4. O Melhor Perfume do Mundo (I parte)

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Um rosto de anjo vinha em nossa direção.
E eu não conseguia nem piscar.
- Droga! - sussurrou Beatriz, um tanto melancólica, quando "o garoto do gramado" passou por nós, para sentar-se em sua carteira, duas fileiras depois da nossa.
Ele nem ao menos me olhou, e, isso... doeu realmente, de uma forma estranha, como uma pontada aguda no peito.
Beatriz ainda estava paralisada, devia ser a reação natural de qualquer pessoa quando olhava para ele.
Tentei fingir que não havia percebido o desconcerto dela, desejando, que ela também não percebesse o meu.
- O que foi? - perguntei, forçando a naturalidade.
Ela fechou os olhos e, com a voz ainda mais melancólica que antes, questionou minha percepção.
- Não está sentindo? - sussurrou.
É claro que eu estava sentindo.
- Sentindo o quê? - indaguei, bancando a idiota.
- Respire fundo! - sugeriu ela, como uma professora de ioga.
Inspirei o ar até encher os pulmões, e quando expirei Beatriz me encarava com uma expressão quase maníaca no rosto.
- É um cheiro maravilhoso, não é? - sussurrou, como se compartilhasse seu maior segredo.
Era realmente incrível como o cheiro daquele garoto havia dominado o ar completamente, e era um cheiro tão bom. Quase engasguei ao concordar com ela.
- É... é realmente um cheiro muito bom!
- Bom? - ela riu ironicamente - Você é algum tipo de retardada, ou só está tentando fazer uma piadinha? - ela parecia realmente indignada comigo.
- Ãh... - o que eu deveria dizer?
- Não é bom Heloísi, é... maravilhoso, é simplesmente o-melhor-perfume-do-mundo. - sua voz tinha o tom de quem proclama uma verdade universal.
E eu não podia deixar de admitir que ela tinha toda razão. Era um cheiro deliciosamente tentador, um cheiro que eu podia ficar inalando por dias sem me sentir enjoada.
Havia uma mistura de florais, com um leve toque cítrico, lavanda, folha de laranjeira, jasmim, essências amadeiradas, e muitos outros aromas não identificáveis, tudo junto, formando um novo cheiro maravilhoso e único.
Era como sentir o cheiro da chuva caindo sobre a terra. Inconfundível.
Ah, um cheiro que passaria a ser o mais incrível entre todos os outros cheiros da minha vida.
- Quem é ele? - perguntei, sem conseguir me conter.
- Robert Castro! - sussurrou ela, como se pronunciasse algum tipo de nome sagrado e proibido.
Meu sangue fervilhou em minhas veias.
- E você... gosta dele? - não pude evitar a pergunta.
- Deu pra perceber, foi? - entregou-se ela, para minha total decepção.
Comecei a sentir o estômago enjoado.
- É, o modo como você falou do cheiro dele, acho que não deixou muitas dúvidas! - comentei, tentando não vomitar.
Ela deu de ombros.
- O que eu posso fazer? Ele é simplesmente a única razão que tenho para viver.
Caramba, ela era bem intensa.
Novamente não me contive.
- E vocês dois... quero dizer... - dei de ombros sugestivamente, e me martirizei por dentro, afinal, aquilo não era da minha conta
Beatriz sorriu.
Não era bem um sorriso. Era mais uma expressão de angústia reprimida.
- Você ainda não conhece Robert Castro. - advertiu-me, como se eu tivesse feito uma pergunta absurda, que qualquer outra pessoa saberia a resposta. - Ele é impenetrável! - declarou, com um prazer dolorido nos olhos.
- Como assim... impenetrável?
A garota suspirou.
- Robert não gosta muito de se misturar, entende? Ele é bastante... reservado. Não costuma falar com ninguém.
- Tipo, ele não tem amigos? - minha curiosidade incontrolável ganhava força.
- Amigos? Não, não que eu saiba. - garantiu Beatriz, desviando os olhos para os próprios pés.
Imediatamente pensei em Sara, em sua provável solidão, a falta de ter alguém com quem conversar. Eu estava me saindo bem, tinha conhecido Marcos, e agora esta garota estava conversando comigo. Mas e Sara? Será que tinha encontrado alguém? Será que alguma garota havia sentado ao seu lado e tentado puxar só para ser simpática?
Eu esperava muito que sim.
- Você não acreditaria no quanto Robert Castro é super na dele! - comentou a garota, diante do meu silêncio - Bom, mas dizem que ele é assim por causa do que aconteceu com seus pais. - cochichou, cheia de vontade de contar a história.
Esperei até que ela prosseguisse, não queria demonstrar meu interesse.
- Ele e a irmã caçula, se mudaram de Santa Catarina há dois anos, e moram com os tios desde então... - Beatriz sentou em sua cadeira, abriu sua mochila e começou a retirar cadernos e canetas, enquanto eu a encarava esperando pelo restante dos fatos.
Ela abriu um dos cadernos, e começou a rabiscar lentamente a data no alto da página em branco, totalmente em silêncio. Me torturando sem saber.
- Tá, mas... O que aconteceu com os pais dele? - perguntei, quase desesperada, eu não dormiria à noite se não fizesse a pergunta.
A garota riu e se inclinou para mim, seus olhos brilhavam intensamente, mostrando o quanto ela estava feliz por eu ter me interessado pela história.
- Ah é, em que parte parei?
- Eles se mudaram para cá, e agora moram com os tios. - recordei à ela, mesmo desconfiando de que não havia realmente se esquecido.
- Certo, os dois sairam de Santa Catarina depois que a mãe cometeu suicídio, ao descobrir que o marido havia fugido com sua secretária de vinte e dois anos - ela abanou a cabeça com forçada indignação - Bom, na verdade, a mãe cometeu suicídio depois que o marido foi assassinado pela secretária de vinte e dois anos com quem fugira.
Beatriz sondou-me curiosa, enquanto fazia o relato bizarro, digno de roteiro hollywoodiano. Tentei abrandar minha surpresa, enquanto ela prosseguia.
- Clarisse, a irmã da falecida, ao que parece, era a única parente que os irmãos tinham. Então... aqui está ele!
Nós duas olhamos para o garoto, que mantinha os olhos fixos em seu livro, totalmente alheio a qualquer conversa que o envolvesse.
Ele parecia tão concentrado, tão interessado no que lia. E, nossa, era tão... bonito, que dava vontade de colocá-lo em um vidro, levá-lo pra casa e passar o resto da vida debruçada sobre ele, olhando-o sem parar.
"Para sempre."
- Ele é repetente, sabia? - cochichou Beatriz, quase me fazendo pular na cadeira.
- Repetente? - busquei o rosto dela, enquanto repetia a palavra.
- Sim, ele tem dezenove, - ela mordeu o lábio inferior - Acho isso tão sexy. Já era pra ele ter terminado o médio, mas depois do que aconteceu, abandonou a escola por um tempo. Parece que, antes de encontrarem a tia, os irmãos passaram uma temporada num abrigo?
- Abrigo?
- Pois é! Dizem que Robert ainda é um meio traumatizado, também pudera... viver num abrigo deve ser punk. E eu já te falei que ele viu a mãe apertar o gatilho e estourar os próprios miolos? Cara, não deve ser algo nada fácil de se ver, e também não deve ser nada fácil perder os pais. Acho que, sei lá, entendo a atitude dele. Eu também não ia querer falar com ninguém pelo resto da minha vida. Nem sei como ele conseguiu voltar a frequentar uma escola.
Olhei para Robert Castro uma vez mais. Aquele rosto. Aqueles olhos. Eu jamais poderia imaginar a dor que se escondia alí.
Pensei em meus pais.
Irritantes, infantis, meio materialistas, meio egoístas. Sempre "depois a gente vê" e "mais tarde a gente conversa".
Apesar de quase nunca os ter, eu ficava aliviada por tê-los vivos. Não saberia o que fazer se perdesse um deles. Pior ainda... se perdesse os dois.
- Se ele ao menos abrisse uma fresta... - continuou Beatriz, agora ela também olhava para Robert Castro lá no fundo da sala - Se ele ao menos mostrasse que existe uma forma de penetrar em seu mundo... tenho certeza de que eu poderia ajudá-lo, poderia fazê-lo feliz. Mas não, ele nem se importa em saber que existem garotas que dariam a própria vida em troca de um único olhar.
Achei meio extravagante o tipo de declaração que eu estava ouvindo. Talvez nem tanto a declaração em sim, mas sim o desespero quase exagerado na voz da garota que declarava.
Essa Beatriz parecia um pouco exagerada, a começar pelo número de pulseiras que usava.
- Está vendo aquela garota alí? - sussurrou ela, indicando, com um gesto de cabeça, o lado esquerdo da sala. - Aquela com blusa vermelha e cabelo loiro falso... É Amanda Siqueira. - olhei para a direção indicada por Beatriz e, lá estava ela, uma das imitações da boneca Barbie que passara por mim e Marcos no refeitório.
Amanda era sem dúvida a líder do bando, e sem dúvida a mais bonita também. A garota me flagrou olhando para ela, e me lançou um olhar assombroso, o nariz empinado, como se estivesse com nojo de mim.
Desviei os olhos imediatamente, constrangida.
- Ela é apaixonada por Robert! - informou Beatriz, como quem condena alguém por homicídio, e seus olhos tinham alguma coisa parecida com o ódio.
Amanda era apaixonada por Robert Castro? Mais uma? Talvez fosse mais fácil encontrar uma garota que não fosse apaixonada por ele.
Beatriz continuou.
- O pai de Amanda é gerente na revendedora de automóveis do tio de Robert, e por isso ela acha que tem alguma chance. Coitada, chego a sentir pena de suas esperanças tolas.
Engoli em seco.
Como ela podia dizer que sentia pena de Amanda Siqueira, se a garota era, sem dúvida, a mais bonita da escola? Longos cabelos dourados, extremamente hidratados e com ondulações cinematográficas, caiam-lhe pelos ombros, os olhos, verde-esmeralda, eram envoltos em fileiras espessas de longos cílios, que eram aumentados por duas camadas rímel, os lábios eram cheios e rosados, e as bochechas salientes lhe davam um ar de boneca. Era um rosto quase infantil, a não ser pelo olhar, que era sensual demais para ser de uma criança.
- Ela é bem bonita! - comentei automaticamente.
Beatriz encarou-me incrédula, como se eu tivesse acado de cuspir em seu rosto.
- Qualquer uma fica bonita com aquele tom de luzes no cabelo. - advertiu-me, ríspida. - E você acha que só porque ela tem um rostinho bonito Robert Castro se interessaria? Acorda...
- Olá turma, me desculpem pelo atraso! - a professora entrou na sala, e Beatriz teve que se calar.
A mulher se apresentou, e imediatamente simpatizei-me com ela, não apenas porque lecionaria uma das minhas matérias favoritas, Literatura Universal, mas principalmente porque ela também vinha do interior de São Paulo. Celina, este era o nome dela, acabara de ser transferida de um colégio em Taubaté, cidade muito próxima a Campos do Jordão.
Então eu não seria a única caipira do colégio? Que alegria.
Celina parecia bastante jovem para uma professora do ensino médio, devia ter no máximo vinte e cinco anos de idade, e também parecia um tanto sensual demais para uma professora. Seu corpo era bonito, tudo devidamente bem distribuído, seu andar era elegante, e enquanto falava, ela gesticulava com as mãos e caminhava com elegância pela classe, como se estivesse dando as instruções dos passos de um tango. Isso deixou a grande maioria dos garotos bastante interessada em aprender um pouco mais sobre Literatura.
Bom, de um modo geral, o primeiro dia de aula foi bem tranqüilo.
Na saída, enquanto seguia com Marcos até nossas bicicletas, pelo estacionamento apinhado de alunos, avistei Robert Castro, alguns metros adiante, encostado como um semi deus, na porta de um Troller preto, e... ele estava novamente me encarando, como havia feito na biblioteca.
"Meu Deus!"
Respirei fundo e tentei manter o ritmo da caminhada. Será que Marcos acharia muito estranho se, de repente, eu começasse a correr?
Esforcei-me para sustentar o olhar de pedra daquele garoto. Encarei-o por uns cinco segundos - eu era fraca demais -, e havia tantas coisas naqueles olhos: raiva, prazer, frustração, desejo...
Desviei os olhos, virando a cabeça para o outro lado e bufando alto, sem perceber.
- Algum problema? - perguntou Marcos.
- Ah... não. Não é nada!
Meus olhos, desobedientes, voaram na direção do jipe preto mais uma vez.
Marcos acompanhou discretamente meu olhar e seu rosto ficou quase severo.
- Tem certeza?
Supirei.
- Tenho! - garanti - É só que... não gosto da ideia de que estas pessoas fiquem me olhando como se eu fosse um experimento científico fracassado. É bem irritante!
Marcos franziu o cenho.
- Quem estava te olhando assim?
- Todo mundo aqui me olha assim! - reclamei.
Ele riu.
- Eu não te olho assim. Para mim, você é como um experimento científico que deu muito certo! - garantiu, abrindo um sorriso enorme. Eu também sorri, enquanto montava em minha bike e tentava ignorar aquele garoto lindo lá do outro lado.
No caminho de volta, Marcos fez a gentileza de me levar até o correio.
- Serei seu cicerone! - anunciou, enquanto pedalávamos pelas ruas movimentadas.
Estávamos quase no fim de fevereiro, verão total no Rio de Janeiro, mais do que em qualquer outra cidade do país. O calor já beirava o grau "insuportável", mas felizmente havia uma corrente de ar fresco, que me permitia continuar respirando.
As meninas andavam pelas calçadas trajando mini saias, tops e sandálias abertas, e eu me arrependi de ter vestido minha droga de camiseta azul escuro. O suor se acumulava nas minhas costas, numa camada gelada, fina e pegajosa.
Nunca havia sentido tanto calor na minha vida. E enquanto Marcos me mostrava os melhores caminho para se chegar ao supermercado, livrarias e drogarias, eu só conseguia pensar em me enfiar debaixo de um chuveiro gelado.
- É sempre tão quente aqui? - perguntei, forçando minhas pernas, quase derretidas, a continuarem pedalando.
Marcos piscou um olho para mim.
- Você se acostuma, acredite! - reparei que ele pedalava sem grandes dificuldades. E... não estava suando em bicas?
"Que inveja!"
Eu não acreditava que um dia eu fosse me acostumar, afinal, ninguém se acostuma a viver dentro do sol. Os cariocas deviam ser algum tipo de super humanos com resistência infinita à altas temperaturas.
Cheguei em casa esgotada. Desidratada. Bebi mais água que um camelo, e ainda sentia o deserto dentro de mim.
Durante o jantar, Lena estava toda animada para ouvir minhas supostas novidades.
- E então, como foi o primeiro dia de aula?
- Foi bom! - respondi, enchendo a boca de frango frito.
- Só isso? Bom?
Dei de ombros.
- O que quer que eu diga?
- Tudo! Se os professores são legais, se gostou da escola, se fez amizades, se os garotos são gatinhos... Eu quero saber de tudo.
Suspirei.
Eu sabia que ela não me deixaria em paz antes de resumo detalhado do meu empolgante primeiro dia. Então contei-lhe tudo, desde o momento em que saí de casa com Marcos, nosso atraso, o Sr. Veríssimo (ela mal acreditou que este fosse mesmo o nome dele), o almoço, Beatriz, Amanda, a professora Celina... Tudo. Aliás, quase tudo. Não contei sobre Robert Castro. Não queria ser interogada sobre este assunto a cada vez que voltasse da escola pelos próximos dias do ano.
- A escola é bem legal - eu disse, para finalizar - Bastante diferente do meu antigo colégio. Tem várias salas, e corredores, e andares, que eu me perderia se Marcos não estivesse o tempo todo me guiando.
- Marcos é mesmo um garoto muito legal. Fico feliz que estejam se tornando amigos.
Lena pareceu satisfeita com meu relato, quando esbocei cansaço suficiente para ir pra cama.
- Vai dormir comigo hoje? - perguntou, enquanto tirávamos os pratos da mesa e colocávamos na pia.
- Acho melhor dormir em meu próprio quarto. As pessoas não vão querer se aproximar de mim se descobrirem que ainda durmo com a minha irmã! - zombei. Como se isso fizesse alguma diferença, ninguém parecia querer se aproximar de mim, mas minha irmã não precisava saber disso.
Chequei minha caixa de e-mails antes de ir para o quarto. Havia duas mensagens da equipe do Windows sobre promoções de processadores para computador.
"Só isso!"
Minha prece aquela noite foi um murmúrio rápido e cansado. Eu estava dormindo assim que pronunciei as últimas palavras.

Capítulo longo, por isso foi dividido!!!
Por favor, comentem, votem, indiquem, salvem nas bibliotecas de vcs, ok?!!!
Bjs, bjs!!!!!

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