Triginta Quinque

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MARGARITA

O salão da mansão fervilhava de vozes e movimentos, como se a tentativa de manter uma aparência de normalidade pudesse afastar a tensão que pairava no ar. Era um esforço coletivo, quase desesperado, para encontrar algum conforto no meio do caos que se aproximava. As mesas estavam cheias de comida variada para o jantar, junto com vinho e também chá quente que fumegava em canecas de barro. Mas o calor das bebidas não parecia suficiente para aquecer o ambiente carregado.

Eu sentei-me entre Petrus e Marcus, enquanto Lysander ocupava a cadeira à frente, com Cate ao seu lado.

Marcus foi o primeiro a quebrar o silêncio, a voz dele a soar mais leve do que o ambiente justificava.

— Bem, se vamos destruir um império inteiro, pelo menos temos comida decente para nos despedirmos. — Ele sorriu, pegando um pedaço de pão.

Lysander soltou um grunhido baixo, meio riso, meio reprovação.

— É bom ver que alguém ainda consegue brincar enquanto o mundo está a desmoronar, — comentou, o tom seco.

Eu revirei os olhos, mas tentei acompanhar o tom de Marcus.

— Sempre com uma visão otimista, não é, Marcus? — disse, com uma pitada de sarcasmo.

Ele encolheu os ombros, mastigando o pão com indiferença.

— Se não nos rirmos agora, vamos acabar a chorar depois. E eu não quero desperdiçar energia em lágrimas quando tenho balas para disparar.

A tentativa de humor arrancou algumas risadas baixas, mas a seriedade voltou logo em seguida. Era impossível ignorar o elefante na sala.

— Sobre o plano do Corvus... — comecei, tentando medir as palavras. — Não consigo deixar de pensar que é um erro. Atacar o palácio já é perigoso, mas envolver a Academia Stellae? É insano. Estamos a falar de jovens, de estudantes que podem nem sequer ter escolhido este caminho. Como é que podemos justificar isso?

Petrus assentiu, o rosto dele sombrio.

— Concordo contigo, Margarita. A academia é composta, sim, por jovens treinados para servir os Magni Stellaris, mas eles não tiveram escolha. São moldados para aquilo desde sempre. Não são inimigos, são vítimas do mesmo sistema que estamos a tentar derrubar.

Lysander inclinou-se para a frente, cruzando os braços sobre a mesa. O olhar dele era frio e direto.

— Vítimas ou não, eles são uma ameaça. Acreditas mesmo que os tutores e os alunos mais avançados vão ficar de braços cruzados enquanto tentamos derrubar o conselho? Todos sabemos como a academia funciona. Eles vão lutar, e não vão hesitar em nos matar.

— Não estás errado, Lysander, mas isso não justifica nada, — retorqui, sentindo o calor subir ao meu rosto. — Se nos rebaixarmos a atacar estudantes, não haverá muito que nos distinga dos Magni Stellaris.

Antes que Lysander pudesse responder, Marcus levantou a mão, interrompendo.

— Não estou a dizer que concordo com o plano, — começou ele, num tom calmo. — Mas temos de admitir que é eficaz. A academia é uma base de treino e, estrategicamente, enfraquecê-los também a eles pode ser a chave para desequilibrar o poder do conselho. Só acho que a decisão foi tomada rápido demais. Não avaliámos todas as consequências.

Marisia, que até então tinha estado em silêncio, finalmente interveio.

— Talvez vocês estejam certos em hesitar, — disse ela, a voz baixa, mas firme, enquanto levantou a manga da sua camisola de lã, apontando as runas que lhe marcam a pele como exemplo. — Mas o conselho não hesita. Não quando se trata de destruir aqueles que apontam como o inimigo. Eu não me orgulho em dizer isto, mas talvez o ataque seja necessário. Se não formos nós a agir primeiro, eles irão fazê-lo...

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