Capítulo 42

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Não encontrei Dave em lugar nenhum. Eu aproveitei que a sala estava vazia e sentei no sofá, mas acabei pegando no sono.

Acordei ouvindo um barulho chato, de alguém batendo o pé no chão sucessivamente. Encarei o teto por alguns segundos, tentando assimilar onde eu estava, então ergui a cabeça, sentindo uma dor no pescoço. Vi Dave a minha frente, no outro sofá, os cotovelos apoiados nos joelhos, me encarando enquanto continuava batendo o pé.

— Vamos embora.

— Tá... — Esfreguei os olhos — Posso escovar os dentes primeiro?

— À vontade.

Ele me encarou, sem dizer mais nada. O clima estava estranho, então levantei logo e fui até o banheiro. A casa estava silenciosa, acho que todo mundo dormia.
Entrei no banheiro, sorrateira, lavei o rosto, a boca e passei as mãos molhadas no cabelo. Eu já nem lembrava bem o que havia dito na noite anterior, mas sabia que tinha feito merda. Abri a porta, pronta para ir pedir desculpas ao Dave, mas dei de cara com Virgínia.

— Bom dia, querida! — Sussurrou — Que bom que já está de pé, acabei de falar com o Dave, nós vamos para a casa da minha irmã, almoçar e passar o dia por lá. Você vai amar, tem uma cachoeira lá perto e...

Já fui saindo do banheiro com ela me falando as mil maravilhas que seria o passeio. Dave estava na sala, de pé, inquieto, evitando olhar para mim. Lisa já estava no sofá, tomando uma xícara de café, e pareceu perceber a tensão entre nós dois. Foi um longo dia...

*

O lugar onde a irmã de Virginia morava era realmente muito bonito, nós fomos na cachoeira pela manhã e mais tarde almoçamos todos juntos na beira de um rio próximo dali.
Passei o dia inteiro tentando me aproximar do Dave para conversarmos, mas ele estava sempre inacessível, com gente em volta ou simplesmente sumindo do mapa.
Às 17h, voltamos para a casa onde foi a festa do dia anterior. Deixamos Virginia e Lisa, me despedi e voltei para Seattle com Dave. Dormi durante os primeiros 30 minutos, até que acordei de repente, sentindo que o carro estava parado. Vi que estava sozinha ali dentro, olhei pela janela do motorista, vendo um posto de gasolina no outro lado da rua. Mas Dave não estava lá, então, olhei pela minha janela, e o avistei a alguns metros, encostado na cabine de um telefone público, fumando um cigarro.
Saí do carro e fui até lá, e já bem próxima, tropecei em algo, mas antes que eu mergulhasse chão afora, ele rapidamente me segurou.

— Opa, cuidado!

Eu me agarrei em seus braços, me mantendo estável.

— Você está bem? — Ele pareceu preocupado, me puxando para mais perto de si.

— Sim, valeu.

Nos encaramos por um breve instante, na beira daquela estrada, no fim de tarde nublado, sentindo um leve petricor. Ele deu um sorrisinho cansado, pouco antes de acariciar minha bochecha e encostar os lábios nos meus. Mas logo se afastou, desviando o olhar.

— Vamos?

Nós voltamos para o carro, e não falamos muito durante o resto da viagem.

Quando paramos em frente a casa do Krist, a porta de entrada estava aberta e havia copos descartáveis e garrafas espalhadas pelo jardim.

— É... A farra foi boa. — Dave comentou, analisando a entrada da casa.

Tirei o cinto de segurança e percebi que ele não.

— Não quer entrar?

— Não, eu tenho que ir.

— Poxa, você podia passar a noite aqui, a gente pode assistir filmes até tarde igual aquele dia.

— Não, valeu.

— Me desculpa, tá bom? Eu não deveria ter dito certas coisas mas...

— Olha, não esquenta com isso não.

— Eu só quero que a gente fique de boa.

Coloquei a mão por cima da sua no volante, mas ele a afastou, coçou a testa, um pouco sem jeito e recostou-se no banco.

— Eu não tenho muita certeza do que rolou esse fim de semana, e acho que você também não, bom, não sei, quem sabe?

— O quê? Como assim, a gente...

— Mad.

Ele enfim olhou para mim:

— O que a gente tem não é suficiente para sustentar uma relação.

Olhei para ele, tentando conter minha indignação. Catei minha mochila perto dos meus pés:

— Não, você não consegue sustentar uma relação.

Saí do carro, batendo a porta com toda a força da raiva que estava sentindo. Marchei pelo jardim até a entrada, ouvindo o carro arrancar e sumir pela rua.
Entrando na sala, me deparei com alguns caras no sofá, tomando cerveja e rindo, enquanto Krist estava de pé no meio de um monólogo. Quando ele me viu, parou de falar subitamente e veio até mim, sem se importar com os outros ali.

— Mad? Oi, voltou cedo.

Ele parecia incomodado com algo.

— É, estou de volta. — Suspirei.

— Pois é... Eu não esperava que você fosse voltar hoje então...

— Que foi? Por que tá esquisito assim? Cadê a Sheli?

— Ah, ela está lá nos fundos, mas, olha...

— Ainda tem cerveja? Só quero tomar uma latinha e ir me deitar, não vou atrapalhar a festa de vocês, tá bom?

— Tudo bem, só que...

— Eu vou lá. — Interrompi, já indo em direção a cozinha.

Passei pelo pequeno corredor e entrando na cozinha, parei. Kurt estava ali, de pé encostado na pia, com a testa franzida, tentando ler algo no rótulo de um pacote de bolacha.

— Oi. — Consegui dizer, sem gaguejar.

Ele então me viu ali, me olhando como se tudo ao redor não existisse mais.

— Oi.

Rolou alguns segundos de silêncio, até que ele perguntou.

— Onde você estava?

— Por que isso seria da sua conta?

— Foi exatamente o que Krist disse quando o perguntei.

— Fui para Tacoma com o Dave.

— É, vocês não perderam tempo, não é mesmo?

— Você também não.

Percebi que ele perdeu um pouco a postura, ia dar um passo à frente mas hesitou. Passou a mão pelo cabelo e me encarou, com os olhos marejados. Antes que ele pudesse dizer algo, ouvi a voz de Krist ao meu lado.

— Tudo certo por aqui?

Foi o tempo de olhar para o Krist e responder que sim, e quando me virei para frente novamente, vi Kurt saindo pela porta dos fundos.

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