Isabela, afilhada de Katherine, pede a ajuda a sua madrinha ao sua vida desabar com a notícia de estar grávida. Ela que tinha um sonho de ser artista, viu sua vida tornar-se ainda mais complexa ao estar grávida enquanto se via envolvida em um dilema...
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(Isa a narrar)
O sol já se punha quando regressámos a casa. A luz dourada entrava pelas janelas, pintando tudo com um ar quase sereno — quase. Porque sabíamos que, naquela casa, a tranquilidade durava pouco.
A minha madrinha chamou-nos para jantar, e os cheiros da cozinha deixavam qualquer um com fome. Massa à bolonhesa, a minha comida favorita. Sentei-me num dos lugares da ponta da mesa, e logo ao meu lado guardei um lugar.
– Este é para a Jackie. – pensei, ao ver que ela andava às voltas, com o prato na mão e um olhar perdido.
Alguns dos rapazes estavam a ocupar mais espaço do que deviam, e a Parker, sem grande paciência, também não parecia disposta a ceder lugar. A Jackie olhava em volta, hesitante, provavelmente a sentir-se ainda mais deslocada.
Quando ela finalmente chegou até mim, soltei um sorriso.
– Aqui, Jackie. Guardei-te este.
Ela sentou-se, um pouco tímida, mas murmurou um "obrigada" quase imperceptível. Isaac e Lee estavam sentados à nossa frente. A tensão entre eles parecia ter melhorado um pouco — pelo menos por fora.
Foi então que aconteceu.
Eu estava a cortar um pedaço de pão quando senti algo a mexer-se debaixo da mesa. Primeiro pensei que fosse só a minha imaginação, mas depois senti de novo — algo a deslizar perto da minha perna.
A Jackie, ao meu lado, também pareceu sentir.
– O que é que...? – começou ela, inclinando-se para espreitar por baixo da mesa.
E antes que eu pudesse dizer ou fazer alguma coisa, ela gritou. Alto.
Saltou da cadeira tão rápido que a perna da mesa abanou. O prato dela voou diretamente sobre nós duas. Eu fiquei coberta no ombro e parte do braço. Ela levou com o resto.
– Encontrei te! – gritou Jordan. – Estava a tua procura!
Jackie estava a tremer, coberta de molho e pedaços de massa, com os olhos arregalados. Toda a mesa caiu numa gargalhada menos eu, a Katherine e o George, alguns soltavam risos mais contidos, outros completamente descontrolados.
Mas Jackie não achou graça nenhuma.
Katherine levantou-se de imediato.
– Jackie, querida, eu ajudo-te a limpar.
Mas a Jackie recuou um passo, os olhos cheios de lágrimas e raiva.
– Não preciso da tua ajuda.
E saiu da sala, subindo as escadas a correr, deixando um rasto de molho no chão.
Fiquei ali, sem saber o que fazer durante uns segundos. Depois levantei-me lentamente.
– Eu vou ver com ela está. Preciso de me limpar também. – disse, tentando disfarçar.
– Obrigada, Isa. – murmurou a minha madrinha, com um olhar cheio de gratidão e cansaço.
Saí da sala de jantar com o coração apertado, ainda a tentar ignorar o cheiro a bolonhesa entranhado na roupa. Quando me afastei o suficiente, comecei a ouvir a voz da Katherine a elevar-se um pouco.
– ...vocês pensam que é engraçado? Ela perdeu a família, o mundo dela virou do avesso! E acham que rir-se da desgraça dela é aceitável? Ela já sofreu muito, e agora precisa do nosso apoio.
Não consegui ouvir as respostas. Ao subir as escadas, o som foi-se esbatendo, abafado pelos degraus, pela distância... e talvez pela culpa que todos deviam estar a sentir.
A casa tinha voltado ao seu caos habitual. Mas dentro daquele caos, sentia-se algo a mudar. E, de alguma forma, eu sabia que aquela noite ia marcar o início de algo novo — para ela, e para todos nós.
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