2TP: nao acho justo

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Eu não parava de falar

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Eu não parava de falar.

Sério, não conseguia ficar quieto nem por um segundo. Estava no carro com meu pai, indo para o meu primeiro treino no time principal, e a adrenalina estava a mil dentro de mim.

"Cara, eu não acredito nisso. Três semanas e eu vou jogar no Camp Nou. No time principal do Barcelona. E vou jogar com você, pai! Isso é insano! Eu não sei nem como—"

"Pablo..."

"E tipo, você tem noção? Quantas pessoas sonham com isso? Eu tô surtando, de verdade! Eu já imaginei mil cenários na minha cabeça, e—"

"Pablo."

O tom do meu pai me fez calar a boca na hora. Ele ainda estava focado na estrada, dirigindo com aquela expressão serena dele, mas algo estava diferente. Eu senti no ar.

"Que foi?" perguntei, franzindo a testa.

Ele respirou fundo antes de soltar:

"Esse vai ser o meu último jogo."

O carro ficou em silêncio.

Eu pisquei, tentando processar as palavras.

"O quê?" Minha voz saiu mais baixa do que eu esperava.

Meu pai olhou rapidamente para mim antes de voltar os olhos para a estrada.

"Depois desse jogo, eu vou me aposentar."

Eu fiquei paralisado. Meu coração estava batendo mais forte do que antes, mas não era mais por empolgação. Era por choque.

"Você tá brincando, né?"

Ele soltou um riso fraco.

"Não tô, filho."

Eu fiquei sem reação. Meu pai ia se aposentar? Como assim? Ele ainda jogava bem! Ele ainda tinha energia! Ainda dava passes inacreditáveis e era uma lenda em campo! Como assim ele ia parar?

"Mas... por quê?"

Ele suspirou, e pela primeira vez desde que entrou no carro, seu tom de voz estava diferente.

"Pablo, eu jogo futebol profissionalmente desde os 16 anos. O Barcelona me deu tudo. Mas agora... eu quero aproveitar outras coisas também. Quero ter mais tempo com você, com a sua mãe. Quero estar em casa mais vezes, não perder momentos importantes."

Eu engoli em seco.

Mas era assim que funcionava, não era?

O tempo passava. Os jogadores envelheciam. Até as lendas precisavam dizer adeus em algum momento.

Mas eu não esperava que fosse agora.

Eu achava que teria mais tempo.

"E você escolheu o meu primeiro jogo pra ser o seu último?" Minha voz saiu meio engasgada, e eu odiei isso.

Ele sorriu de canto.

"Eu não escolhi por acaso, filho."

Eu continuei olhando para ele, esperando ele continuar.

"Você é a minha maior conquista, Pablo. Eu não podia pedir um jeito melhor de encerrar minha carreira do que jogando ao seu lado. Te vendo entrar em campo, realizando o seu sonho. Meu último jogo... e o seu primeiro."

Eu senti um nó na garganta.

Ele queria que o nosso momento fosse compartilhado. Que o fim da trajetória dele marcasse o começo da minha.

Era bonito. Era simbólico.

E, ao mesmo tempo, doía.

Porque eu queria jogar com meu pai por muito mais tempo.

Eu olhei para frente, vendo a cidade passar pela janela, tentando processar tudo. Meu pai continuava dirigindo, esperando eu dizer alguma coisa.

Mas eu não sabia o que dizer.

Então, no final, quando chegamos no estacionamento do CT, só soltei um suspiro pesado e cruzei os braços, resmungando:

"Não acho justo."

Meu pai riu e bagunçou meu cabelo rapidamente com uma das mãos.

"Bem-vindo ao futebol, filho. Nem sempre é justo."

Fuck, i'm dad! Histórias para pegar e não largar. Descubra agora