Hotel Serrafiore, Monte Carlo, Principado de Mônaco. Novembrode 2018.
Para muitos homens, ver duas mulheres se engalfinhando em um combate visceral era o suprassumo do prazer. Lestrade discordava veementemente disso, afinal quando duas especialistas em várias artes marciais se enfrentavam, a morte era o único resultado.
Lestrade olhou para as pistolas deslizando pelo chão de linóleo, uma cena quase incompreensível para ele. Elas brincaram de desarmar uma à outra ao estilo John Wick e, só depois disso, partiram para a luta mano-a-mano.
Com um pouco mais de força e músculo, Juneau desferiu um soco poderoso em direção ao rosto de Noor. Ela a bloqueou com ambos os braços, mas a força do golpe fez a assassina cambalear para trás antes de recuperar o equilíbrio. Tentando pressionar o ataque antes que Noor pudesse se recuperar, Juneau chutou a barriga da adversária.
No entanto, Noor a surpreendeu. Ela se abaixou e girou a perna em uma rasteira certeira. Por um momento, Lestrade arqueou as costas, quase sentindo a dor do impacto. A agente, no entanto, se levantou rapidamente como se não tivesse doído.
Noor usou a vantagem de ser mais alta do que a agente e esbanjou nos chutes. As sombras dos movimentos, dançantes e incríveis, marcavam o caos frenético da intensa troca de golpes. Juneau acertava mais, porém os chutes de Noor faziam mais estragos. A ponta dos saltos, perversas, criavam hematomas e lançavam o sangue da policial ao chão frio.
Para quem Lestrade deveria torcer? Sua primeira salvadora, a mulher que o ajudou a escapar das amarras da escuridão em Londres após o atentado? Ou a agente pela qual ele tomou um tiro? A mão direita tocou a pequeníssima cicatriz causada pelo rifle, no ombro, enquanto a esquerda segurou uma das pistolas largadas no chão.
Segundo Helena, seu ombro deveria estar destruído. Juneau usara algo capaz de mudar para sempre as regras do jogo, decerto tal sacrifício único exigia uma retribuição.
Juneau usou magia, não tenho dúvidas.
Mas Lestrade reparou nos movimentos de Noor, o deslizar em cima dos saltos, aquela elasticidade digna das melhores bailarinas do Bolshoi. Os poucos feixes de luz, brilhantes e intensos, recordavam-no de tempos bons, de histórias da St. Trevelyan e do gosto de Stella Kapoor pelo teatro, dança e música.
Ela havia até tentado ensinar Lior algumas músicas indianas. Não tinha como Noor não ser Stella. O nariz era um pouco diferente, os olhos repletos de maquiagem, alongados e sedutores, de sereia. A boca mais fina, mas os movimentos e vitalidade por trás do castanho daquele olhar eram únicos.
Lestrade engoliu em seco, apertou ainda mais o cabo da arma, e tomou sua decisão.
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Davina havia tensionado todos seus músculos quando as luzes do Serrafiore caíram. A respiração estava cada vez mais difícil, o vestido molhado grudava na pele causando mais peso aos movimentos e as finas camadas do tecido nada impediam o sangue de escorrer.
O tempo estava contra ela.
Ao menos tivera a sorte de estar do lado de fora do elevador. Demétrius, à frente, já havia pego sua arma e a entrado em posição para atirar. Seguindo-o, ela limpou os pensamentos nefastos da mente e focou única e exclusivamente em Lestrade.
Não precisou de muito para ouvir as primeiras cacofonias de tiros. Os dedos nervosos dos guardas decoraram os vidros, candelabros, quadros e portas do penúltimo andar. Para evitar ser atingidas, Davina girou contra a parede e puxou Demétrius com ela para o nicho raso de uma coluna a tempo de ver uma bala passar zunindo por eles e atingir a porta do elevador.
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O Chacal
ActionChacal. Ele é um mestre do disfarce, uma lenda temida pela polícia que causa arrepios até nos melhores espiões. Ele jamais deixou um alvo viver. Exceto Lestrade. Lestrade di Laurenti estava no lugar errado, na hora errada. Não era para ele presencia...
