De volta ao lar

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Altamente recomendado ler ouvindo mockingbird-Eminem

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Voltar para casa era um alívio e, ao mesmo tempo, um desafio. Cada movimento era cuidadoso, cada respiração pesada, cada passo um lembrete do que eu não podia fazer. Não podia carregar, não podia me curvar, não podia correr, não podia ser o pai que Pablo estava acostumado a ter. E ele... bem, ele parecia entender isso de uma maneira que partia meu coração.

Pablo, meu pequeno furacão, sempre cheio de energia e perguntas, agora era só uma brisa. Ele estava ali, sempre ao meu lado, mas tão silencioso, tão cuidadoso, como se tivesse medo de me quebrar ainda mais.

Ele sentava na poltrona ao lado do sofá onde eu passava a maior parte do tempo de repouso, as pernas cruzadas de um jeito desajeitado e as mãozinhas no colo. De vez em quando, pegava um de seus livrinhos e o folheava, mas não me pedia para ler. Ele sabia que eu não podia me sentar direito ainda.

Quando ele falava, sua voz era baixa, como se estivesse contando um segredo. "Papai, sabe que o Pingo é muito engraçado? Ele tenta morder o próprio rabo e fica tonto."

Eu sorria, sempre sorria. "É mesmo, baixinho? Ele tá fazendo isso agora?"

"Não... agora ele tá dormindo na cama dele."

Ele olhava pra mim como se estivesse medindo cada palavra, como se quisesse ter certeza de que eu estava prestando atenção. E eu sempre estava. Ele era meu mundo inteiro, e eu não queria que ele sentisse, nem por um segundo, que eu não estava ali para ele.

Pablo quase não pedia nada. Não me pedia colo quando eu estava em pé, não me chamava para brincar de pega-pega pela casa, e isso era tão errado. Ele sempre foi tão dependente de mim, tão agarrado, e agora... parecia estar me protegendo.

No começo, ele brincava sozinho no tapete da sala, sempre a uma distância de onde eu podia vê-lo. Ele construía torres de bloquinhos ou fazia barulhos engraçados com seus carrinhos, mas até isso parecia mais contido.

"Tá tudo bem, filho?" perguntei um dia, quebrando o silêncio enquanto ele alinhava seus carrinhos no chão.

Ele levantou os olhinhos para mim, aqueles olhos enormes que diziam tudo. "Tô... Só tô brincando."

"Você pode brincar como quiser, tá? Não precisa ficar quietinho."

Ele me deu um sorriso tímido e voltou para os carrinhos, mas ainda não fazia barulho.

A única coisa que eu realmente fazia por ele, que eu me recusava a deixar de fazer, era cozinhar. Ele precisava comer, e eu podia ao menos lidar com isso. Era doloroso ficar de pé por muito tempo, mas era o tipo de dor que eu podia suportar por ele.

"Pablo, o que você quer pro almoço hoje?" perguntei enquanto me levantava devagar do sofá.

Ele correu até mim, segurando minha mão como se quisesse me ajudar a levantar. Meu coração apertou.

"Pode ser macarrão?" ele perguntou, baixinho, olhando para os próprios pés.

"Claro que pode. Que tal com molho de queijo?"

Ele sorriu, finalmente, aquele sorriso cheio de dentes que iluminava a sala. "Sim! Molho de queijo!"

Enquanto eu preparava o macarrão, ele sentou na bancada da cozinha, as perninhas balançando, me observando atentamente. Ele não dizia muito, mas seus olhinhos brilhavam toda vez que eu olhava para ele e fazia uma careta ou mexia na panela de um jeito exagerado para fazê-lo rir.

Quando coloquei o prato dele na mesa, ele agradeceu baixinho e começou a comer com cuidado, como se estivesse comendo a melhor refeição do mundo.

"Tá gostoso, filho?" perguntei, me sentando com dificuldade na cadeira ao lado.

"Tá sim, papai. É o melhor macarrão do mundo."

Aquelas palavras, simples e sinceras, fizeram meu peito apertar. Mesmo com todas as limitações, mesmo sem poder ser o pai que corria, brincava e o carregava no colo, ele ainda achava que eu era suficiente.

Depois do almoço, ele insistiu em me ajudar a limpar a cozinha. "Você senta, papai. Eu pego os pratos."

E lá estava ele, equilibrando os pratos com tanto cuidado, subindo no banquinho para colocá-los na pia. Não era perfeito, mas era o jeito dele de cuidar de mim, assim como eu cuidava dele.

Aquele dia foi como muitos outros desde que voltei para casa. Tranquilo, silencioso, mas cheio de pequenos momentos que me lembravam o quanto Pablo era especial. Ele não precisava ser barulhento ou pedir atenção para mostrar o quanto me amava. Ele estava ali, sempre ao meu lado, e isso era tudo o que eu precisava.

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