Capítulo 32

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Cobertura de Lior Romanov. Londres, Inglaterra. 2012

A chegada ao hotel foi difícil, tanto pelo fuso horário quanto pelo impacto emocional de participar de dois enterros. Embora tudo fosse cruel demais para seu coração, tinha um senso de responsabilidade para aqueles que um dia lhe quiseram bem. Seja uma atriz e cantora, seja um tio errático e excêntrico, envolto em cruéis manipulações.

Lior bocejou enquanto conversava simpaticamente com a recepcionista e se encolheu dentro do casaco. Talvez o tempo no Brasil o deixara desacostumado com o frio londrino, ou os calafrios eram das fortes emoções dos últimos dias.

Queria fazer algo para tapar o vazio de seu coração, ao invés disso, agradeceu à recepcionista por lhe entregar a chave e dirigiu-se ao elevador pensando na imagem da mãe de Angélica chorando e de como a culpa ameaçava partir o coração em mil pedaços. Eles também agradeceram ao príncipe pela ajuda do translado do corpo, mas ele não merecia aquela bondade.

Se sentiria mais à vontade se eles o amaldiçoassem, o lançassem às profundezas infernais. Bondade doía. O que adiantava títulos se eles não vinham com a certeza de uma proteção irresoluta?

A viagem a São Paulo também lhe trouxera certas memórias em relação à diferença no tratamento que seus familiares deram. O velório do tio foi bem mais protocolar, cheio de regras. Não houve choros, emoções, nada. Até alguns primos faltaram, cujas ausências foram notadas e certamente eles ouviriam bastante caso fossem a Westminster.

Lior se dizia rebelde, mas não era tão rebelde assim.

Ao entrar no elevador, quase não reparou na chegada de uma mulher alta em uma jaqueta de couro carregando uma bolsa marinheira sobre os ombros. O boné preto escondia parte de suas feições. Aliás, estava tão distraído com os pensamentos que, se não fosse a bolsa roçando na manga de seu casaco, não repararia que havia alguém com ele no elevador.

— Qual andar? — Perguntou sem demora, levando os dedos alongados para os botões do painel.

— O mesmo que o seu. — Com o queixo, ela mostrou o andar que ele tinha apertado.

A voz dela era doce, um pouco suave, digna de uma cantora. Bem, talvez até fosse uma artista tentando se esconder dos paparazzis. Lembrou-se de seu amigo Tristan e dos dois lados do glamour e da fama. Balançando a cabeça em negação, retirou seu celular e digitou uma mensagem. Queria conversar com um amigo e todos os mais próximos da sua agenda estavam longe.

Ou mortos.

Brindaria pela memória de Angélica. Jogaria tudo o que descobriu de seu tio por Villeneuve para o lixo e viveria sua vida dando orgulho à amiga. Ela seria a primeira a reclamar, a dizer que os ricos e poderosos não deveriam controlar os menos abastados. Incitaria discursos calorosos e até daria socos se ele, Ignácio, Stella ou Lestrade fizessem algo diferente.

Ela era o ponto moral do AltF4. No meio daquele insano internato feito para os filhos das pessoas mais ricas do planeta, a bolsista oriunda das favelas do Brasil possuía mais integridade que os vãos e mesquinhos membros da St. Trevelyan.

Saindo do elevador, ele checou rapidamente as redes sociais e guardou o celular antes de tirar a chave eletrônica do bolso para entrar no quarto, tomar um banho e afundar na cama macia. O corpo pedia um descanso.

Porém, quando ia fechar a porta de seu quarto, um coturno surgiu no vão. Era a mesma mulher do elevador. Ela retirou o boné para deixar cair os intensos cabelos negros sobre os ombros e sorriu de forma ternamente para ele.

— Olá, Lior.

O príncipe precisava de uma bebida muito mais forte do que os vinhos tintos da sua coleção.

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