Quattuor

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As palavras de Corvus e Petrus pareciam entrelaçar-se, criando uma teia em que eu me via presa. Ambos continuavam a tentar convencer-me a segui-los, cada um com as suas razões e promessas. O peso das suas intenções fazia o ar à minha volta ficar pesado, como se o próprio destino estivesse a dobrar-se sobre mim, a pressionar-me a escolher um caminho que eu não compreendia.

Petrus mantinha-se próximo, a intensidade nos seus olhos penetrantes fazendo-me sentir exposta. Ele falava com uma urgência calma, mas havia algo no tom dele que indicava que não tinha muito tempo. Cada palavra parecia cuidadosamente escolhida, como se estivesse a medir o seu impacto sobre mim.

— Eu sei que isto é muito para processar — disse ele, o tom a suavizar-se. — Mas o teu poder está a despertar, e não há como fugir disso. Tu és uma Stellaris, fazes parte de uma linhagem poderosa. Se não aprenderes a controlar a tua magia, serás uma ameaça para ti mesma e para todos à tua volta. Eu posso ajudar-te a entender o que realmente és.

Afastei-me ligeiramente, os meus pensamentos em desordem. Stellaris, magia, poder... tudo isso parecia tão distante da minha realidade. Eu era apenas eu, alguém que cresceu numa pequena aldeia, que lida com a normalidade da vida em Veridia. Nunca pensei que houvesse algo de especial em mim, muito menos algo ligado às estrelas e à magia.

Enquanto eu tentava digerir as palavras de Petrus, Corvus interveio, os seus olhos fixos em mim, como se pudesse ver algo que eu própria não conseguia compreender.

— Não precisas de confiar em mim para perceberes que há verdade nas minhas palavras — afirmou Corvus, o tom mais frio, mas com uma ressonância quase hipnótica. — Os Magni Stellaris não vão simplesmente deixar-te em paz quando souberem o que realmente és. A tua existência é um risco para eles. Tens uma escolha a fazer: ou aceitas o teu poder e o teu destino, ou esperas que te forcem a fazer essa escolha.

O som das suas vozes misturava-se com o pulsar do meu coração, e eu sentia a confusão a transformar-se em raiva. Como ousavam falar do meu destino, como se a minha vida não fosse nada além de um conjunto de possibilidades para eles explorarem? Eu não era um peão no jogo deles, mas, naquele momento, sentia-me exatamente assim.

Antes que pudesse responder, a voz da minha mãe, ou seja lá o que ela é, ecoou pelo ar.

— Cate, escuta o que eles têm para dizer — disse ela, a voz firme mas não isenta de emoção. — Há muito mais em jogo do que tu possas imaginar. O teu destino é maior do que todos nós, e não o podes evitar. Está na altura de aceitares quem és e decidires o que fazer.

Virei-me para ela, incrédula. As palavras dela soavam quase cúmplices, como se soubesse da existência desse outro mundo o tempo todo. Um nó formou-se na minha garganta enquanto olhava para a mulher que me criou, sentindo a primeira fenda na confiança que sempre tive por ela.

— Sabias disto? — perguntei, a voz a tremer. — Sabias e nunca me disseste? Sempre estiveste do lado deles?

Ela hesitou, e os olhos dela refletiam dor e preocupação.

— Sempre fizemos o que achávamos melhor para te proteger — respondeu ela, o tom dela suave mas inabalável. — O que te foi escondido foi por amor. Queríamos que tivesses uma vida normal, mas agora tens de aceitar a verdade e escolher o teu caminho. Não posso decidir por ti.

A traição ardia no meu peito, tão viva quanto a sensação de estar a ser arrastada para fora de uma vida que, até aquele momento, eu pensava ser real. Petrus e Corvus continuavam a encarar-me, mas o meu olhar estava fixo nos olhos da minha mãe. Era como se estivesse a encarar um estranho, alguém que me ocultou o mundo verdadeiro. Não havia palavras para expressar a mágoa e a confusão que se formavam dentro de mim.

O Despertar das SombrasHistórias para pegar e não largar. Descubra agora