12. O Gênio da Lâmpada

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Abri os olhos, ainda meio sonolenta, e encarei o relógio na beira da minha cama.
- Droga! - Eram 7:45, eu ia me atrasar.
Levantei apressadamente, atropelando meus próprios passos, tirei o pijama e me enfiei dentro da primeira saia e da primeira blusa que vi em meu armário, mas não gostei da combinação.
Então escolhi minha saia lavanda e procurei por minha blusa branca com renda, não encontrei no meio da bagunça. Me enfiei em uma blusa sem mangas, branca e lisa, sem estampas, bem melhor assim, pensei ainda insatisfeita, a blusa com renda ficaria melhor; calcei meus tênis que estavam embaixo da cama e fui para o banheiro escovar os dentes.
Meu rosto estava com uma aparência horrível, por isso quase me arrependi por ter olhado no espelho. Corri até a cozinha, e encontrei um bilhete de Lena, pregado na porta da geladeira.

"Ísi,
Fui com Suzana comprar roupas novas para Jéssi. Não devo demorar, mas se eu não estiver de volta até o almoço, ligue para aquele restaurante do centro e peça comida chinesa.
Beijos, Lena."
P.S: o número do restaurante está na agenda, letra "L".

Comprar roupas para Jéssi... Por que aquilo não me era nenhuma surpresa?
Peguei o bloco de anotações e a caneta em cima da geladeira. Não sabia se eu estaria de volta até o almoço, portanto era melhor deixar um bilhete também.

"Lena,
Gui com Robert até a casa dele. Vamos terminar de ler nosso livro para o trabalho da escola, não devo demorar, mas se eu não estiver de volta até o almoço, bom, então provavelmente, estarei de volta até o jantar.
Beijos, Ísi."
P.S: Espero que tenha se divertido nas compras!

Arranquei a folha e preguei na porta da geladeira com um imã em formato de estrela, e então duas batidas na porta me fizeram disparar até a sala.
- Está pronta? - a voz de Robert era animada quando o atendi. Meu sorriso de satisfação escancarou-se totalmente em meu rosto, e quase tive que levar a mão até a boca para que meu coração não saltasse para fora. Robert era lindo demais para que meu coração não saltitasse como um cordeirinho alegre.
Ele ficou parado do lado de fora, olhando-me por um instante, depois sorriu balançando a
cabeça.
- Você está muito... bonita! - elogiou num sussurro, me fazendo derreter.
- O-obrigada! - agradeci, mesmo sem concordar, afinal eu me lembrava da imagem nada bonita que eu vira em meu espelho.
__ Vamos?
__ Claro! - Tranquei o apartamento e enfiei a chave no bolso da saia.
Robert parecia estar com pressa, desceu as escadas quase correndo. E quando chegamos á rua entendi o motivo daquela pressa toda.
- Que carro é esse? - perguntei quando ele abriu a porta do carona para mim.
- É só um carro que peguei emprestado com meu tio. Vou devolvê-lo amanhã de manhã. - explicou sorridente e visivelmente excitado.
Estacionado na frente do prédio estava um carro esporte, preto, reluzente e impecável, que refletia tudo o que passava por ele. Era um modelo importado muito moderno, que com certeza custava uma fortuna.
- Tem certeza de que seu tio te emprestou mesmo este carro? - indaguei desconfiada. Que tio empresta um carro daqueles para o sobrinho dar uma voltinha pela cidade?
Robert olhou-me fingindo estar ofendido.
- Está insinuando o quê? Que o roubei? - ele estava se esforçando para não rir.
Mantive os olhos no automóvel como quem analisa a idéia.
- Este é um modelo novo que acabou de chegar à loja. Estou fazendo um... test drive! - informou, com um risinho malicioso, defendendo-se de minha acusação.
- Um test drive? - repeti. - Por conta própria ou com autorização de alguém?
- Não acredita mesmo em mim? - ele fingiu desapontamento. - Estou dizendo, meu tio me emprestou! - seu tom de voz era de um réu tentando conseguir absolvição.
Eu ri. Como não acreditar nele?
Entramos no carro e Robert me ajudou com o cinto de segurança. Seus dedos roçaram muito de leve minha clavícula quando ele ajeitou a tira de modo que não me sufocasse. Prendi a respiração até que suas mãos estivessem segurando o volante.
Ele colocou o carro em movimento com habilidade enquanto seguia para o fluxo do transito da manhã.
Por dentro o veículo era igualmente impecável, os confortáveis bancos de couro eram apenas um detalhe no meio de tantas coisas que havia alí. Era um desses carros incrivelmente equipados: dvd, câmeras traseiras com a imagem no retrovisor dianteiro, GPS e uma porção
de botões que pensei ser impossível alguém um dia saber para que serviam todos eles. Tentei manter minhas mãos o mais longe possível de qualquer coisa que pudesse ser quebrável.
- Aonde vamos? - perguntei, quando Robert entrou na interestadual. - Pensei que fossemos ler na sua casa.
- Não me ouviu dizer que tenho que entregar o carro à loja amanhã de manhã? - assinalou ele. - Não podemos ficar em casa. - destacou animado.
- Então... aonde vamos? - insisti, mas Robert ignorou minha pergunta, ligou o som do carro numa música que eu não conhecia e mudou de assunto, distraindo-me facilmente.
- Como está indo em matemática? Suas médias aumentaram?
- Bem que eu sonho com isso! Parece que quanto mais me esforço, menos consigo melhorar.
- Eu lhe ofereci ajuda! - lembrou-me ele. - Mas você é orgulhosa demais para aceitar.
- Não sou orgulhosa, mas... não aceito porque não quero te dar mais um motivo para se enfadar comigo. - justifiquei.
- Ísi, eu jamais ficarei enfadado com você. - observou enfático. Tentei manter o significado simples de suas palavras e não torná-las uma quase declaração de amor.
- Bom, desconfio que o seu Walter não goste muito de mim. Acho que ele guarda
secretamente o desejo de me ver na recuperação no final do semestre. - concluí.
- Por que ele não gostaria de você?
Lembrei da cara que o seu Walter me fez quando cheguei atrasada no primeiro dia de aula.
Acho que esse foi o momento exato em que ele passou a não ter muita simpatia por mim.
- Só o fato de eu ter a menor nota da turma é motivo para ele me odiar de verdade. - eu disse como justificativa.
- Se ele te odiasse mesmo, não ia querer te aguentar na recuperação! - objetou Robert,
entrando em uma bifurcação na estrada. Não respondi à sua observação, não queria ficar falando do seu Walter e da matéria que eu mais odiava com todas as minhas forças. Robert meio que percebeu meu desinteresse no assunto e logo vasculhou a mente atrás de outra coisa sobre a qual pudéssemos falar, antes que eu voltasse a minha pergunta inicial.
- Tem pintado alguma coisa ultimamente? - quis saber curioso.
- Na verdade, não. - murmurei olhando pela janela.
- E por que não?
Respirei fundo e depois soltei o ar lentamente.
- Não tem encontrado inspiração? - indagou ele, olhando-me de soslaio.
- Pra ser sincera, o problema é exatamente o contrário, tenho encontrado inspiração demais.
- E isso não devia ser bom?
- É, devia, mas tanta inspiração me deixa feliz, e sou melhor pintora quando não estou feliz. Sei lá, é mais fácil captar a intensidade do mundo quando meu espírito não está em paz.
- Quer dizer que você está feliz agora! - concluiu afirmativo. - Mais feliz do que quando chegou aqui!
- Mais feliz do que imaginei ser possível eu me sentir um dia! - confessei, com mais
entusiasmo do que pretendia.
Eu realmente não queria parar de pintar, mas eu me sentia tão... em paz nos últimos tempos que nada do que eu colocava nas telas parecia realmente bom, apenas borrões de tinta que não conseguiam expressar nitidamente a forma como eu sentia e via o mundo a minha volta.
Nenhuma cor parecia boa o bastante para se pintar o céu, nenhuma de minhas misturas
conseguia chegar à tonalidade que expressasse com clareza as flores, o sol, o rosto - aquele rosto.
O rosto de Robert Castro havia se tornado uma obsessão dos meus pincéis, mas nada do que eu pintava conseguia retratá-lo de forma clara. Ele era perfeito demais.
De repente, do nada, Robert parou o carro no acostamento, interrompendo meus pensamentos bruscamente, abriu a porta e saiu. Fiquei sem saber o que fazer. E antes que eu pudesse raciocinar a respeito, ele
estava abrindo a porta do carona para mim.
- O que aconteceu? - perguntei preocupada. Meu primeiro pensamento foi de que havia acontecido algum problema com o carro.
Robert sorriu tranquilo e, sem que eu pudesse entender o porquê, estendeu-me a chave do carro.
- Pensei que talvez... você quisesse dirigir um pouquinho - ofereceu ele.
__ O que? Não posso dirigir, não tenho habilitação, nem idade pra isso! - lembrei a ele, apavorada com sua idéia descabida.
- Exatamente - Robert sorriu para mim, os olhos se estreitando de prazer -, quer algo mais ilegal do que dirigir um carro roubado e sem carteira de motorista?
__ Roubado? Mas você que seu tio...
__ Disse? - ele me olhou como se realmente não se lembrasse disso, depois começou a sorrir.
__ Você... é louco! - sussurrei, assustada.
Ele deu de ombros.
__ Me desculpe, só achei que estivesse pronta para cometer uma loucura! - desafiou cruzando os braços e me encarando.
Sustentei seu olhar por um minuto inteiro tentando avaliar sua expressão. Robert parecia mesmo estar falando sério e parecia esperar que eu concordasse com aquilo.
- Se nos pegarem...
- Ísi, dê uma boa olhada a sua volta... Essa estrada é praticamente deserta. Não vão nos pegar! - garantiu interrompendo-me.
- Mesmo assim... - eu nem conseguia imaginar as explicações que teria que dar a Lena se eu fosse parar numa delegacia.
Robert estendeu-me as chaves novamente, obrigando minha indecisão ceder lugar à ousadia.
Continuei imóvel.
- Tudo bem, talvez isso seja demais pra você. - provocou, desafiando-me novamente. Dessa vez aceitei o desafio.
Tomei a chave de sua mão e fui para o banco do motorista, mordendo a língua para não lhe dar uma resposta malcriada. Robert acomodou-se ao meu lado e uma certa presunção destacava-se em seu rosto.
__ Certo, é só me dizer o que devo fazer. - eu disse, sem nenhum vestígio de coragem na voz.
Percebi que minhas mãos tremiam quando agarrei o volante.
__ Primeiro: coloque o cinto - ordenou todo animado - Estamos sendo ilegais, não suicidas, certo? - Obedeci sem pestanejar, enquanto ele também prendia o próprio cinto de segurança.
Robert instrui-me pacientemente, o melhor professor de direção que uma pessoa poderia ter, e consegui colocar o carro de volta na estrada sem grandes dificuldades. Até que não era tão difícil assim dirigir, fiquei feliz por conseguir sair quase de primeira.
A música desconhecida continuava tocando no rádio. Era outra canção, mas o mesmo cantor, familiarizei-me facilmente com sua voz afinada.
Mantive o carro deslizando suavemente pela estrada, redobrando a atenção a cada curva,
tentando ao máximo manter o equilíbrio e não invadir a pista contrária.
- Por que não aumenta um pouco a velocidade? - sugeriu Robert, depois de alguns minutos, fazendo cara de tédio para minha suposta lentidão.
- Não basta me colocar no volante de um carro roubado, não é? Você precisa me incitar a correr, claro! - observei, sem tirar os olhos do asfalto.
Pude ouvir o riso dele.
- Não estou te incitando a correr. Estou apenas sugerindo que dirija numa velocidade razoável, afinal... você dirige como uma velhinha míope. - debochou ele.
- Ah, isso é um insulto! - pisei fundo no acelerador, saí dos 40 por hora e fui direto para os 70. Ousei dar uma olhadinha petulante para o lado.
Ele ainda fazia cara tédio.
- Você chama isso de aumentar a velocidade?
- Robert...
- Pisa fundo, Ísi! - sussurrou convidativo.
Obedeci com pavor e prazer. Era a realização de uma das minhas loucuras e aquilo era realmente maravilhoso, incrível e... louco. Cheguei aos 100 por hora, em menos de meio minuto, e a sensação foi de uma incrível liberdade.
Robert sorria ao meu lado.
Atingi os 110 e então comecei a reduzir, 90, 80, 70, 60. Voltei aos 40 e mantive - alta
velocidade constante não era uma boa ideia para mim.
Então, de repente, a pouco menos de cem metros, algo apareceu na pista a nossa frente. Vindo rapidamente, direto para nós. Freei bruscamente e quase perdi o controle do carro, indo parar com fúria no acostamento.
- O que houve? - foi a vez de Robert fazer a pergunta.
- Você viu aquilo? - murmurei ofegante, o coração acelerado.
- Aquilo... o quê? - ele parecia confuso.
- Havia alguém na estrada. Você... não viu? - minha voz era apavorada. Os olhos de Robert questionavam minha sanidade. - Havia alguém... vindo bem na nossa direção... Não me olhe
como se eu fosse louca. Tenho certeza de que havia alguém alí.
Na verdade eu já não tinha tanta certeza assim.
- Você não viu? - perguntei, infeliz por não ter uma testemunha ocular.
- Não estava prestando muita atenção na estrada - justificou. - Mas me diga, o que
exatamente a fez parar?
Respirei fundo, tentando clarear a mente e analisar com calma o que acabara de acontecer.
Pareceria ridículo demais se eu dissesse a ele que tinha visto um homem num manto branco, sorrindo enquanto o carro avançava em sua direção? Ou melhor, enquanto ele próprio avançava na direção do carro, numa velocidade incomum? Robert continuaria achando-me mentalmente saudável se eu lhe dissesse que este homem era muito semelhante a alguém que aparecera em meu sonho algumas noites atrás? Talvez não, mas eu precisava arriscar.
- Tem certeza do que está me dizendo? - perguntou Robert calmamente, após meu relato.
Suspirei ainda ofegante.
- Sei que parece loucura, e não vou te culpar se você ligar pra minha irmã e dizer a ela que preciso de tratamento - conjecturei. - Mas é exatamente como eu te falei. Ele era muito parecido com a pessoa do meu sonho, a mesma roupa, o mesmo sorriso... - me interrompi, com medo de que ele estivesse me achando ridícula.
- Acredito em você! - garantiu com sinceridade.
- O quê? Não acha que isso é loucura da minha cabeça? - indaguei confusa e aliviada. - Não! - novamente ele estava sendo sincero. - Mas acho que... - ele hesitou - que é melhor eu dirigir agora! - disse com um sorriso, saindo do carro.
Trocamos de lugar outra vez e Robert colocou o carro em movimento, voltando para a estrada.
Depois de longos metros em silêncio ele finalmente falou.
- Não estou dizendo que é, ou que esteja ficando louca, mas, sinceramente, não havia
ninguém na estrada. Sabe disso, não é? - sua voz era suave, quase como um calmante.
Concordei com um aceno amuado de cabeça. É claro que não havia ninguém! Talvez eu tenha ficado mais impressionada com aquele sonho do que suspeitava.
- Quer comer alguma coisa? - disse Robert com naturalidade, depois de muitos minutos em silêncio - Conheço um lugar aqui perto onde servem uma comida ótima.
- Parece uma boa ideia. - concordei. O susto me deixara mesmo com fome.

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