Viginti Duo

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PETRUS

Estava finalmente de saída da mansão, e, enquanto me afastava, uma onda de memórias atravessou-me. A Domus Umbrae, com a sua grandiosidade oculta, havia-se tornado um refúgio improvável, um lugar onde comecei a ver o mundo como ele realmente era. Mesmo que a casa estivesse envolta em mistério e planos secretos, ela contrastava com o palácio onde cresci, que agora percebia estar rodeado de mentiras. O palácio que antes simbolizava tudo o que eu acreditava e que agora se tornava o maior símbolo do engano que governa Astralis.

Margarita notou a expressão que eu tentava esconder e aproximou-se com um olhar compreensivo.

— Não precisas de Cinis Transitus, Petrus. O Corvus preparou um portal para ti na entrada da mansão. Levar-te-á diretamente ao ponto mais próximo do palácio sem ser detetado, — disse ela, num tom firme mas com uma sombra de apreensão nos olhos. — Tens tudo o que precisas, certo? Não te esqueças, eles vão avaliar cada gesto, cada olhar.

Assenti, tentando transmitir uma confiança que mal sentia, mas sabia que era tarde demais para recuar.

A minha mente recuou para os dias de glória em que, como um dos guardiões estelares mais importantes, tinha acesso a privilégios especiais. Entre eles, o Cinis Transitus — o pó de teletransporte que apenas alguns Stellaris privilegiados poderiam obter. Esse pó raro, criado por Stellaris com uma ligação mágica muito específica, permitia viagens instantâneas para quase qualquer lugar em Astralis. Como guardião estelar, carregava sempre uma pequena reserva comigo para completar as missões.

Agora, no entanto, não tinha esse luxo. Estava dependente do portal que Corvus preparara para mim, e, por mais que isso simbolizasse o meu novo propósito, sentia um aperto no estômago. Era um lembrete de que, ao regressar ao palácio, eu teria de ser mais do que um bom ator — teria de convencer os próprios Magni Stellaris de que ainda era fiel a eles, mesmo sabendo, no fundo, que já não era.

Saímos para o exterior, onde Marcus me esperava, o rosto inexpressivo mas atento. Ele olhou-me de cima a baixo, como se procurasse sinais de hesitação.

— Vai com cuidado, Petrus, — disse ele, com uma seriedade quase paternal. — Não arrisques sem necessidade. Eles podem confiar em ti, mas não deixam de ser imprevisíveis.

Num gesto breve, mas significativo, apertei-lhe o ombro. A nossa despedida não precisava de palavras; a compreensão mútua entre nós bastava.

Enquanto me dirigia ao portal, olhei para cima e vi Corvus na varanda do seu escritório. Ele mantinha-se ali, a observar-me com a intensidade habitual, mas naquele momento, havia algo mais no seu olhar — uma última confirmação silenciosa de que tudo isto era pelo bem de Cate e de Astralis, e que eu tinha de seguir o plano, custasse o que custasse.

Com um aceno discreto, despedi-me dele e continuei o meu caminho, mergulhando nas sombras e deixando o meu novo destino envolver-me.

Atravessar o portal de volta para o palácio era como enfrentar uma tempestade de emoções. Cada passo parecia pesar, cada sombra no chão me lembrava do papel que agora tinha de desempenhar. Eu estava coberto de hematomas, cada um deles uma lembrança do último adeus na Domus Umbrae. Marcus tinha feito um bom trabalho ao tornar o meu "cativeiro" credível, e agora só restava uma coisa a fazer: encenar a última parte.

Os guardas notaram-me imediatamente, as suas expressões a passarem de choque para preocupação. Tropecei, com a mão a ir ao bolso onde Margarita me entregara um pequeno frasco — a poção para dormir. Era agora ou nunca.

Levei o frasco aos lábios e bebi todo o líquido amargo. Em segundos, o meu corpo começou a perder a força, o mundo ao redor a desvanecer-se. O chão parecia aproximar-se de mim rapidamente, e então caí, a poção a fazer o seu efeito. Ouvi vagamente os guardas a correrem até mim, gritos distantes a ecoarem antes de tudo se apagar.

O Despertar das SombrasHistórias para pegar e não largar. Descubra agora