Diz que é a forma mais desumana de se obter notícias de alguém - coisas de Sara. E ela não tem celular. Mais uma de suas peculiaridades. Então resolvemos que iríamos nos escrever. Assim, no dia em que nos reencontrássemos, poderíamos ler todas as cartas juntas, e seria muito divertido.
Fui para a sala e liguei o computador. Minha caixa de e-mail estava vazia. Nenhuma mensagem de uma mãe ou um pai interessados em saber se a filha havia sobrevivido à viagem.

Mãe, pai..
Meu ônibus não capotou na estrada, infelizmente. Então, ainda estou viva.
Ísi.

Escrevi a breve mensagem e enviei para o endereço de e-mail do chalé, era a única maneira deles lerem.
Configurei algumas funções básicas do celular e então resolvi que ja era hora de tentar dormir.
Rolei na cama, por pelo menos uma hora, sem conseguir relaxar.
Então levantei, peguei meu travesseiro, e, com minha maior cara de criança com medo de dormir sozinha, fui para o quarto da minha irmã. Abri a porta com cuidado para não acordá-la, e esgueirei-me pelo cômodo escuro até a cama dela. Pensei que, com certeza, estava fazendo um papel ridículo, mas não me importei muito com isso.
- Você demorou! - murmurou uma voz sonolenta, assim que me deitei.
- Você estava... acordada? - perguntei quase envergonhada.
- A vida nova não está coneçando apenas para você, Ísi, também estou ansiosa. E dormir quando se está ansiosa não é uma tarefa fácil.
- Você tem razão...
- Não precisava ter demorado tanto.
- Eu estava tentando não ser muito infantil.
- Não funcionou.
- Eu sei! - admiti.
- Pode dormir comigo quando quiser, como nos velhos tempos, tudo bem?
Segurei a mão dela e concordei com um sorriso complacente nos lábios.
- E será que você pode cantar para mim? Como nos velhos tempos? - pedi.
Lena sorriu e começou a murmurar a canção que sempre cantava quando eu era pequena.
- "...Nesta rua, nesta rua tem um bosque. Que se chama, que se chama solidão. Dentro dele, dentro dele mora um anjo. Que roubou, que roubou meu coração..."
Agora sim, seria bem mais fácil dormir.

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