Viginti Novem

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CATE

Quando entrei no escritório onde Corvus me esperava, o ambiente estava mergulhado numa quietude estranha. As sombras pareciam mais densas, quase como se absorvessem a luz, e ele estava lá, sentado com uma postura que emanava poder e serenidade. O olhar dele encontrou o meu, e naquele instante, senti uma mistura de sentimentos a tomar conta de mim: curiosidade, incerteza, e uma pitada de medo que não conseguia definir totalmente.

— Cate, senta-te por favor. — A voz dele soou profunda e controlada, quase suave, como se cada palavra fosse cuidadosamente medida. Ele indicou o assento à sua frente, e fiz o meu melhor para não hesitar enquanto me sentava. — Está na hora de saberes toda a verdade sobre ti... e sobre mim.

O coração bateu-me mais rápido ao ouvir aquilo. Queria saber tudo... mas ao mesmo tempo, um receio sombrio invadia-me, algo que me dizia para estar atenta, para não me deixar levar pelas palavras dele sem questionar. Corvus fixou o olhar em mim, e o rosto dele suavizou-se num sorriso que eu nunca tinha visto.

— Como já soubeste... sou o teu pai, Cate. O teu verdadeiro pai. — As palavras dele pairaram no ar como uma confissão, como algo que ele queria guardar mas que já não podia reter. — As condições levaram a que soubesses de uma forma que eu não queria... mas o importante agora é que já o sabes. Como eu já sabia tu és uma menina... ou melhor, uma mulher incrível. E a tua mãe... a Cassielia foi a mulher mais corajosa que já conheci.

O mundo parecia desacelerar ao ouvir aquelas palavras, e senti uma onda de emoções conflitantes. A ideia de que ele era meu pai, algo tão grande e ao mesmo tempo tão difícil de aceitar, misturava-se com a curiosidade sobre a minha mãe. Cassielia.

Não consegui dizer nada, apenas continuei a olhá-lo, esperando que continuasse.

— Ela e eu... tínhamos algo muito especial. Ela não era apenas poderosa, mas também sábia, uma mulher que entendia a magia de formas que poucos conseguiam. Mas o poder dela... bem, tu sabes, as constelações proibidas... elas têm um preço. Um preço que muitos, principalmente os Magni Stellaris, queriam a todo o custo controlar.

Ele fez uma pausa, como se pesasse as palavras, e o olhar dele recaiu sobre o amuleto que pendia no meu pescoço.

— Foi por isso que, quando tu nasceste, decidimos que terias de ficar longe de tudo isto, crescer longe desta confusão... então a tua mãe levou-te para Veridia, para te esconder com os Vesper. Sabíamos que mais cedo ou mais tarde, os Magni Stellaris viriam atrás de ti, da tua magia. Ela levou-te para longe de tudo, de todos, para te proteger. Mas eu... eu decidi não saber onde estavas, não quis que ela me dissesse... sabia que se soubesse iria procurar-te e não iria aguentar ficar longe de ti... mas desde que a Cassielia morreu, sempre estive à tua procura, quis trazer-te de volta. No fundo para também a ter de volta... — Ele olhou para mim com uma intensidade que quase me fez acreditar de imediato em tudo aquilo.

— Então, porquê agora? Por que só agora decidiste revelar tudo isso? — A minha voz saiu quase como um sussurro, mas carregada da confusão e da dor que fervilhavam dentro de mim.

Ele respirou fundo, o olhar distante, como se revisse memórias antigas e dolorosas.

— Um dia... enquanto nos escondíamos pelas sombras de Astraeus, o nosso esconderijo foi encontrado. Alguém nos traiu, e os Magni Stellaris, com toda a sua crueldade, mandaram alguém atrás de nós. Mas acontece que ela estava sozinha em casa quando eles apareceram... e queriam acabar com qualquer vestígio do poder proibido dela. — A voz dele tremeu ligeiramente, um toque de tristeza que soou quase genuíno. — Eles emboscaram-na, e ela... não teve hipótese. Eu cheguei tarde demais...Foi morta... morreu na minha frente. Mas foi corajosa até ao fim. Então eu tive de fazer alguma coisa... forjei a minha morte, como se me tivesse suicidado... Eles então acreditaram que eu também tinha morrido, e não teriam de me perseguir mais. E foi assim que, para sobreviver, abandonei o meu nome... e a minha identidade, como Lucianus, e passei a ser... Corvus. E por isso não te contei de imediato, pouquíssimas pessoas sabiam, apenas Horace e Astrid, que são da minha extrema confiança.

O Despertar das SombrasHistórias para pegar e não largar. Descubra agora