Eu sabia que meu pai não estava sendo rude ou severo com ele.
A questão era simples: preocupação.
A preocupação de um pai que vê sua filha saindo de casa depois de um longo tempo. A preocupação de um homem que, apesar da rigidez, ainda luta para equilibrar razão e emoção.
Mas também havia outro detalhe.
Son não era um estranho para minha família.
Pelo que andei descobrindo nos últimos dias, ele sempre foi alguém de confiança, alguém próximo o suficiente para que meu pai permitisse essa saída sem grandes objeções.
Então, por mais que sua expressão séria sugerisse outra coisa, eu sabia: ele confiava nele.
Mesmo assim, não conseguia ignorar a inquietação que me dominava desde que voltei para casa.
Desde que despertei sem memórias.
Algo dentro de mim ficava alerta, desconfortável. Principalmente quando eu estava ao redor dela.
Da mulher que mora comigo.
No segundo passeio que fiz com eles, falei com ela pela primeira vez.
O simples ato de pronunciar palavras na sua direção parecia deslocado, como se algo em mim resistisse a qualquer interação.
Mais tarde, contei ao Son sobre o que senti naquele momento. Contei sobre meu desconforto e a sensação estranha que tomava conta de mim quando ela estava por perto.
Ele me ouviu.
Ele compreendeu.
E agradeci a Deus por isso.
Meu pai, no entanto, insistiu em outra visão da história.
Ele me disse que eu estava sendo dura com ela.
Que, apesar de tudo, ela era uma pessoa muito importante para minha vida.
E que eu deveria repensar minhas atitudes para melhorar a situação entre nós.
Mas, por mais que tentasse aceitar essa ideia, algo dentro de mim não conseguia concordar tão facilmente.
Porque, se ela realmente era essa pessoa tão essencial…
Por que antes do acidente eu me afastaria dela?
A cena retorna a minha memória.
A sala de jantar estava silenciosa.
Apenas o som dos talheres encontrando os pratos se fazia presente. O jantar estava prestes a terminar quando, finalmente, reuni coragem.
Minhas mãos seguravam o guardanapo sobre a mesa enquanto eu quebrava o silêncio.
— Mãe?
A palavra saiu hesitante.
Foi a primeira vez que a chamei assim.
E, no instante em que a pronunciei, senti um arrepio estranho subir pela espinha.
Ela ergueu os olhos, surpresa, mas logo suavizou a expressão.
— O que foi, querida? — sua voz era doce.
Doce ao ponto de amargar.
Respirei fundo.
— O que a senhora fez de errado para mim?
Ela piscou algumas vezes, parecendo confusa.
— Acredito que não fiz nada, querida.
Mas sua resposta, por mais firme que fosse, não parecia natural. Não para mim.
Minhas mãos se fecharam em punhos sobre o colo.
— Posso estar amável por fora, mas isso não significa que por dentro não possa sentir outras coisas.
Vi sua expressão se alterar por um instante, como se a frase a atingisse de uma maneira inesperada.
— O que quer dizer com isso, querida?
Minha garganta ficou seca.
A resposta já estava ali, pronta para ser dita, mas hesitei por um momento antes de continuar:
— É impossível sentir frieza quando está perto de mim, caso fosse inocente.
O som repentino da voz do meu pai cortou o ar.
— Chloe! — ele me repreendeu.
Não desviei o olhar dela.
Mas, ainda assim, me virei para ele e falei com sinceridade:
— Posso não lembrar de tudo, mas não posso trair meus sentimentos. — respirei fundo. — Se preciso ou quero mudar, entender ou seja lá o que for necessário, tenho que me compreender primeiro. Manter-me fiel a mim mesma, certo?
Ele suspirou pesadamente.
— Suas palavras… — murmurou. — Parece que nunca saíram de si.
Um pequeno sorriso surgiu nos meus lábios.
— Isso é bom?
Ele não respondeu de imediato.
Mas vi um brilho de orgulho em seu olhar antes que desviasse a atenção para o prato à sua frente.
Fiz o mesmo.
— Por enquanto, mantenho distância da palavra ‘mãe’.
Meus olhos analisaram a mesa uma última vez antes de me levantar.
— Já terminamos de comer, então, com sua licença, estarei olhando as estrelas.
Curvei a cabeça em um sinal de respeito e saí.
O ar fresco da noite era um alívio.
Caminhei sem pressa até a beira da praia, o som das ondas preenchendo o vazio que as palavras não conseguiram ocupar no jantar.
O céu estava limpo, e as estrelas brilhavam com intensidade, refletindo-se suavemente na água escura.
Peguei o celular e mandei uma mensagem para Son.
Queria compartilhar aquele momento com ele.
Porque era exatamente ali, sob aquele céu estrelado, que tive minha visão antes de acordar no hospital.
Naquele momento em que quase morri.
Dei um passo para a frente e olhei para cima.
As estrelas pareciam brilhar ainda mais forte.
Foi então que fechei os olhos.
E, em silêncio, orei.
"Jesus querido, peço que me guie no caminho certo.
Agora eu entendo por que o Senhor teve que me carregar.
Eu realmente perdi as forças…
Já não conseguia mais andar sozinha.
Então, por favor… agora que estou aprendendo a caminhar do início…
Segure a minha mão.
Amém."
Quando abri os olhos, senti algo diferente dentro de mim.
Não era uma memória voltando.
Não era uma resposta clara.
Mas era uma certeza.
Eu não estava sozinha.
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SUPERANDO MEUS LIMITES | romance cristão
RomanceQuanto tempo a mais eu conseguirei suportar as coisas que estão presas dentro de mim? Entrar na faculdade e fazer amigos talvez me ajude a ficar mais leve do fardo da perda da minha avó, a falta de fé que me encontro e quando meu melhor foi embora...
