O dia estava lindo lá fora logo pela manhã. Um céu azul claro sem vestígio de nuvens,
um sol que começava a aquecer o mundo. Saí da cama animada, e enquanto me arrumava para ir à escola, lembrei-
me de meus dois sonhos... ainda eram tão nítidos em minha mente... Peguei minhas
coisas e fui bater na porta de Marcos, com a determinação de manter apenas um dos
sonhos no pensamento.
Na escola algo inesperado aconteceu.
É possível entregar seus desejos ao esquecimento? Abrir mão de sua própria felicidade para não atrapalhar a felicidade de outra pessoa?
Como o sol gentilmente cede lugar à lua, para que ela brilhe no céu, iluminando as
noites frias em que muitos corações sofrem.
Como o riso cede lugar ao pranto, quando tudo o que se tem é colocado em jogo.
Como a vida cede lugar à morte, colocando corpos na eternidade do sono profundo.
Assim eu também cederia meu amor, para que Beatriz tivesse uma chance de ser mais
feliz.
Quando cheguei ao colégio àquela manhã, lá estava ela. Os olhos inchados por,
provavelmente, ter chorado a noite toda. Ela me tomou pelo braço e me conduziu até o
banheiro feminino sem nem ao menos cumprimentar a mim ou a Marcos.
- O que houve? - perguntei preocupada, quando ela fechou a porta com força.
Beatriz me encarou.
- Não dá mais. - murmurou. - Não posso mais suportar, Ísi - as lágrimas começavam
a lhe escapar.
Fiquei cautelosa.
- Do que está falando?
- Robert...
- O que tem Robert? - meu coração estava apertado dentro de mim. Será que ela
descobrira o que eu sentia por ele?
Ela suspirou e enxugou a água dos olhos
- Não posso mais viver sem ele! - confessou com amargura.
Prendi a respiração por um instante, depois soltei uma rajada violenta de ar. Isso me
deixou um pouco tonta.
- Preciso fazer com que ele se apaixonar por mim o mais rápido possível - continuou Beatriz. Suas palavras saíam torturadas. - Essa noite eu tive um sonho e... foi tão
lindo...
- Você... sonhou com Robert? - interrompi aparvalhada. Tentei manter um tom
imparcial, mas era difícil. Será que toda garota apaixonada sonha com seu amado?
Parece que sim.
- Sonho com ele quase todas as noites se quer saber. Mas essa noite... foi diferente!
- D-diferente? - repeti.
- Sim, muito diferente. Você estava em meu sonho também. - disse, esfregando os
olhos com as costas das mãos.
Minha cabeça girou com a declaração inesperada.
- Eu?
- Bom, acho que era você. - ela deu de ombros. - Não foi um sonho muito claro,
sabe? - concordei com a cabeça incapaz de conseguir falar. Ela continuou. - Você me
dizia para eu ser forte, que tudo ficaria bem, que você me ajudaria, sempre.
Eu não sabia o que dizer, nem mesmo o que pensar.
- Por isso eu te trouxe aqui, Ísi. - ela me olhava suplicante - Quero te pedir um favor!
Senti medo enquanto esperava por suas novas palavras.
- Você é, tipo, minha amiga, não é? - perguntou, tomando minhas mãos entre as suas.
- Claro que sou. - consegui murmurar entre o pânico e o desespero que se instalavam em mim.
- E você quer minha felicidade, não quer?
- Sim... quero. - minhas respostas eram automáticas. Eu não conseguia raciocinar
direito.
Ela hesitou, novamente enxugando as lágrimas.
- Então, prometa-me.
- Prometer... prometer o quê?
- Que me ajudará a conquistar Robert Castro! - pediu com voz irreconhecível.
Senti uma pancada na cabeça.
- O quê? - era para ser um grito de surpresa, mas não passou de um murmúrio
indignado.
- Você é amiga dele agora, não é? Então, é a única pessoa que pode me ajudar.
- Beatriz... eu... - eu não sabia o que dizer.
- Você precisa me prometer, Ísi. Precisa me prometer - sua voz era perturbadora, suas
lágrimas inundavam meu coração induzindo-me a concordar com suas palavras.
Ouví-la implorando por aquela promessa era como ouví-la implorando para arrancar
meu coração de dentro do peito sem demonstrar sentir nenhuma dor. Eu sabia o que ela sentia por ele desde o começo. Então não devia estar surpresa, não é?
- Você tem que me prometer! - implorou ela novamente. - Por favor!
- E-eu... pro-prometo. - murmurei, pronunciando o maior erro da minha vida.
Eu via aquela cena como se tivesse me projetado para fora do meu corpo. Eu assistia a tudo através de uma tela expandida em minha frente. Em um ângulo perfeito, Beatriz e eu, frente a frente no banheiro feminino vazio.
- Eu prometo. - repeti baixinho, olhando duas garotas apavoradas em um banheiro.
Beatriz olhou-me com olhos de gratidão, depois me abraçou e nessa hora eu tive
vontade de começar a chorar.
- Obrigada! - consegui ouví-la dizer enquanto saíamos do banheiro.
A manhã passou deprimente. Não consegui ouvir nenhuma palavra do que os
professores disseram durante as aulas intermináveis, eu só tentava entender o que
exatamente eu havia dito a Beatriz, e toda vez que as palavras "eu" e "prometo" surgiam na minha frente eu tinha vontade de sair correndo e só parar quando essas palavras tivessem ficado para trás.
Enquanto seguíamos para o almoço, Marcos quis saber por que eu estava tão calada.
Respondi que era por preocupação com minhas notas e porque não estava indo bem com os números. Beatriz não pareceu desconfiar que meu silêncio tivesse alguma coisa a ver com nossa conversa no banheiro - melhor assim.
Eu não conseguia acreditar no que estava acontecendo: eu havia mesmo prometido a
Beatriz que a ajudaria a conquistar o garoto pelo qual eu também estava apaixonada?
Era isso mesmo? E como eu iria realizar uma proeza dessas? Como?
Acho que Beatriz tinha a solução.
- Eu estive pensando - ela disse, enquanto beliscava minha torta de cereja, que hoje
estava meio insossa - o que acha de irmos ao cinema hoje à noite?
- Parece uma boa ideia! - menti, forçando o entusiasmo.
- Legal, hã... você bem que podia levar Robert também. - sugeriu, com expectativas.
- O quê? - como eu não havia percebido, era óbvio, ela queria a presença dele muito
mais do que a minha.
- Ah, Ísi, você disse que ia me ajudar, não disse? - reclamou, baixo o bastante para
que Marcos, que voltava da cantina trazendo uma bandeja cheia de comida, não a ouvisse.
- Claro! - assenti, sentindo o peso da minha promessa. - Só não posso garantir que
ele vá aceitar. - murmurei de volta, antes que Marcos se aproximasse demais. Ah, era
exatamente isso que eu desejava: que Robert não aceitasse.
- Obrigada, mesmo assim! - agradeceu eufórica. - Tenho certeza de que você o
convencerá. Hei, Marcos, o que acha de irmos ao cinema essa noite? - perguntou ela
quando Marcos sentou-se ao meu lado.
Ah, não! Aguentar Beatriz se derretendo toda para Robert não seria suficientemente
torturante? Eu teria que suportar também as hostilidades de Marcos?
- Acho ótimo - respondeu ele, entusiasmado demais para minhas esperanças.
- Legal. - eu disse sem ânimo algum. - Cinema hoje à noite, então!
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Intrínseco
Fantasy"Será mesmo possível alguém se apaixonar pelo seu próprio anjo da guarda? Acredito que sim, pois eu estava, irreversivelmente, apaixonada pelo meu. E por mais bizarro e absurdo que pudesse parecer, por um milagre, ele também estava apaixonado por mi...
