Capítulo 35

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Lior não acreditou no que aconteceu no penúltimo andar do Serrafiore. Na verdade, a mente recusava a verdade diante de seus olhos. Nem quando ignorou a janela quebrada, a garoa fina que adentrava o ambiente ou pegou Noor em seus braços, ele aceitou os últimos suspiros da mulher que amava.

O sangue dela, ainda vibrante, corria pelos braços. A respiração era errática e cada vez mais lenta. O coração pulsou como um tambor pesado, berrando alto, tentando espalhar o sangue que escapava pelos ferimentos de bala. Lior não sabia se foi a chuva ou as próprias lágrimas que borrou a visão quando ele finalmente a olhou nos olhos.

Tentou esconder a preocupação, o desespero crepitando no âmago da alma, esperando que alguém trouxesse um pequeno fio de esperança. Encarou o chefe de segurança, Juneau e até Helena em súplica, mas não veio nada. Nada além de incontáveis gotas que feriam a pele, no entanto, nada era maior que a dor no coração.

A dor de perder alguém que amou.

O coração bateu rápido e efêmero. De uma explosão brilhante para um sumiço minguante. Foi nesse momento que Lior queria dizer as palavras que ele mais queria, dar adeus a mulher mais forte e imponente que conhecera.

No entanto, até nisso, ele chegara tarde demais.

— Chefe Leclerc, eu irei atrás de meus parceiros. — Juneau, alheia a batalha mental e agonizante de Lior, engatilhou sua arma. — Eles precisam da minha ajuda. Se puder disponibilizar alguns homens...

— Eu irei contigo. — Helena meneou a cabeça para Lior, pena, luto e tristeza estampadas nos olhos alongados, acima maçãs altas do rosto. — O príncipe não vai a lugar algum.

E eu preciso fazer algo, não tenho como consolá-lo agora, nem sequer tenho esse direito. Isso pertence a outra. Juneau escutou Helena murmurar, mas aparentemente ninguém mais percebeu.

— Mandarei alguns homens com vocês.

Leclerc assobiou para alguns oficiais devidamente uniformizados e armados, o que era bem raro para a polícia monegasca. Juneau se perguntava o que se passava na cabeça suada do chefe da polícia, que em vinte anos como policial presenciara apenas um crime com arma de fogo, e mesmo assim no início da década passada.

Agora, só naquela madrugada, havia inúmeros corpos. Desde guardas e agentes secretos ao acionista majoritário e atual dono da Vault. O caos social que irromperia pela manhã seria o suficiente para pedir aposentadoria.

— Eu ficarei... aqui. — Ela não desejava estar na pele dele quando os abutres midiáticos sentissem o cheiro da carcaça.

E junto com a metade do efetivo disponível, Juneau e Helena desceram as escadas do Serrafiore rumo à resolução daquela noite sombria.

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Se alguém olhasse para o chão das escadas, evitando as sombras da madrugada monegasca, fatalmente veria a trilha de gotas de sangue escapando pelo flanco de Davina. Ela sentia a bala alojada, o metal dentro da carne. Somente Deus sabia como ela não dilacerou músculos e ossos ou como a maldita dificultava seu resgate.

A cada passo em direção ao décimo andar, a respiração ficava mais errática. Não importava o estado fragmentado da mente, a adrenalina inibia a dor e a teimosia, a sensação de impotência. Fora da visão, fora do coração, murmurava a mente, mas era impossível não tentar estancar o buraco em troca de minutos a mais de vida.

Maldito Ermal e sua corja. Sua aparição certamente não foi coincidência. Para o chefe da máfia albanesa vir lidar pessoalmente com a remoção de uma renegada aparentemente morta, é porque algo estava errado. Pandora estava em jogo. Bastava uma mensagem pelo aplicativo e voilà, cá eles estariam, prestes a removê-la permanentemente da terra.

O ChacalOnde histórias criam vida. Descubra agora