Triginta Octo

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CATE

Os últimos dias foram um emaranhado de caos e silêncio. O amuleto, que antes parecia controlar cada palavra, cada ação minha, perdeu parte do seu domínio. Não sei como aconteceu, mas a pressão constante que ele exercia sobre os meus pensamentos enfraqueceu. Consigo falar mais livremente agora, como se tivesse recuperado uma pequena fração da minha vontade. Mas, por mais que isso pareça uma vitória, ainda sinto o peso dele. Não posso ir contra o meu pai. Não posso dizer a verdade sobre o que ele me fez. Cada vez que tento, as palavras morrem antes de sair. É como se a magia do amuleto tivesse uma corrente apertada à volta da minha garganta, a lembrar-me de quem realmente está no controlo.

Petrus voltou para o palácio há quatro dias. A última vez que nos falámos foi quando ele saiu do quarto dele, depois da discussão sobre a maldição... A ausência dele pesa mais do que gostaria de admitir. Tento convencer-me de que é melhor assim, que a distância é necessária para ambos recuperarmos algum equilíbrio, mas a verdade é que não passa de uma mentira conveniente.

A mansão está diferente. A Domus Umbrae, que antes parecia ser um refúgio estratégico, transformou-se num verdadeiro campo de guerra. O salão principal está cheio de aldeões que conseguiram fugir de Lunaris, famílias inteiras enroladas em sacos de cama nos cantos e corredores. Crianças choram durante a noite, incapazes de esquecer o fogo e o sangue que deixaram para trás. Os adultos... eles não choram. Em vez disso, há uma raiva palpável, um ódio que cresce a cada dia. Muitos juntaram-se aos dissidentes, sedentos por vingança contra o conselho dos Magni Stellaris.

Esta mudança preocupa-me. A causa dos dissidentes sempre foi sobre liberdade, justiça, a esperança de um mundo diferente. Mas agora... agora parece que estamos a ser consumidos pela mesma fome de poder que jurámos combater. Cada dia que passa sinto mais medo das consequências desta guerra.

E Corvus... Não posso ignorar o que ele se tornou. Acreditei de início que o meu pai era um homem que fazia o que fosse necessário para proteger aqueles que amava. Mas agora vejo-o como realmente é: alguém obcecado pelo controlo, disposto a sacrificar tudo e todos para alcançar os seus objetivos. Se ele for bem-sucedido... se conseguir derrubar o conselho e tomar o poder, o que fará com Astralis?

Talvez seja isso que mais me assusta. A ideia de que a liderança de Corvus possa ser ainda pior do que a dos Magni Stellaris. Ele já matou a minha mãe. Já me transformou numa peça no seu jogo, uma peça que manipula como bem entende. O que mais ele fará?

Não tenho respostas. Só dúvidas. E o tempo está a esgotar-se. Amanhã, tudo mudará. O ataque ao palácio é iminente, e com ele virão decisões que não poderei evitar. Decisões que poderão definir não apenas o meu futuro, mas o de todo o mundo de Astralis.

Fechei os olhos por um momento, deixando que o silêncio do meu quarto me envolvesse. Era o único lugar onde conseguia respirar sem sentir o peso de tantas vidas dependentes do que está por vir. Mas até esse silêncio estava a desaparecer, engolido pelo caos que se espalhava pela mansão.

Enquanto estava perdida nos meus pensamentos, a porta do quarto abriu-se lentamente. Levantei o olhar para ver Margarita a entrar. O rosto dela, embora marcado pelo cansaço, estava determinado, os olhos fixos em mim. Fechou a porta atrás de si com cuidado antes de se aproximar.

— Cate, preciso de falar contigo. — começou, a voz baixa, mas firme.

Assenti, mas mantive-me em silêncio. Já sabia o que ela queria perguntar, e temia a direção que aquela conversa iria tomar.

Ela sentou-se ao meu lado na cama, mas manteve uma ligeira distância, como se me desse espaço. Ainda assim, o olhar dela não vacilava.

— Como é que estás? — perguntou, a preocupação sincera no tom.

O Despertar das SombrasHistórias para pegar e não largar. Descubra agora