Capítulo 19

38 6 83
                                        

♪Tudo o que eu fiz para tentar desfazer isso
Toda a minha dor e todas as suas desculpas
Eu era criança, mas eu não era cega
(Alguém que te ama não faria isso)
Todo o meu passado, eu tentei apagá-lo
Mas agora vejo, será que eu conseguiria mudá-lo?
Podemos até compartilhar um rosto e um sobrenome, mas
Nós não somos iguais♪
♪Family Line, Conan Gray♪

~ Félix Rodrigues


10 DE ABRIL DE 2011

Acordei muito tarde hoje, meu corpo todo estava dolorido e cheio de marcas. Peguei uma blusa com manga longa e uma calça moletom e fui tomar um banho.
Eu sentia as feridas do meu corpo arderem, parecia que eu estava jogando sal em cima delas. Saí do banheiro para encontrar absolutamente ninguém além de mim e da minha solidão - sempre foi assim.
Voltei para o meu quarto para pegar a minha mochila, precisava terminar meu dever de casa.
Estava com medo dos meus pais voltarem juntamente dos meus irmãos. Não queria apanhar novamente. Minhas costas ainda estavam vermelhas.

Depois de terminar o dever de casa fui até a cozinha para comer alguma coisa. Fiz um hambúrguer e me sentei para assistir televisão.
Passaram-se algumas horas e pensei que se eu limpasse a casa talvez fossem mais gentis comigo, deixei a televisão ligada para fazer barulho e comecei a arrumar a bagunça. Em alguns momentos eu dançava com a vassoura e esquecia completamente o que estava fazendo.

Uma batida à porta me fez derrubar um quadro no chão, tentei recolher os vidros mas cortei os meus dedos, fui até a porta receoso de quem poderia ser.
Era o meu vizinho idoso. Ele me trouxe um bolo que a mulher dele tinha feito. Peguei o bolo e voltei aos meus afazeres.
Quando terminei me sentei e comecei a comer um dos pedaços de bolo que o meu vizinho tinha me dado - sempre amei doces.
Lavei o prato e voltei para a sala. O dia estava muito bom, talvez porque eu estava sozinho e não apanhando.
Lembrei-me que tinha um quadro quebrado no chão, novamente peguei a vassoura e limpei os vidros no chão.
Eram um dos quadros da família. O vidro quebrou majoritariamente na parte em que estava o meu rosto.
Gargalhei e pensei como eu poderia apanhar por apenas quebrar uma foto, pus minhas mãos nas minhas têmporas e me joguei no sofá.

- Será que um dia eu vou ter paz? - pisquei olhando para o chão.

Esperei por horas que meus pais e meus irmãos chegassem, mas não tinha nenhum sinal de que eles voltariam hoje e eu não estava preocupado com isso.
Tranquei a porta da frente e voltei para o meu quarto. Acho que posso gostar dessa coisa chamada solidão, mas não acho que eu vou gostar de ficar com ela para sempre.
Rolei de um lado para o outro na cama e acabei caindo no chão. Tirei o lençol que estava me mantendo preso e me levantei.
Fui para a sala e tomei um copo de água.

29 DE ABRIL DE 2011

Já se passaram duas semanas e cinco dias desde que me deixaram sozinho nessa casa infernal, precisei começar a trabalhar como caixa de mercado e garçom, não estava dormindo há dias. Quando passei pela porta joguei meus sapatos em qualquer lugar e caminhei até o sofá, no caminho tropecei no meu sapato e bati o meu joelho no canto da mesa. Me sentei no chão e engoli a vontade de chorar.
Próximo do mercado em que trabalho tem um estúdio de tatuagem que abriu recentemente, um garoto de cabelo escuro passou e sorriu para mim, eu fiquei com uma expressão confusa e desviei o olhar.

Andei pela casa e abri a porta do antigo quarto dos meus pais. O lugar estava um pouco empoeirado, eu não conseguia entrar naquele lugar sem ser bombardeado de memórias horríveis que ultimamente vem me dando pesadelos e noites mal dormidas.

PolaroidOnde histórias criam vida. Descubra agora