2TP: imóvel

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Eu não me mexia

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Eu não me mexia. Nem um músculo.

Estava sentado no sofá, completamente imóvel, quase prendendo a respiração, como se qualquer movimento meu fosse alertar o predador. O predador, no caso, era o meu filho, que finalmente tinha parado de me bombardear com perguntas impossíveis e estava distraído assistindo desenho na TV.

Eu nem sabia qual era o desenho. Não importava. O que importava era que ele estava quieto. Isso era raro ultimamente.

Fechei os olhos por um segundo, tentando recuperar a paz interior que eu tinha perdido desde que ele começou a fase das perguntas. Mas foi só eu pensar nisso que a última pérola dele ecoou na minha mente, me fazendo abrir os olhos de novo.

"Mas por que eu nasci na mamãe errada?"

Eu precisei de cinco segundos de silêncio absoluto para processar essa.

A pergunta veio logo depois de eu explicar que ele tinha nascido da barriga da mãe biológica dele e não da Ana. Porque, para ele, Ana era a mãe dele. E eu entendia, porque ela cuidava dele desde que tinha entrado na nossa vida. Mas quando tentei explicar que bebês nasciam da barriga das mães biológicas, ele simplesmente respondeu com aquela frase.

Como eu respondia isso?

A real é que eu não sabia. Não era uma resposta simples, porque ele ainda era pequeno demais pra entender tudo que envolvia essa história.

Olhei para ele agora, sentado no tapete da sala, com um cobertor enrolado nos ombros, segurando um bonequinho e rindo sozinho do desenho. Tão pequeno. Tão inocente.

Me doía saber que, um dia, ele teria idade suficiente para entender tudo. Que, um dia, ele perceberia que sua história não começou com Ana e comigo, mas que a gente fez de tudo para que continuasse com a gente.

Mas hoje não era esse dia.

Hoje, ele estava ali, rindo de um desenho qualquer, e isso era o que importava.

Então, continuei no sofá, imóvel, apenas aproveitando o raro momento de silêncio. Eu sabia que, mais cedo ou mais tarde, ele voltaria a perguntar sobre os mistérios do universo. E eu ia precisar me preparar para isso.

Fuck, i'm dad! Histórias para pegar e não largar. Descubra agora