2TP: comprável

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Eu estava vencendo

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Eu estava vencendo.

Pela primeira vez no dia, Pablo estava distraído, hipnotizado pelo desenho na TV. O silêncio era quase sagrado. Eu não queria estragar aquele momento por nada. Então fiquei ali, imóvel no sofá, mal respirando, só aproveitando a paz temporária.

Mas aí... aconteceu.

Um espirro.

Maldito.

Eu nem tinha percebido que ia acontecer. Foi um espirro inocente, pequeno, nada exagerado. Mas foi o suficiente pra chamar a atenção do baixinho.

Devagar, ele virou a cabeça em minha direção, os olhos arregalados como se tivesse acabado de lembrar da minha existência.

Fingi que não notei.

Fingi que não tava ali.

Mas já era tarde demais.

— Papai, você não respondeu minha pergunta.

Eu apertei os olhos por um segundo, respirando fundo.

— Que pergunta, filho?

Talvez, só talvez, ele tivesse esquecido.

— Por que eu nasci na mamãe errada.

Droga.

Abri a boca, fechei de novo. Passei a mão no rosto. Eu já deveria ter imaginado que ele não ia esquecer.

— Olha, Pablo... não é que você nasceu na mamãe errada. Você nasceu na mamãe que te carregou na barriga, mas... nem sempre os bebês ficam com quem carregou eles na barriga, sabe? Às vezes, eles encontram outra família depois.

Ele franziu a testa, pensativo.

— Mas por quê?

Meu Deus.

Eu já devia ter aprendido que nenhuma resposta dele vinha sozinha.

— Porque às vezes a primeira mamãe não pode cuidar do bebê, então outra família cuida.

Ele continuou me olhando, os olhinhos expressivos demais.

— E a minha primeira mamãe não podia cuidar de mim?

Suspirei baixinho.

— Acho que não, filho. Mas sabe o que importa? Que você tá aqui agora, e eu nunca vou deixar de cuidar de você.

Ele sorriu um pouquinho, mas ainda não parecia totalmente satisfeito. Eu só queria que ele mudasse de assunto.

Mas aí, ele soltou a bomba.

— Então eu nasci na sua barriga, papai?

Meu cérebro simplesmente travou.

— O quê?

— Você disse que às vezes os bebês vão pra outra família, então eu fui pra sua barriga?

Eu só encarei ele.

Ele me olhava como se tivesse descoberto a verdade absoluta da vida.

Eu sabia que, se dissesse que não, ele ia voltar pro papo da mamãe errada.

Mas se eu dissesse que sim...

Bom, aí eu ia ter que explicar como ele saiu de lá.

E, sinceramente, eu não tava pronto pra essa conversa. Então, fiz oque todo pai despreparado faria.

— Pablo...

— Hein, papai?

— Quer um sorvete?

Ele arregalou os olhinhos, esquecendo a pergunta imediatamente.

— Quero!

Levantei num segundo, agradecendo a todos os santos por essa criança ser facilmente comprável com comida.

Eu sabia que isso ia voltar um dia.

Mas hoje, pelo menos, eu tinha conseguido fugir.

Fuck, i'm dad! Histórias para pegar e não largar. Descubra agora