Capítulo 36

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Cemitério de Highgate. Cidade de Londres, Inglaterra. Novembro de 2018.

Dizer que Londres chovia naquele final de tarde era, literalmente, redundante. A cidade sempre fazia questão de agraciar a todos com uma garoa fina que cobria o horizonte como um véu. Em pé, diante de duas lápides, dois homens prestavam as últimas homenagens a duas valorosas mulheres.

— Eu agradeço de verdade você ter dado um enterro digno para Davina, Lior. — Lestrade, apertando-se em seu sobretudo, meneou a cabeça para o amigo, em uma reverência curta e velada. — De verdade.

— Era o mínimo que eu poderia fazer pela salvadora do meu melhor amigo. — Lior retirou os óculos do rosto e esfregou os olhos. Ao seu lado, sempre incólume, Helena ergueu um guarda-chuva gigante. — Fora que perdemos a Noor.

— Não conseguimos proteger nossas mulheres. — Lestrade trincou os dentes. Não sabia se de raiva ou de frio. — Somos dois homens inúteis.

— Eu prefiro pensar que somos da nova guarda. — Lior colocou de volta seus óculos. — Afinal de contas, nós respeitamos as decisões e vontades de nossas mulheres, seja lá quais forem.

Lior fitou o chão e chutou uma pedra solta.

— Eu podia usar toda minha influencia para impedir Noor, mas isso faria você morrer. Afinal, ela me contou que te te salvou de Chacal quando ele matou Angie.

Aquilo era novidade para Lestrade. Ele levou a mão à cicatriz no pescoço.

— Eu poderia fazer de tudo para mantê-la a meu lado, presa, sã e salva. Mas me pergunto se fizesse isso se eu a teria de verdade? Ao meu lado...

— Só de ela estar viva...

— Uma mulher com a personalidade da nossa amiga? Da Davina? — Lior o interrompeu. — Tem certeza disso?

— Era melhor elas estarem vivas do que mortas. — Lestrade completou mesmo assim. — Por mais que elas nos odiassem.

— Sou mais egoísta do que você, Les. — Lior levou a mão ao coração. — Não aguentaria ver a mulher que já amei me odiando. Não dá. Ela pode viver feliz longe de mim, mas nunca me odiando. É jogar todo nosso sentimento no lixo.

— Eu as queria vivas, sobre todas as coisas, não há mais egoísmo do que isso. — Lestrade sorriu de canto de boca. — No entanto, você tem razão. No que tange a respeitar desejos. Nem Noor, nem Davina se arrependeriam das escolhas.

— Se me permitem a intromissão... — Helena interrompeu a conversa dos dois. — Foi exatamente por causa disso que vocês as conquistaram.

Surpresos pela interrupção, Lior e Lestrade voltaram-se a Helena, que os encarava nos olhos.

— Companheirismo, respeito e confiança. Para mulheres como nós, que podemos morrer a qualquer momento, saber que temos o respeito de nossos parceiros não tem preço.

Para o olhar inquisitivo deles, ela seguiu sem titubear.

— Lior respeitou as decisões de Noor mesmo não concordando. Quer prova melhor do que isso? Sem contar, alteza, que apenas pelo seu jeito de ser, você fez uma assassina treinada caçar o maior assassino. — Pausou. — Lestrade, você fez uma agente da SRR abandonar parte de suas ordens em prol da sua liberdade. Foi homem o suficiente para entender as escolhas e não pisar nelas. Não joguem isso no lixo.

Para o silêncio de ambos, ela finalizou, fitando as lápides.

— Cansamos de ver histórias de sacrifícios de heróis, homens capazes de tudo por suas amadas, lançando-se às profundezas da escuridão, se tornando lendas e deixando famílias para trás. E suas parceiras juntando os cacos. — Helena sorriu e passou uma mecha teimosa dos longos cabelos para trás das orelhas. — Quando mulheres fazem isso, os homens que ficam são taxados de covardes, fracos e inúteis.

O ChacalOnde histórias criam vida. Descubra agora