41 Pichação

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- O-Oi, vó... - entrei e fechei a porta para não dar o azar de meu pai também aparecer. Uma encrenca só estava de bom tamanho. - O que a senhora faz aqui?

Meu coração batia num ritmo muito mais acelerado que o comum.

- Acho que a pergunta certa seria: por que "você" não estava aqui? - ela me encara como se soubesse a verdade. De todo jeito, não há provas. A única maneira de ela ter visto o carro, seria pela janela da frente, mas tomei cuidado, me certificando de que a cortina não se mexeu nem um milímetro.

- Avisei meu pai que iria na Fabi, vó. - sorrio, tentando soar honesta. - Ela estava me mostrando as fotos que tiramos na festa. Ficaram lindas. - Vou subindo o top pela cabeça, tirando. Quem sabe ela se ligue que vou pro banho e não me pressione mais.

Se ela se aproximar muito pode sentir o perfume dele em mim, de tão impregnante que aquele cheiro é. Isso se já não estiver sentindo mesmo de longe.

Uma pena que esse cheirinho gostoso vá descer pelo ralo com a água...

Para não ficar parada tendo que atuar além das minhas possibilidades, abro as portas do guarda-roupa numa de pegar um pijama e uma toalha nova.

- Hum... na Fabi, é? Mas você não costuma ir pra lá tão tarde assim... - ela me incita a confessar, usando aquele tom desconfiado e uma leve pressão. - Decidi te perguntar se ia querer um chazinho antes de ir dormir, mas me assustei com a cama vazia.

- Não precisa ficar assustada, vó. Olha eu bem aqui, sã e salva. - minha cabeça estava entre minhas roupas, pois me sentiria uma vaca se mentisse olhando em seus olhos.

- Uhum, parece estar inteira mesmo... - e ela parece debochada - Não veio faltando nenhum pedaço. - quando falou isso, de um modo meio que sarcástico, mordi a boca, fazendo uma careta involuntária. Droga, ela sabe!

- Toma cuidado, filha, às vezes coisas que parecem boas podem ferir, arrancar pedaços. Aleijar.

Ela sabe!

Não digo nada de nada, só torço mentalmente que ela vá embora, porque não posso virar e encarar seu olhar crítico nesse momento e em nenhum outro. Não gosto da sensação de ser uma decepção para a melhor pessoa que conheço no mundo.

- Espero que lembre dos conselhos que te dei, Talia. Homem não respeita mulher fácil; se quer ser respeitada, não minta para sua família, fugindo ao primeiro chamado. - o conformismo encharcava suas palavras.

Ela cansou de tentar avisar. Estava lavando as mãos?

A minha maior preocupação é que não sei se tem como isso que estou sentindo ser controlado...

Escuto seus passinhos frágeis pelo quarto, em direção a porta. Ela está desistindo de mim, deixando um saco de decepção jogado aqui no meu quarto, fedendo tanto que não consigo respirar. Ela se deu por vencida, e ainda nem rolou nada entre mim e ele. 

- Vó! - chamo, virando um pouco a cabeça por sobre o ombro, cobrindo meus seios e encolhida de vergonha. Ela parece estar muito brava comigo.

Parando, após abrir a porta, e sem me olhar, ela diz, baixo:

- Bota sua roupa suja na máquina. Se teu pai entrar aqui e sentir esse cheiro, vai desconfiar.

Então ela se foi, encostando a porta do modo mais seco que já agiu comigo em dezenove anos de vida.

Olhando estática para a parede, levo o topinho em minha mão ao nariz.  O cheiro masculino se infiltra e me teletransporta. Derrotada pela pressão do sentimento incontrolável que só cresce, sento no chão, sobre o tapete,  levantando os joelhos e os abraçando, olhando para a bola prateada brilhante que me espia pela janela.

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